quarta-feira, 10 de julho de 2019

TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO



Último desejo. Tão difícil escolher um. Primeiro porque essa ideia nos remete à gente que está à beira da morte, ou no momento de um fuzilamento. Em qualquer uma destas situações em que eu eventualmente me metesse, levaria horas para resolver. Queria ver os quadros de Botticelli, Rafael, Da Vinci e Caravaggio - face to face -; caminhar pelas plantações de uva da Toscana, poder salvar o maior número de animais que eu pudesse, ir à FLIP, mostrar às pessoas que não precisamos comer aquela vaquinha linda e nem o seu lindo bebê, livrar as cidades das pichações, que mais crianças gostassem de ler, que mais adolescentes usassem menos “eu te amo” com estranhos e mais com os seus, que ninguém apanhasse por crer ou não em Deus, que houvesse máquinas do tempo (só com a finalidade de passeio, não de alterar a ordem das coisas), que mais gente trocasse os motores pelos pedais, que os pássaros desconhecessem as gaiolas, que as baleias desconhecessem os arpões, que os homens fossem menos revoltados e mais resignados, desenvolver o poder que todo mundo tem (e nem desconfia) no chakra coronário, ver as linhas de Nazca, avistar discos voadores, ver meus familiares e amigos felizes e continuar rindo muito de bobagens. Enfim, a gente quer tanta coisa, que chega a dar raiva! E acho que foi mais ou menos isso que Rachel de Queiroz quis mostrar em seu delicioso texto Talvez o último desejo. Imagino que tenha sido isso. 

É que certa vez lhe perguntaram qual era o seu maior desejo (isso em 1950). Ela naturalmente respondeu “muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro em casa”, como todos nós fazemos nos famigerados votos de fim de ano. Mas, disse ela, que na verdade, seu desejo era pegar o planeta, olhar bem nos olhos dele e dizer: dane-se! Dane-se ao mundo, aos países, às cidades, ao seu homem, ao respeitável público, à pátria: “Que cresças, que aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou que compres ervilhas de lata, que simule eleições ou que engula golpes. Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu”. Queria mandar danar-se as parentalhas, o bom nome, o dinheiro, e deitaria-se numa rede branca sob uma jaqueira, roendo castanha-de-caju confeitada (sem remorso), e nela balançaria até dormir ao som de Noel Rosa e lendo Ágata Christie. Mas não dava. 

O coração não deixaria. O coração, essa armadilha, lhe traria todos os problemas do mundo e dos entes queridos e faria com que ela, cheia do sentimento de fraternidade, sentisse a dor dos seus, se achasse responsável pelas mazelas da terra e do céu. Coração insolente. 

Me senti exatamente – e novamente – como Rachel. Queria mandar o mundo às favas, mandar o Brasil se lixar, que continuem escolhendo seus presidentes em troca de esmolas, que continuem idolatrando celebridades ocas e negligenciando seus verdadeiros gênios, dane-se o mundo e que continuem derrubando árvores, esquentando e sujando o ar, acabando com os animais, virando máquinas, querendo ser Deus ao mesmo tempo em que zomba Dele; dane-se juventude que anda armada e mata gente trabalhadora em troca de umas pedrinhas, danem-se as crianças que já fazem outras crianças, danem-se os governantes mentirosos que um dia vão pra debaixo da terra também. Mas não dá... O coração não deixa a gente ser tão duro. 

Sabemos que lá no íntimo, por mais que tenhamos raiva de algo ou alguém, lá está o coração, esse chato, nos lembrando que não nos faz bem pensar assim. Lá está aquele intrometido nos lembrando que temos amor, piedade, caridade e empatia dentro dele. É só querer usar. E temos que “cuidar do mundo e vigiar o mundo”, como diz Rachel. 
Então, se eu tivesse um último desejo, pediria que o cérebro e o coração entrassem logo num acordo, porque não é prudente sermos moles o tempo todo, mas também nunca é bom sermos duros o tempo todo.

(escrito e publicado em 9 de julho de 2015)

sexta-feira, 21 de junho de 2019

🌸 GUERRA X AMOR: A ORIGEM DA FLOR DE CEREJEIRA 🌸

Nossas cerejeiras estão rosadas de novo. E ainda que não estivessem, e mesmo quando não estão, eu continuo caminhando entre elas. Foi entre as cerejeiras que aprendi a meditar e a ver o tempo correr de forma diferente. O bosque das cerejeiras do lago e eu, logo mais, completaremos 40 anos. Mas minha ligação com esse lugar vai além dessa coincidência.

Não é exagero em dizer que parte do meu tratamento físico, mental e espiritual está se dando ali. Caminhar, sentar e meditar entre as cerejeiras tem sido um valoroso aprendizado pra mim. E foi pensando nisso, com um imenso carinho, que resolvi compartilhar uma lenda sobre a origem da sakura, a flor de cerejeira. 

Conta-se que na época do Japão feudal, quando as guerras eram constantes e muitas famílias perdiam seus entes queridos, havia um bosque intocado, um local que nem mesmo os generais ousavam invadir. Todas as árvores e plantas deste bosque tinham uma beleza exuberante e um perfume embriagador. Todos viam naquele lugar, um refúgio para as mazelas que assolavam a população. Era muita dor e sangue derramado por todo lado, mas naquele bosque as pessoas que sofriam, tentavam renovar sua esperança. 

No entanto, havia ali uma árvore bem jovem, mas que nunca havia florescido. Era seca, aparentava estar morta; nenhum animal se aproximava dela por medo e nada crescia ao seu redor. Certa vez, um espírito - um anjo, talvez - compadecido, disse à árvore que ele lhe concederia um encanto que duraria 20 anos. Neste tempo, a árvore poderia se transformar em humano e experimentar todos os sentimentos; que ela preenchesse seu coração com todas as emoções para se inspirar e florescer. Se depois desses 20 anos, nada lhe tocasse, ela voltaria a ser árvore e morreria. E assim aconteceu: a árvore assumiu a aparência de um rapaz, deu-se o nome de Yohiro (que significa esperança) e saiu para conhecer o mundo. Mas tudo o que viu era guerra, sofrimento, miséria e ódio. Queria voltar a ser árvore, pois nada daquilo lhe abrandava o coração. 

Até o dia em que conheceu Sakura, uma moça que ia buscar água num rio. Ele se ofereceu para lhe ajudar a levar a água para casa e conforme os dias iam passando, Yohiro e Sakura ficaram muito amigos, tinham uma grande sintonia: passeavam, conversavam muito, liam poemas, cantavam e se divertiam. E isso foi tocando o coração de Yohiro. Toda vez que se separavam, ele ficava com saudades dela. Um dia ele lhe contou sua história, sobre ser uma árvore e que seu prazo de 20 anos estava terminando. 

O cenário horroroso da guerra assolava todos os cantos e o rapaz voltou a ser árvore - seca, triste, prestes a morrer. Foi quando Sakura foi até a árvore, abraçou-a e confessou-lhe seu amor. O anjo apareceu e propôs à moça que ela poderia evitar a morte de Yohiro se ela se unisse a ele. Pensando em todo o sofrimento de seu povo e no amor de Yohiro, ela decidiu se juntar a ele. Então, ambos se tornaram um só, a mesma árvore, e floresceram juntos: a mais frondosa, florida e perfumada árvore daquele bosque. 

