Sem preocupações, sem rancor, rir de si mesmo, saber lidar com o dinheiro (e com a falta dele), manter as amizades sinceras, reconhecer seus defeitos e lutar contra eles, cuidar do corpo e da mente. As receitas para viver bem são inúmeras e, geralmente, quem as dá, quase nunca as segue.
Mas, como seres ainda em fase de experimentação que somos, temos que fazer um certo esforço para viver minimamente bem. O famoso "não nos deixeis cair em tentação", constante na prece que Jesus nos ensinou, serve para esse texto. Não devemos cair na tentação de dar dicas de vida aos outros, se nós mesmos deixamos a nossa às moscas.
O jornalista fluminense José Carlos Oliveira, escreveu Receita de Viver. Nesse texto, Carlinhos Oliveira fala de detalhes que podem deixar a vida um pouco mais leve. Como escritor, não obteve tanto êxito no mundo editorial, mas foi feliz. Teve uma vida boêmia e cercado por bons amigos - dentre eles, Vinícius de Moraes e Tom Jobim. Não entrou para o rol dos grandes escritores brasileiros, mas e daí?
O conceito de ser bem sucedido é relativo. Pra mim, ser o CEO de uma multinacional e aparecer nas mídias como "a personalidade do ano", talvez não seja sinônimo de uma vida invejável. Me inspira muito mais quem pode viver tranquilamente num lugar simples, sabendo se virar dentro daquele dinheiro contado, mas aproveitando o tempo com engrandecimento espiritual, cuidando de animais e plantas, fazendo caminhadas silenciosas para poder pensar em paz, sentindo-se parte de algo bem maior do que uma empresa ou o mercado: um universo infinito, com mundos e criaturas incontáveis e mistérios ainda a serem sondados.
Carlinhos Oliveira cita coisas como: chegar aos 30 já tendo cometido algumas loucuras, não exacerbar-se com as preocupações materiais, juntar grana para viagens, "nunca ferir uma mulher a ponto de fazer-se odiado por ela, estar sempre em condições morais de perder tudo e começar tudo outra vez (...) evitar ao máximo o paletó e a gravata, os chatos que falam no ouvido (...) os bêbados que mudam de personalidade quando lúcidos, os vizinhos muito prestativos e todo papo do qual participem mais de três pessoas (...) não discutir preços – é melhor ir embora sem comprar (...) saber contar com irreverência histórias em que faz papel de bobo, e que tenham acontecido realmente. Viver tão intensamente que possa dizer à morte, quando vier: 'Já veio tarde'".
Com quatro décadas de vida, não sei se posso passar receitas, mas algumas experiências podem ser compartilhadas, na esperança de que sirva de algo a alguém.
- Ao contrário de Carlinhos Oliveira, não sou boêmia. Minhas "noitadas" se resumem em seriados, documentários, desenhos, livros e gatos no colo. São coisas que ensinam e relaxam. Recomendo.
- Acreditar em algo, em uma força espiritual ou universal que rege tudo em perfeita harmonia. Saber que nada acontece por acaso ou à toa. Não é conformismo; é compreensão.
- Adotar um animal. Não desenvolvi o tal amor materno, mas acho que já cheguei perto ao adotar minhas gatas, cujo amor transmitido só pelo olhar, me transformou.
- Nada de pré-conceitos. Se o outro não se veste como você, não professa a mesma fé ou vive de outra maneira, não julgue. Aqui na Terra, não temos autoridade para nada; somos apenas alunos e não mestres.
- Leia. Não importa a sua preferência literária. Quem lê, tem repertório, sabe conversar, é espirituoso e argumentativo. Só não fique citando frases célebres a todo momento: isso é pedantismo.
- Pare de se alimentar da desgraça alheia. Tem muita gente azeda por aí que torce pelo divórcio dos outros, que finge compaixão ante a enfermidade ou da falência de alguém. Apreciar tragédias é cafona e adoece.
- Seja fiel à sua essência. Não interprete um papel só para agradar aos outros e se enquadrar.
- Respeite mais seu estômago. Barriga muito cheia atrapalha os pensamentos.
- Ouça mais e fale menos. Por isso temos dois ouvidos e uma boca.
- Não desmereça o trabalho dos outros. Todos são importantes nessa engrenagem que é a sociedade.
- Valorize momentos aparentemente bobos: um café entre amigos, deitar-se sobre um lençol cheirosinho, achar 5 reais no bolso de uma calça, uma flor que brota "do nada" no seu jardim, fazer uma gentileza, uma brisa fresca num dia quente.
- Enfim, que saibamos trabalhar, construir, transformar, aprender, ensinar, pensar, criar, refazer, rir, desabafar, aproveitar, observar, de modo que a morte não nos assuste. Mas que seja apenas mais um estágio para outros novos verbos.

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