Com seu sacrifício, Sakura  - cujo significado é flor de cerejeira -, virou o símbolo do amor que vence o ódio, que leva esperança às pessoas e que floresce, mesmo em meio às situações mais tristes. 

Essa lenda pode nos mostrar que não precisamos ser uma árvore tão seca quando as maldades do mundo. Que cada um de nós tem a sua "metade sakura" para podermos florescer - seja ela um amor, um amigo, pai, mãe, irmão, um companheiro fiel de quatro patas... 

Venha de onde vier esse amor, que em meio ao caos que o mundo está se tornando, cultivemos dentro de nós, a nossa flor de cerejeira. 

sábado, 15 de junho de 2019

🍁 ESQUILOS DE OUTONO 🍁


Acho que vou na contramão de muita gente, porque adoro o outono. Não sinto um pingo de saudades do verão. Muitos acham o outono meio melancólico, talvez porque as imagens de folhas caindo e deixando as árvores nuas possam remeter à solidão, à partida, à secura das coisas e pessoas... Não sei. Mas eu amo o outono. E amo os esquilos. Daí porque li este texto de Érico Veríssimo, que só pelo título não dá pistas do que encontraremos. E aqui sim, vemos um tipo de sentimento triste e corrosivo que alguns associam às estações mais frias. 

Veríssimo nos conta sobre Gerald K. Ames, um cinquentão viúvo bem sucedido, um dos maiorais da grande companhia de seguros Monumental Insurance, de Washington D.C. Apesar de todo o dinheiro, sucesso profissional e de sair em colunas badalas de magazines como a Time, Gerald é sentimentalmente inseguro e autodestrutivo. De origem humilde, batia muito de frente com o pai autoritário, até o dia em que saiu de casa e se fez sozinho num mundo muito competitivo. No fundo queria ser pintor, entendia muito de arte do século XIX, mas sufocava esse lado sensível. Quantos não cometem esse verdadeiro crime contra a sua própria alma, com medo do que a sociedade vai pensar? 

Um dia, na Galeria Nacional, ele conheceu Lizzy. Encantou-se por ela, com seus 25 anos. Mesmo cheio de dúvidas (afinal, ela mais parecia sua filha), casou-se. Porém, sentindo-se velho e vendo a juventude da esposa, Gerald se afundava em pensamentos negativos; imaginava Lizzy nos braços de seu sobrinho conquistador e por isso se entupia de remédios para dormir e, depois, mais drogas para ficar acordado. Fumava ininterruptamente. Tinha "visões". Estava se matando. 

Numa tarde de outono, saiu dirigindo com seus devaneios, seu ciúme e suas fantasias destrutivas, quando parou num parque para, diante das árvores e das folhas laranjas e vermelhas, tentar se acalmar. Viu um grupo de esquilinhos correndo e brincando. Gostava deles. Na verdade até os invejava. Tentou fazer amizade com um, que lhe mordeu o dedo. Irritado, entrou no carro e passou por cima do esquilo. Voltou pra casa, remoendo-se de arrependimento. Encontrou a esposa - tinha certeza de que ela passara a tarde no desfrute, mas percebeu que sua paranoia estava indo longe demais. A mulher apenas, havia saído para encomendar um casaco. Arrepende-se mais ainda pela desconfiança infundada. Nisso, recebe uma ligação do departamento de homicídios. Gerald, no auge de seu ciúme e lutando internamente com esse turbilhão de sentimentos, não havia matado exatamente um esquilo... O desfecho, deixo por conta dos leitores interessados.

Só digo que o conto mexe mesmo com nossa cabeça. Nos mostra que, às vezes, é inútil e até perigoso sufocarmos um sentimento em detrimento de outro, ou de convenções sociais. Se amamos, amamos! Se odiamos, odiamos, ainda que isso seja ruim e exija uma mudança. Insegurança se cura com entendimento, não com autoflagelo. Sonhos não merecem ser abortados por conta de (pré)conceitos que a sociedade inventou. Se sente-se artista, seja-o. Se sente-se empresário, seja-o, mas de forma sincera para consigo mesmo. Caso contrário, apenas sobreviveremos, à base de remédio e invejando os animais - que são felizes por serem eles mesmos. 

quinta-feira, 6 de junho de 2019

💕🎬 OS MEUS CLÁSSICOS DA SESSÃO DA TARDE 📺💕

Ontem minha amiga Flávia me deu algo que foi muito mais que um presente. Foi um “passado”. Explico. Ganhei um pin do Karatê Kid. Há coisa mais oitentista que pin e Karatê Kid? Na verdade há, mas bastou esse pequeno agrado para que eu logo depois me visse relembrando de vários clássicos da minha infância. A começar pelo próprio Karatê Kid. Daniel LaRusso... ♥  Eu tenho certeza que muitos meninos já tentaram fazer aquela posição que ele fazia na praia – e não conseguiam. Aliás, eu acho aquela cena muito bonita (ainda que alguns achem brega - bem como a música-tema,  Glory of Love, de Peter Cetera & Chicago). E quanto às meninas, bom, só queríamos mesmo ver o rostinho lindo do Ralph Macchio. Até hoje ele conserva aquela cara adolescente.

Assim como Matthew Broderick, o Ferris Bueller, de Curtindo a vida adoidado – um filme que pode passar quantas vezes for, que eu dou um jeito de assistir. Acho que todo adolescente (especialmente os saudosistas) já quiseram ser um pouco Ferris: acordar um dia e perceber que a vida passa depressa demais e que, às vezes, é bom fugir da mesmice para saborear as coisas boas que ela tem pra oferecer. Qual aluno nunca quis fazer o diretor tirano da escola de bobo, pegar o carro do pai e sair pela cidade (se passando pelo Rei da Salsicha de Chicago) com os melhores amigos só para ter um dia memorável? 

Também já tive vontade de morar em Astoria, a bucólica cidade onde viviam os Goonies. Apesar de ser um grupo meio estereotipado, eles eram, e são até hoje, a melhor turma dos filmes. Quem nunca teve um amigo sensível, tímido e introspectivo como o Mikey; um patife, debochado e divertido como o Bocão; o gordinho engraçado e gente boa como o Bolão; o japinha CDF como o Dado, ou o líder mais velho e sensato, como o Brandon? Cada vez que escuto Goonies are good enough (da Cindy Lauper) me dá um desejo doido de fazer parte daquele grupo, sair caçando tesouros, decifrando mapas, achar um navio pirata e até fugir de mafiosos italianos super burros.

Ou então viver aventuras mais ousadas como Marty McFly que ia e vinha do futuro dentro do DeLorean, do Doc Brown. Dizem que originalmente a máquina do tempo do filme seria uma geladeira, mas mudaram de ideia com medo de influenciar as crianças a se fecharem nelas depois. Bom, mas se as crianças não imitaram Marty entrando numa geladeira, certamente imitaram o Superman ao tentar voar. Pelo menos um primo meu fez isso de cima de uma antena. E uma das minhas memórias afetivas mais fortes que ainda tenho, são do Christopher Reeves e seus lindos olhos azuis - com certeza o mais belo Kal-El de todos os tempos. 

Mas há quem tivesse passado pelas chatices adolescentes enfrentadas pelos membros do Clube dos Cinco: os também estereotipados John Bender, o bad boy; Claire Standish, a princesinha; Brian Johnson, o nerd; Andrew Clark, o atleta e Allyson Reinolds, a esquisita. A mensagem passada por John Hughes (o mestre do filmes teen 80's) era a de que você não tem obrigação nenhuma de se adequar ao sistema; seja fiel à sua essência. 

E qual menina nunca se sentiu meio Andy Walsh, tímida, de personalidade e criativa, apaixonada pelo galãzinho do colégio, como Blane McDonough? E que tinha um amigo super parceiro, secretamente apaixonado por ela, como era "Duckie" Dale, em A garota de rosa shocking? Falando em colégio, havia ainda um professor muito charmoso que salvava as mais diversas relíquias usando apenas coragem, esperteza, cara de pau e um chicote. Henry Jones - o Indiana. Um dos meus sonhos de criança era ser arqueóloga por causa dele. 

Esses filmes certamente hoje jamais prenderiam uma criança ou adolescente em frente à TV. Lhes pareceriam bobos, mal feitos, forçados. Outros tempos. Mas guardo cada um deles - e vários outros - com muito carinho na memória, pois foram eles os meus companheiros nos momentos de solidão. E são até hoje. São um refúgio; me dão algumas horas para que eu ignore a realidade e dialogue com um kriptoniano gato, um arqueólogo corajoso, um jovem karateca certinho, adolescentes problemáticos, crianças aventureiras e um cientista aloprado que viaja no tempo. 

Certamente que esses não são filmes nada cabeça. Mas são filmes muito coração. 

*** 01 de outubro de 2009 ***

sexta-feira, 31 de maio de 2019

O QUE APRENDI COM OSCAR WILDE (E COM A VIDA)

Dizem que o escritor é uma criatura muito reclusa, já que escrever é um ato bem solitário. Eu, como “projeto de cronista bem mediana” acho impossível alguém escrever algo decente, profundo, verdadeiro ou até puramente divertido, com uma zoeira em volta. Quem escreve pra valer, precisa estar só consigo mesmo, com seus pensamentos, fantasmas, angústias, desejos, segredos, alegrias, irritações, manias, neuras, traumas. Estar sozinho com pedaços de si mesmo. O que não significa que o escritor seja de fato alguém só. Pelo contrário. 

Quantos escritores lemos que têm ou tiveram uma rede vasta de amizades – ou amantes? Fernando Sabino, Hélio Pelegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos eram tão amigos que foram chamados de “os quatro cavaleiros do apocalipse”. Nos anos 40 eles eram o Grupo dos Vintanistas – estavam com 20 anos, mas já discutiam e faziam literatura, em meio à vida boêmia de Belo Horizonte – cidade onde, na Praça Carlos Drummond de Andrade (feliz coincidência) há um conjunto de suas estátuas, batizado de Encontro Marcado. Amizade eternizada no bronze. E nas letras. 

Há ainda as amizades misturadas aos laços de família: o pai de Eça de Queiroz era amigo de Camilo Castelo Branco; e Eça, de Antero de Quental. Além dos irmãos Aluísio e Artur Azevedo, que creio, devem ter sido amigos também. Amizade de sangue.

Clarice Lispector, frequentava o Bar Cinelândia, no Rio, convivendo com Vinícius de Moraes e Rachel de Queiroz; foi amiga de Rubem Braga, Nélida Piñon e “comadre” Érico Veríssimo, além de amiga dos “quatro cavaleiros do apocalipse”. Quando mudou-se para a  Suíça, correspondia-se especialmente com Fernando Sabino; eram cartas quase que diárias. Amizade que resistiu à distância. Clarice também trabalhou pelo próximo sem olhar a quem quando, em 1945, deu assistência aos feridos da guerra em um hospital americano. Amizade desinteressada.  

Em 1845, somado ao seu estado normal de espírito, Edgar Allan Poe, deprimido por conta da censura de seus livros, entregou-se definitivamente ao álcool. Pobre, autodestrutivo e desesperado, apenas um amigo lhe estendeu a mão. Poe foi internado delirante, e morreu no dia seguinte, deixando uma vasta obra, que acabaria por ser um marco na literatura universal. Amizade nos piores momentos e um amigo sem nome. 

E Oscar Wilde (1854 - 1900), um dos meus favoritos, com quem aprendi mais sobre convivência e amizade, com seu texto Eu escolho os meus amigos pela pupila, viu-se completamente sozinho depois que foi acusado e preso pelo “crime” de ser homossexual. Robert Baldwin Ross, jornalista e escritor, e também seu namorado, foi também seu grande amigo, dividindo com ele momentos dos mais dolorosos e humilhantes. Até a morte. Ross cuidou do enterro e das dívidas de Wilde, ajudando a limpar seu nome. Um amigo-amor

Quando Wilde descreveu o que era amizade, para ele não existia o conceito de cor de pele ou hábitos: a pessoa deveria ter um certo brilho no olhar, que fosse uma mistura de santo e louco, de velho e criança, de bobo e sério, sabendo dosar cada coisa para cada situação. Para ele, um amigo te puxa para a realidade quando necessário, mas fantasia contigo para, juntos, desconectarem-se da realidade que, muitas vezes, é dura. "Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças". 

Dos meus amigos, dos quais nunca fiquei sem resposta, tenho meu avesso, tenho minha porção de velhos e crianças, de saudosistas e de pés fincados no chão; tenho neles exemplos de garra e de como não fazer algumas coisas. As pupilas dos meus amigos brilham como aquelas descritas por Oscar Wilde. Ainda que eu não as veja, pela distância geográfica que nos separam. Não são amigos de Face. São amigos da vida toda. Amigos-irmãos. Amigos-primos. Amigos-almas-gêmeas. Amigos-anjos-da-guarda. 

Wilde disse: "Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça". Amigos sábios que não vivem nos extremos. É esse os que eu tenho a felicidade de cultivar. 

"Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que normalidade é uma ilusão imbecil e estéril". E agora, beirando uma nova década de vida, eles ainda me ajudam a saber quem eu sou. E levo cada um deles nesse quebra-cabeças que é minha alma. Sou um pouquinho de cada um e isso me ajuda para que o brilho nas minhas pupilas não se apague. 

Obrigada aos meus amigos. 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

OS GATOS DE ULTHAR


"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo; e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido” - Howard P. Lovecraft (1890 – 1937)

“Veridiana, quer um gato?” – essa pergunta é tão ou mais frequente do que “de onde viemos?” e “pra onde vamos?”. Semana sim, e outra também, alguém vem me oferecer um gatinho que foi abandonado e resgatado. Muita gente sabe do amor que eu tenho por esses bichos. Convivo com eles desde antes de nascer. Estava ainda na barriga da minha mãe quando, em casa, me aguardavam uns gatos – sim, sempre no plural.

Quando digo às pessoas que não consigo imaginar a minha vida sem esses felinos, alguns pensam que é exagero. Mas o caso é que preciso de gatos, preciso de sua energia boa, de seus bigodes, do miado, do olhar e até das lambidinhas com sua linguinha de lixa. Amo todos os bichos, mas tenho uma predileção descarada pelos gatos – tão descarada que está marcada, literalmente, na minha pele. Não os vejo como somente animais – chamo minha gata de minha filha, pois é assim que a sinto. Me preocupo se ela sai para a rua e tarda a voltar, ou se não está comendo direito, como qualquer mãe faz. E me corta a alma quando vejo ou sei de algum gato (ou quaisquer outros animais, para mim, sagrados), maltratado ou morto pelas mãos de seres “humanos”. 

Apesar da criação de leis e campanhas, que muita gente à toa chama de “modinhas”, é urgente que a consciência das pessoas mude, ou que, pelo menos, se abra um pouco para o sofrimento pelo quais os animais passam. Estejam eles nas ruas, nas indústrias, nas arenas, nos laboratórios. Gente ignorante com mania de matar gatos, por exemplo, desperta nos amantes dos animais nosso “pior lado”, o da raiva, da indignação, do ódio pela raça humana. Mas sabemos que nos pautarmos por esses sentimentos, não vai resolver o problema. Ódio se combate com amor. O mal se combate com o bem. Mas se estivéssemos em Ulthar, tudo seria diferente.

Em Ulthar, cidade do conto do (sombrio) norte-americano H.P. Lovecraft, é onde “ninguém jamais mata um gato; e ao olhar para aquele que ronrona perto do fogo aceso na lareira, sei que é verdade”. Essa é a lei maior de Ulthar, não matar nenhum gato. Sua origem vem da passagem de uma caravana de peregrinos - provavelmente de egípcios – pela cidade. Lá, apesar de todos amarem seus gatos, os moradores sabiam que eles eram mortos por um casal de velhos que viva numa cabana sob os carvalhos. A casa, com ares macabros, era a última parada dos gatos. Os animais eram roubados, torturados e mortos, para diversão do casal. Todos sabiam, todos ouviam os miados aterrorizados dos animais, mas nada diziam, por medo dos velhos. 

Um dia, passa por lá um bando de peregrinos e, dentre eles, uma criança com seu gatinho preto. A criança era órfã e tinha em seu gato, seu maior amigo e consolo. Mas o bichano acabou sendo pego pelos velhos. Depois de chorar muito, o menino rezou, e enquanto estendia os braços para o céu e proferia palavras numa língua desconhecida, as nuvens formavam figuras estranhas e o céu parecia medonho. Neste dia, todos os gatos de Ulthar sumiram e as suspeitas caíram sobre o casal assassino. Eis que um garoto diz aos cidadãos que havia visto os gatos no bosque dos carvalhos, andando, como se estivessem num ritual, em torno da cabana dos velhos. Passados alguns dias, todos os gatos voltaram! Mas nenhum aparentava estar com fome, aliás estavam gordinhos e sonolentos. Ficaram assim por dias e as pessoas notaram que a casa dos velhos estava muito quieta. 

Vencendo o receio, alguns homens foram até a cabana: “...e eles arrombaram a porta da chácara e foi só isso que acharam: dois esqueletos humanos no meio do chão de terra, limpos de todo vestígio de carne ou pele, e uma quantidade de besouros estranhos a se arrastar pelos cantos da sala”. Tudo aconteceu depois da passagem do “povo moreno” pela cidade, depois da morte do gatinho do menino e de suas orações que deixaram o céu diferente. Depois deste episódio bizarro, ficou decretado que em Ulthar “ninguém jamais pode matar um gato”. 

Dá até para sentir inveja de um lugar assim, ainda que fictício. As leis tardam a funcionar – quando funcionam – para gente que se diverte com a dor de um animal. Muitos, assim como os aldeões de Ulthar faziam, se calam, se omitem, por medo, por falta de provas. Talvez seja preciso aprender algum ritual egípcio para que os criminosos sejam punidos. De qualquer modo, que São Francisco, o patrono dos animais, e Bastet, a deusa gata, olhem por nossos bichinhos. Se a justiça não chega pelas mãos dos homens, então que venha pelas mãos dos deuses.


sábado, 25 de maio de 2019

🐝 ELAS MORREM. EU MORRO. TODO MUNDO MORRE.


Quando pequena, era comum ainda ver alguma criança reclamando de picada de abelha. "Passa álcool que sara", diziam os adultos. Sadismos à parte, qual criança, até, pelo menos a década de 80, não foi picada por uma abelha? Assim como outros pequenos acidentes, isso fazia parte da infância. Mas hoje, cadê as abelhas?

Essa é a pergunta que vem sendo feita nos últimos anos e que agora, em 2019, ganhou ainda mais força. Milhares delas têm aparecido mortas e seu desaparecimento pode, sem exagero, comprometer até em 80% a nossa alimentação. 

No dia 20 de maio celebrou-se o Dia Mundial das Abelhas - a data foi proposta pela Eslovênia em homenagem ao pioneiro da apicultura moderna, Anton Janša, nascido neste dia, em 1734. A celebração foi instituída em 2017 pela Organização das Nações Unidas, tendo como motivo principal, alertar o mundo sobre os perigos decorrentes da morte destes animais. 

Aprendemos na escola que as abelhas são responsáveis pela polinização: voando de flor em flor, ela carrega consigo o pólen, que fecunda outras flores, e assim mantém em equilíbrio, não apenas o ecossistema, mas a nossa alimentação. Quem tem uma horta, sabe bem disso. 

Infelizmente esses bichinhos podem vir a faltar em breve, livres na natureza. Talvez só existam em criadouros. O que não será o bastante para dar conta de toda uma cadeia de flora - e, consequentemente, de fauna. Não é papo de ecochato alarmista, o desastre já está acontecendo: de dezembro de 2018 a fevereiro agora, mais de meio bilhão de abelhas morreram só nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e São Paulo, por conta do uso de agrotóxicos. Os produtos utilizados no Brasil são tão nocivos ao meio ambiente, que vários de seus componentes já foram abolidos na Europa, há décadas. 

E não adianta os mega agricultores dizerem que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Esse tipo de afirmação é típico de gente mal caráter, ambiciosa e egoísta, que pensa em curto prazo e está se lixando para como ficará o planeta nos próximos anos. Albert Einstein já havia feito a previsão de que as abelhas poderiam desaparecer da Terra e que depois disso, toda a vida animal e humana duraria, no máximo, quatro anos. 

E elas não tem sumido apenas daqui. Na Europa e Estados Unidos também há registros alarmantes; e de acordo com a FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, 75% de todo o cultivo destinado à alimentação humana, dependem das abelhas. Por isso elas vêm sendo vistas como uma das criaturas mais vitais do mundo. Uma pena a humanidade só perceber esse valor quando já é quase tarde demais. E assim vem sendo e será com outras espécies animais e vegetais. 

Pensar apenas na comida no prato de cada dia é ignorar toda uma cadeia que está por trás. O que podemos fazer, então, para, ao menos, amenizar um pouco essa tragédia anunciada? Boicotar produtores que utilizam à vontade todo tipo de veneno - há sites sobre ecologia e direitos dos animais que sempre divulgam esse assunto para consulta - e valorizar mais o pequeno produtor, as famílias que cultivam na zona rural de cada município. Elas trazem o alimento livre de venenos, tratados de modo orgânico e são uma fatia importante para a economia. 

Sou a favor de valorizar quem valoriza o meio ambiente; favorecer quem favorece a natureza. É bom pesquisar sempre as marcas que não utilizam substâncias de origem animal ou que não submeteram animais a testes. Já é um bom começo para educar a mente e o espírito para essa nova realidade em que teremos que parar com demagogias e falsa piedade, e agir realmente. O nosso modo de viver afeta diretamente todo o ecossistema. Nossa alimentação, nosso transporte, o consumo de produtos, o descarte de embalagens, a utilização da água: todos os nossos atos entram para essa imensa conta. 

Aos governantes - de grandes e pequenos municípios - vocês podem começar preservando e aumentando as áreas verdes e incentivando as escolas a educar os pequenos cidadãos para que respeitem o meio ambiente (cartazes e musiquinhas não resolvem o problema: o lance é dar um choque de realidade mesmo). Londres, por exemplo, está construindo 11 quilômetros de corredores de flores silvestres em 22 parques e áreas verdes, a fim de criar um ambiente ideal às atividades polinizadoras das abelhas. Na Europa, desde a Segunda Guerra, os ambientes silvestres vêm sendo ameaçados e as flores foram as primeiras a desaparecer - neste caso, a culpa não é unicamente dos agrotóxicos. 

Mas seja por qual motivo for, a responsabilidade é exclusivamente nossa. Alteração climática, desmatamento, poluição de oceanos e rios, contaminação do solo, péssima qualidade do ar, alimentos ricos em venenos, caça legalizada, falta de leis mais severas, conchavos para agradar à bancada ruralista, fiscais insuficientes, subornos e deboches. Tudo isso somado, só mostra a imbecilidade que ainda reina em nossa sociedade, em pleno 2019 - quando vemos que a profecia de Albert Einstein começa a se cumprir. 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

OS NERDS E OS SERIADOS


O Dia do Orgulho Nerd tá aí e eu desenterrei um texto sobre uma das coisas que os nerds mais curtem: seriados. 

Antes mesmo de saber o que significava ser nerd, acho que sempre fui: óculos desde criança, a total falta de coordenação com os esportes e a timidez excessiva somavam-se às coleções de gibis, aos seriados e super-heróis. E uns 30 anos depois, essas coisas todas ainda me acompanham, com a diferença que hoje em dia ser chamado de nerd é quase como um elogio. Houve um tempo em quem ser nerd era sinônimo de passar cola, fazer a tarefa alheia, ser o preferido do professor, tomar sova na educação física, fazer parte de uma turma meio bizarra com quem ninguém queria andar no recreio. Agora somos tendência de moda, comportamento, consumo e até beleza! Parece que o jogo virou, não é mesmo? 

Mesmo sendo 100% Humanas, minhas séries favoritas sempre abordam conceitos ligados à física e astronomia: viagens no tempo, buracos de minhoca, universos paralelos, realidades alternativas. MacGyver era o terráqueo mais inteligente - e charmoso - dos anos 80; perito em química, salvava o dia sem apelar para armas. E Spock, o alienígena sex symbol - sendo metade vulcano, dominava a arte da fleuma. 

Apesar de parecerem apenas um produto, os seriados são "documentos" de várias épocas, e através de muitos deles podemos compreender o pensamento de uma geração ou os interesses de uma sociedade. Star Trek - a série original, dos anos 60 - abordou questões importantes ligadas à diversidade racial: querendo mostrar que seria, sim, possível, uma sociedade igual para todas as etnias, fizeram da tripulação da U.S.S Enterprise NCC 1701, um amálgama: americanos, europeus (com destaque para um irlandês, um escocês e um russo), negros, asiáticos e aliens, todos convivendo harmonicamente com suas funções e com um único objetivo. O famoso primeiro beijo interracial da TV norte-americana - entre o capitão Kirk e a tenente Uhura - é creditado à série e causou um furor à época. 

"No meu tempo", era preciso esperar uma semana inteira para saber o que aconteceria no próximo episódio - até parte dos anos 90 era assim: não tínhamos internet em casa, então as coisas eram mais devagar. Depois que inventaram os canais pagos, a venda de boxes completos, Youtube e Netflix, dá pra baixar uma temporada inteira e fazer uma maratona. Inúmeros. E que movimentam um mercado imenso de produtos - licenciados ou não. Sim, nerds gastam com os derivados de seriados e filmes como qualquer pessoa "normal" gastaria com comida, por exemplo. Por isso, merecemos, no mínimo, um dia só nosso!


O livro Loucuras dos seriados da TV - 287 histórias reais... e absurdas (de Manoel de Souza, pela Panda Books) me fez rememorar dezenas de seriados que me acompanharam na infância ou que, de certa forma, marcaram a minha década de 80: Esquadrão Classe A, Dallas, A gata e o rato, Super Vicky, Primos Cruzados, Anjos da Lei, A dama de ouro, Miami Vice, Magnum, O elo perdido, Terra de gigantes, A feiticeira, Jeannie é um gênio, Alf, Capitão Marvel (popularmente conhecido por Shazam!). Daí vieram Anos incríveis, As aventuras de Hércules, Xena - a princesa guerreira, Beverly Hills 90210, Dawson´s Creek, Gilmore Girls, Friends, Seinfeld, Blossom, Parker Lewis, Confissões de adolescente, Twin Peaks (e a pergunta que não calava: quem matou Laura Palmer?), Arquivo X, Lois & Clark - As novas aventuras do Superman, The Flash, Buffy, Angel.

Com uma linguagem ainda mais ágil (e polêmica) - e episódios cada vez mais caros - o longevo Doctor Who, a franquia C.S.I, Lost, 24 Horas, Friends, Grey´s Anatomy, Modern Family, Fresh Prince of Bel Air, The Office, Sherlock, Frasier, Doctor House, Fringe, Dexter, Supernatural, Smallville, A família Soprano, Mad Men, Two and a half man, The Big Bang Theory, Breaking Bad, The Walking Dead, Games of Thrones, Lúcifer, Stranger things, Arrow, Supergirl e o novo Flash. Os nerds mais velhos, com 50 anos ou mais, talvez não saibam do que se tratem esses nomes, mas certamente se lembram com carinho de Rin Tin Tin, Maverick, I love Lucy, Thunderbirds, Flash Gordon, A poderosa Ísis, Bonanza, Os pioneiros, A família Dó Ré Mi, Bat Masterson, Lassie, Perdidos no espaço, As panteras, Manimal, Columbo, Zorro, Chaparral, Havaí 5-0, O homem de 6 milhões de dólares, Batman. 

Não importa de qual geração falemos: todas tiveram seus seriados do coração e cada seriado guarda uma história - aquela que nós conhecemos e a outra, dos bastidores, da concepção, das ideias tomando forma, dos fracassos e sucessos. Acompanhamos os seriados e eles nos acompanham; marcam uma época, nos espelham certos personagens, nos tiram da realidade ou nos mergulham nela. Meros produtos, futilidades, ópio. Distração, calmante, companhia. Cada um encara de uma forma, mas é fato que nossa cultura já não vive mais sem seriados (e suas loucuras). 

Então, a todos eles e a nós, nerds: vida longa e próspera.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

A SEMENTE DE MOSTARDA


Qual é o tamanho da sua fé? Não há como saber. Fé não se mede, não se pesa, varia de coração para coração; mas se ela for do tamanho de um grão de mostarda, teremos condições de realizar prodígios. Não é assim que Cristo nos ensinou? E não somente ele, mas Buda e Krishna antes dele. Sim, os três (só para citar alguns poucos, mas os melhores exemplos), cada um a seu tempo, deixaram mensagens belíssimas usando a figura das sementes. Dentro do budismo - dependendo da escola - não há a "necessidade" da presença de Deus para que uma pessoa lute para ser melhor, que consiga sua paz interior, que pratique o bem. Visto pelos ocidentais como uma religião não-teísta, o budismo cala-se sobre Deus, não porque não creia n'Ele, mas porque nos mostra um caminho sem simbolismos para se chegar até Ele: ver sua face sem dizer seu nome. E isso depende muito da meditação e da experiência de cada um. 

E convenhamos: meditação, autoconhecimento, aprimoramento espiritual e a prática de tudo isso, é do que mais temos necessitado nessas últimas décadas tão turbulentas. Me atrevo a dizer (mesmo não sendo profunda conhecedora de Teologia) que cristianismo, budismo e hinduísmo convergem em pontos cruciais. Nasci num lar católico, me tornei espírita, estudo o budismo e hinduísmo e vejo que Deus está em toda e qualquer parte, ainda que nada sobre Ele seja dito. Ele (através de suas obras e seu reino) é o grão de mostarda, mínimo, quase imperceptível, dentro de nós, solo mal preparado, mas com potencial para abrigar uma grande árvore. 

Não vou falar diretamente sobre religião - um dos três temas sobre os quais nunca se deve discutir -, pois este é um espaço dedicado à literatura. Só que, além de bússolas e poderosos calmantes, vejo nos evangelhos e nos ensinamentos orientais, obras literárias. Há histórias, parábolas, alegorias, personagens, cenários, passagens de tempo, o retrato de costumes dos povos, feitos extraordinários, reinos, jogos de interesses, poder, o embate de classes, crises existenciais, o amor filial. São ou não são elementos comumente encontrados em obras literárias, dignas de uma peça shakespeariana, por exemplo? 

Religiosos, me perdoem pela comparação, mas Cristo, Buda e Krishna foram, além de homens fora do comum, grandes ícones. Não quero faltar com respeito quando coloco no mesmo balaio os evangelhos, o budismo, os vedas e a literatura dos simples mortais. Nos livros, sejam eles quais forem, sempre encontramos alguma resposta. E quando digo que o time da videira e o time da flor de lótus jogam do mesmo lado, é porque ambos têm a mesma crença sobre algo eterno, imutável e imenso. (Sobre os termos "time da videira" e "time da flor de lótus", posso assegurar que eles não são nada pejorativos. Ora, se eu tenho Deus como um Pai amoroso, porque não posso ter essa licença poética com Ele?). 

As parábolas da semente de mostarda são as menores (que irônico) dos evangelhos, mas são umas das mais conhecidas. Mateus, Marcos, Lucas e até Tomé (em seu evangelho apócrifo) falam sobre essas passagens: "Porque a fé que vocês têm é pequena. Eu asseguro que, se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: 'Vá daqui para lá', e ele irá. Nada será impossível para vocês" e "O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual grão é, na verdade, a menor de todas as sementes, mas depois de crescido, é a maior das hortaliças e faz-se árvore, de tal modo que as aves do céu vêm pousar nos seus ramos". 

Quando li o conto indiano As sementes de mostarda, vi que em ambos os tempos, Siddhartha e Jesus falavam dessa força poderosa que cada um tem, encapsulada numa sementinha, mas que pode atingir um tamanho imensurável. No conto, há uma mulher que havia acabado de perder seu jovem filho. Desesperada, ela foi visitar Buda, em busca de consolo ou alguma resposta para tamanha dor. Buda lhe recomendou: "Vá até a cidade e peça sementes de mostarda, mas deve ser em casas onde ninguém tenha perdido nenhum ente querido". A mulher saiu batendo às portas, sempre ouvindo a mesma resposta: "Podemos lhe dar quantas sementes quiser, mas a condição não será cumprida, porque muitos parentes morreram nesta casa". 

Exausta por passar o dia caminhando em busca das sementes, ela percebeu que a morte não era uma tragédia pessoal, que não era um "castigo" destinado somente a ela, que a morte abraça a todos e é parte natural da vida. Voltando a Buda, comovida, ela lhe pediu: "Inicie-me. Quero conhecer aquilo que nunca morre. Não peço para recuperar o meu filho, pois mesmo que pudesse recupera-lo, ele morreria novamente. Ensine-me a como encontrar dentro de mim mesma isso que nunca morre". As sementes de mostarda foram um meio apenas, para levar a mulher à resposta que ela procurava. Indo atrás das sementes, ela notou que ela e todos os demais estão juntos na mesma caminhada, visitados pela morte, mas também pela vida. 

As minúsculas sementes, através dos sábios conselhos de Buda ou dos doces ensinamentos de Jesus, acabaram também se tornando personagens da história. Algo ínfimo, mas que guarda em si uma grande força, raízes fortes, ramas generosas. Para encontrar as respostas que buscamos, não precisamos ir atrás de sementes de porta em porta - há um grãozinho de mostarda dentro de cada um de nós, esperando para ser cultivado. Esse é o algo que nunca morre.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

UM PEDAÇO DE DEUS EM CADA MÃE


"Qualquer um que tenha a coragem de superar as limitações da mente, vai atingir o estado de Maternidade Universal. Isto é um amor e compaixão sentidos não só na direção da própria criança, mas também em todas as pessoas, animais, plantas, rochas e rios. E é um amor estendido a toda a natureza e a todos os seres em um, a quem o estado de verdadeira maternidade despertou. Todas as criaturas são seus filhos nesse despertar do amor. Esta maternidade é o Amor Divino. Isto é Deus". 

Eu imagino que amor de mãe seja algo indefinível - só quem é, sente. E mesmo sentindo, não consegue explicar a magnitude. Mas talvez a palavra divinal sirva. Um amor que é plantado por Deus e cujas forças se assemelham. 

A frase sobre a maternidade universal pertence à guru indiana Sri Amma. Nascida em 1954, na Vila Sangra, no Estado de Andhra Pradesh, Amma desde pequena externou grande amor e compaixão por todas as criaturas e sempre buscou um meio de explicar às pessoas um modo de resolver seus problemas através da espiritualidade; Amma sempre levou - e leva - um sorriso no rosto e diz-se que ela costuma aparecer em sonho ou durante as orações para algumas pessoas. Por isso é tida como a encarnação da Mãe Divina. 

Apesar de sua aura de santidade (como denominariam os ocidentais), não é necessário possuir a envergadura de Sri Amma para ser uma mãe divina. Todas, ao seu modo, levam um pedaço da divindade dentro de si. É bem clichê dizer isso, mas quem tem e quem é mãe, conhece essa porção do amor de Deus. Seja mãe de sangue, mãe adotiva, uma tia, uma avó, uma irmã mais velha, uma madrinha, uma professora muito querida, uma amiga. Há tantas formas de se demonstrar mãe. Até mãe de bicho, conta - e eu me incluo nessa categoria. Tenho duas filhas de quatro patas que me mudaram por dentro. 

Quando se aproxima essa data, a do Dia das Mães, a publicidade nos traz também diversos clichês, muitas vezes focando na dificuldade do filho em escolher um presente. O lado comercial do dia nos força a quebrar a cabeça, atrás de um mimo para elas. Mas já pararam para pensar no quanto elas quebram a cabeça, desde quando se souberam grávidas? Há quantas décadas? Filhos são meio egoístas - ainda que inconscientemente - e não sabem os apuros internos que cada mãe deve ter passado - tanto aquelas que se descobriram mães de surpresa ou aquelas que foram mães planejadas. 

E mesmo com tantas coisas para pensar e providenciar; com tantas coisas para sentir e aprender; com tantos palpites da família e tantas dúvidas ou com tantos planos adiados ou sonhos cancelados, ainda assim, houve espaço e tempo para amar. 

E é desse amor que Sri Amma nos fala e nos pede para que apliquemos em tudo no mundo. Se não temos força e nem capacidade para aplicar o próprio amor de Deus, então que saibamos aplicar o amor materno - e também divino - em nossas vidas e em tudo o que fazemos, pois não há amor mais dedicado que este. 

Diz ela que "o amor tem muitas faces; ele se manifesta em momentos e formas diferentes. Em sua relação com o seu filho, o amor se manifesta como afeição. Permita-se ser afetado pelos medos, inseguranças e frustrações complexas do seu filho. Estenda a mão com compreensão. Em relação ao seu relacionamento conjugal, o amor é paixão e respeito; serem amigos e ficarem juntos até nos maus momentos. Para a família, o amor se manifesta como providência e doação. Transforma-se em sensibilidade e consciência das necessidades dos outros. No trabalho, o amor se manifesta como compromisso e paixão pela excelência. Por um amigo, amor significa um conselho correto em tempos difíceis e brincadeiras durante os tempos fáceis. Para a nação, o amor é a criação de riqueza através de integridade. Na vida, o amor vem através da coragem e aceitação. Derrube as paredes do medo e permita que cada experiência flua através de você; assim como as águas modelam as areias. A vida é completa somente quando você cultivar o amor em todas as suas formas". 

Lógico que o amor sentido por um filho, não será sentido por um colega de trabalho. Mas é o exercício em si que podemos por em prática. A paciência, a compaixão, o aconselhamento, os ouvidos, o colo, o incentivo, a fidelidade e a doçura que estão sempre presentes no amor materno é que devemos espalhar pelo mundo. 

Certamente que o planeta seria um lugar bem melhor se todos os vissem pelos olhos de uma mãe: com a sensibilidade de uma mãe do coração, com o entusiasmo de uma mãe-avó, com os cuidados de uma mãe de bicho, com a bravura de uma mãe leoa, com a proteção de uma mãe coruja, com o jogo de cintura de um pai-mãe. 

Ser filho não é fácil; há sempre aquele choque de gerações, a discordância, a rebeldia injustificada. Mas mais difícil ainda é ser mãe: presenciar um filho que trilha um mau caminho ou até perde-lo; ter um filho numa cama de hospital ou num presídio; indignar-se quando o mundo acha que seu filho "não se encaixa" em certos padrões. Aguentar tanta coisa, tanto desaforo, tanto julgamento e ainda assim... Ter um estoque de amor. 

Se prestarmos mais atenção nesse amor, nessa fatia de Deus em nosso dia a dia, e aprendermos a pratica-lo pelo mundo, talvez ainda haja uma saída para a humanidade inteira. Parece exagero de mãe, mas não é. 

quarta-feira, 24 de abril de 2019

"AMAI-VOS UNS AOS OUTROS, COMO EU VOS AMEI"... E APENAS O CACHORRO ENTENDEU


O que era para ser apenas uma gracinha num meme, faz a gente pensar. A frase dita por Jesus aos seus seguidores, ecoa em todo o mundo, é conhecida não apenas pelos cristãos, é pregada em todas as missas de todas as igrejas, é reproduzida em todo canto. Só não é levada como um objetivo de vida. 

E aí vem alguém, na internet, e completa a frase dizendo que só o cachorro entendeu. A imagem, no caso, mostra uma pintura feita em 1790, com Cristo falando aos seus discípulos sobre a questão de César, e no canto, uma montagem com um labrador. Pra mim, mais trágico do que cômico, o meme nos lembra de que é difícil amar a todos como Jesus amou (e ainda ama), mas para um animal, despertar o amor parece ser algo muito simples. Quem nunca fez amizade com um cachorro de rua? Ele nem sabe quem você é, mas se apaixonou por você, te segue, abana o rabo. Te venera como a um deus. O Buda Siddhartha Gautama dizia que para os animais nós somos como deuses, e ainda assim nós os traímos, maltratando-os e exterminando-os. 

Quando me perguntam se eu me tornei vegetariana (há pouco mais de 10 anos) por uma questão de saúde, eu digo que sim: pela saúde dos animais! Pela sua vida, pela sua integridade; pelo amor, respeito, compaixão e empatia que devo a eles e a Deus, que os criou. Não foi Cristo ainda que disse que o que fizermos às menores de suas criaturas, estaríamos fazendo a Ele também? 

Então, o vegetarianismo entrou na minha vida por uma questão de amor aos animais, por me cair a ficha de que eles não merecem morrer para que eu tenha o que comer. A natureza já provém o homem com inúmeros alimentos. É justo assassinar uma criatura só para encher um prato? "Mas um só não vai fazer diferença", me dizem quando nego um pedaço de boi. Pode não fazer a diferença para as pessoas, mas para o serzinho morto, fez toda a diferença do mundo. E é isso que os vegetarianos, veganos, militantes de Ongs e voluntários anônimos buscam evitar: um holocausto animal. O trabalho é de formiga, muitas vezes silencioso ou alvo de deboche, mas por amor a eles, nós seguimos adiante. 

Sem querer entrar em contendas religiosas ou pregar qualquer tipo de dieta, o que quero conversar aqui é puramente sobre a relação que temos com os animais - ou que, pelo menos, deveríamos ter. Antigamente eles eram adorados como deuses: no Egito, crocodilos, aves, touros e especialmente os gatos eram tidos como sagrados; na Índia, os macacos e as vacas - e até os ratos! - são vistos como divindades; os maias tinham no jaguar um poderoso espírito protetor; os sábios índios norte-americanos nutriam profundo respeito pela natureza, venerando animais como lobos, ursos e águias. O que aconteceu com o homem moderno? Que descivilização foi essa que tirou os animais deste posto de respeito e os colocou em laboratórios, circos, arenas e jaulas? 

O filósofo francês René Descartes, no século XVII, prestou um grande desserviço ao declarar que animais são máquinas, pois não possuíam alma - logo, Malebranche, seu discípulo, disse que o uivo de um cão, ao qual se dá um chute, produz o mesmo som de um sino ao qual se bate - ambos os ruídos são mecânicos. Os pensadores têm grande responsabilidade sobre o que dizem, pois podem formar gerações de seguidores - como fazem hoje os influenciadores digitais.

Há religiosos que ainda levam ao pé da letra os dizeres do Antigo Testamento que afirmam que o homem foi criado para dominar sobre os animais e toda a natureza. Olha no que deu essa dominação! Extinção de milhares de espécies e o meio ambiente totalmente degradado. O que foi escrito há mais de 2 mil anos se aplicava à sociedade da época. Hoje nossa relação com os animais deve ser de cooperação. 

Francisco de Assis, já na Idade Média, os chamava de irmãos! Se recusava a pisar numa aranha que fosse. E agora, nosso outro Francisco, o Papa, declarou docemente que os animais também vão para o céu. É esse tipo de exemplo de que o mundo necessita!

E não só dentro das igrejas, mas espalhados por todo lugar: nas escolas, nas comunidades, na internet, na TV, nos livros. Em cada rua, de cada cidade, de cada país, há animais precisando de ajuda tanto quanto as pessoas. E se eles também vão para o céu, é sinal de que têm alma! E se as têm, eles sentem assim como nós o medo, a solidão, o amor, a empatia. A doutrina que sigo, ensina que eles reencarnam, são acolhidos no mundo espiritual com o mesmo amor que os humanos. 

Quem tem companheiros animais, sabe como o carinho que eles nos dão é silencioso, mas sincero e muito forte. Percebem quando não estamos bem, gostam de brincar, têm características e manias únicas. Seu intelecto pode ser rudimentar, mas eles, assim como nós, estão em processo de evolução. 

Por isso nossa relação com eles não deve ser de crueldade, nem de indiferença: eles merecem nossa atenção, nossos esforços e políticas voltadas para seu bem estar. O pensador alemão - conhecido pelo seu pessimismo - Arthur Schopenhauer disse: "A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e quem é cruel com os animais, não pode ser um bom homem", e o líder pacifista indiano Gandhi afirmou: "A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo como seus animais são tratados". Ou seja: se quisermos ser chamados de civilização, não bastam os avanços tecnológicos e intelectuais. Antes devemos buscar a evolução moral, a compaixão, o respeito e a valorização da vida sob todas as suas formas. 

Enquanto escrevo este texto, minha filha-gata Safira (que foi abandonada na rua ainda bebê) está do meu lado, como que me passando uma energia boa, com seu olharzinho tão doce. E neste exato minuto, milhares de outros animais estão em matadouros, numa fila, aterrorizados, sabendo que serão mortos. Daí vem a pergunta que todo "veg" faz aos "carnívoros": por que amar a uns e comer os outros? Por que a vida de alguns têm mais valor que a dos demais? 

Um dia a sociedade achou normal escravizar determinados seres humanos; era bom para a economia e gente de uma cor ou cultura diferente, era inferior. O que ontem era uma prática comum, hoje escandaliza - e com razão. Se a evolução é nosso destino inevitável, então esperamos que logo esse massacre animal também seja visto como uma página nefanda de nossa História. 



quinta-feira, 18 de abril de 2019

❤☕ HISTÓRIAS, CAFÉ E UM DEDIM DE PROSA ☕💚

"Você já bebeu seis xícaras de café! Vou contar pra sua mãe!". Esse era um dos pitos que meu irmão e eu mais ouvíamos na casa da minha avó. Praticamente todas as tardes, durante uns bons anos (os 90) era esse ritual de descer pra lá, bem na hora do café. As 16 horas eram sagradas. Era bem mais divertido do que qualquer vídeo game ou brincadeira de rua ou qualquer outra distração do mundo para gente da nossa idade. O café na casa da vó... 


E por mais que todas as tardes fossem parecidas, elas eram únicas. Era uma conjunção de fatores que tornava todas elas muito legais. O encontro com os primos, ouvir a conversa dos mais velhos, voltar da banca sempre com algum gibi, assistir à Sessão da Tarde, passar trotes pelo telefone (sem identificador de chamadas). E quando era tempo de jabuticabas, outro "pretinho" aparecia na mesa. 

Mal entravamos pela sala e já vinha aquele perfume tão familiar. Meu tio chegava depois com o saco de pães (da saudosa Panificadora 2001). Sobre a toalha quadriculada, às vezes tinha queijo branco com goiabada, remetendo a uma mesa adoravelmente bem caipira. E aí as conversas começavam. Muito do que escutei sobre política na minha adolescência, devo a esses cafés da tarde na dona Valentina. E entre um café e outro, entre uma arte e outra do meu irmão e entre um pito e outro da minha vó (alguns num italiano macarrônico bem engraçado, com sotaque de São Manuel), eu ficava imaginando até quando eu poderia viver aquilo. 

Por isso posso dizer que tenho um carinho especial por essa bebida - daí a minha lembrança tão afetiva, já que o último domingo (dia 14) foi o Dia Mundial do Café. Foi cortando mato e plantando o tal do ouro verde que meus ascendentes portugueses, ainda muito jovens, fizeram sua vida aqui. Meu bisavô do lado italiano também cruzou seu caminho com o café quando viveu numa colônia e viu chegar os imigrantes japoneses para trabalharem na terra. Contava-se que eles, mortos de sede, pediam água, mas no idioma deles. E como não eram compreendidos, eles ganhavam apenas café, pois os colonos pensavam que era isso o que eles pediam, que deviam ter gostado tanto que queriam mais. Os primeiros japoneses "paulistas" tinham que matar a sede com café. Tempos duros pra todos...

Saindo da Etiópia, cruzando o Egito e chegando à Europa, o café foi trazido à América e aqui ganhou status de moeda valiosa. Fez a fortuna e a desgraça de muita gente. Levou progresso onde antes havia apenas mato (se bem que hoje é preferível o mato). Fez crescer cidades como São Paulo, antes das indústrias (Matarazzo); foi, ao lado do leite de Minas, uma escada para se governar o país. Hoje ainda somos o maior produtor e maior exportador de café do mundo, o mercado se desenvolveu, os bebedores estão ficando cada vez mais exigentes e estão se tornando apreciadores; a ciência já disse que café faz bem, depois disse que café faz mal, agora disse de novo que café faz bem. Tá, mas nada disso me interessa tanto quanto as memórias que eu guardo e que vêm à tona quando sinto o cheirinho do café. 

Quando morava perto da torrefação São João, sentia aquele perfume tão característico. Não tinha mais que 5 anos de idade, mas a lembrança ficou. Aí veio o café da mãe, que me ajudava sempre a despertar para ir à escola cedo, e o café da vó, que fazia minha alegria nas tardes. O primeiro e único café decente que fiz na vida foi em 1992, em viagem a Monte Verde, Minas  (percebe-se que nunca fui afeita às artes culinárias). Provei o horrível "chafé" nova-iorquino e o saboroso cafezinho de padaria de Lisboa. Guardo impressões de tudo. Por isso não celebro o tal Dia Mundial do Café. Celebro os dias dos anos 80, quando vivia perto da torrefação; celebro os dias dos anos 90, quando a casa da minha avó era o centro do mundo pra mim; celebro os dias de viagem, em que se pode experimentar os diferentes jeitos de fazer café; celebro hoje em que uma pausa para um café tem sido uma das poucas alegrias dos meus dias. 

E se os romanos têm Baco e os gregos têm Dionísio, deuses do vinho - tão nobre bebida -, acho que devemos reivindicar um deus só nosso, deus do café, pois abençoadas sejam as xícaras nossas de cada dia.

TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO

Último desejo. Tão difícil escolher um. Primeiro porque essa ideia nos remete à gente que está à beira da morte, ou no momento de um ...