quarta-feira, 24 de abril de 2019

"AMAI-VOS UNS AOS OUTROS, COMO EU VOS AMEI"... E APENAS O CACHORRO ENTENDEU


O que era para ser apenas uma gracinha num meme, faz a gente pensar. A frase dita por Jesus aos seus seguidores, ecoa em todo o mundo, é conhecida não apenas pelos cristãos, é pregada em todas as missas de todas as igrejas, é reproduzida em todo canto. Só não é levada como um objetivo de vida. 

E aí vem alguém, na internet, e completa a frase dizendo que só o cachorro entendeu. A imagem, no caso, mostra uma pintura feita em 1790, com Cristo falando aos seus discípulos sobre a questão de César, e no canto, uma montagem com um labrador. Pra mim, mais trágico do que cômico, o meme nos lembra de que é difícil amar a todos como Jesus amou (e ainda ama), mas para um animal, despertar o amor parece ser algo muito simples. Quem nunca fez amizade com um cachorro de rua? Ele nem sabe quem você é, mas se apaixonou por você, te segue, abana o rabo. Te venera como a um deus. O Buda Siddhartha Gautama dizia que para os animais nós somos como deuses, e ainda assim nós os traímos, maltratando-os e exterminando-os. 

Quando me perguntam se eu me tornei vegetariana (há pouco mais de 10 anos) por uma questão de saúde, eu digo que sim: pela saúde dos animais! Pela sua vida, pela sua integridade; pelo amor, respeito, compaixão e empatia que devo a eles e a Deus, que os criou. Não foi Cristo ainda que disse que o que fizermos às menores de suas criaturas, estaríamos fazendo a Ele também? 

Então, o vegetarianismo entrou na minha vida por uma questão de amor aos animais, por me cair a ficha de que eles não merecem morrer para que eu tenha o que comer. A natureza já provém o homem com inúmeros alimentos. É justo assassinar uma criatura só para encher um prato? "Mas um só não vai fazer diferença", me dizem quando nego um pedaço de boi. Pode não fazer a diferença para as pessoas, mas para o serzinho morto, fez toda a diferença do mundo. E é isso que os vegetarianos, veganos, militantes de Ongs e voluntários anônimos buscam evitar: um holocausto animal. O trabalho é de formiga, muitas vezes silencioso ou alvo de deboche, mas por amor a eles, nós seguimos adiante. 

Sem querer entrar em contendas religiosas ou pregar qualquer tipo de dieta, o que quero conversar aqui é puramente sobre a relação que temos com os animais - ou que, pelo menos, deveríamos ter. Antigamente eles eram adorados como deuses: no Egito, crocodilos, aves, touros e especialmente os gatos eram tidos como sagrados; na Índia, os macacos e as vacas - e até os ratos! - são vistos como divindades; os maias tinham no jaguar um poderoso espírito protetor; os sábios índios norte-americanos nutriam profundo respeito pela natureza, venerando animais como lobos, ursos e águias. O que aconteceu com o homem moderno? Que descivilização foi essa que tirou os animais deste posto de respeito e os colocou em laboratórios, circos, arenas e jaulas? 

O filósofo francês René Descartes, no século XVII, prestou um grande desserviço ao declarar que animais são máquinas, pois não possuíam alma - logo, Malebranche, seu discípulo, disse que o uivo de um cão, ao qual se dá um chute, produz o mesmo som de um sino ao qual se bate - ambos os ruídos são mecânicos. Os pensadores têm grande responsabilidade sobre o que dizem, pois podem formar gerações de seguidores - como fazem hoje os influenciadores digitais.

Há religiosos que ainda levam ao pé da letra os dizeres do Antigo Testamento que afirmam que o homem foi criado para dominar sobre os animais e toda a natureza. Olha no que deu essa dominação! Extinção de milhares de espécies e o meio ambiente totalmente degradado. O que foi escrito há mais de 2 mil anos se aplicava à sociedade da época. Hoje nossa relação com os animais deve ser de cooperação. 

Francisco de Assis, já na Idade Média, os chamava de irmãos! Se recusava a pisar numa aranha que fosse. E agora, nosso outro Francisco, o Papa, declarou docemente que os animais também vão para o céu. É esse tipo de exemplo de que o mundo necessita!

E não só dentro das igrejas, mas espalhados por todo lugar: nas escolas, nas comunidades, na internet, na TV, nos livros. Em cada rua, de cada cidade, de cada país, há animais precisando de ajuda tanto quanto as pessoas. E se eles também vão para o céu, é sinal de que têm alma! E se as têm, eles sentem assim como nós o medo, a solidão, o amor, a empatia. A doutrina que sigo, ensina que eles reencarnam, são acolhidos no mundo espiritual com o mesmo amor que os humanos. 

Quem tem companheiros animais, sabe como o carinho que eles nos dão é silencioso, mas sincero e muito forte. Percebem quando não estamos bem, gostam de brincar, têm características e manias únicas. Seu intelecto pode ser rudimentar, mas eles, assim como nós, estão em processo de evolução. 

Por isso nossa relação com eles não deve ser de crueldade, nem de indiferença: eles merecem nossa atenção, nossos esforços e políticas voltadas para seu bem estar. O pensador alemão - conhecido pelo seu pessimismo - Arthur Schopenhauer disse: "A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e quem é cruel com os animais, não pode ser um bom homem", e o líder pacifista indiano Gandhi afirmou: "A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo como seus animais são tratados". Ou seja: se quisermos ser chamados de civilização, não bastam os avanços tecnológicos e intelectuais. Antes devemos buscar a evolução moral, a compaixão, o respeito e a valorização da vida sob todas as suas formas. 

Enquanto escrevo este texto, minha filha-gata Safira (que foi abandonada na rua ainda bebê) está do meu lado, como que me passando uma energia boa, com seu olharzinho tão doce. E neste exato minuto, milhares de outros animais estão em matadouros, numa fila, aterrorizados, sabendo que serão mortos. Daí vem a pergunta que todo "veg" faz aos "carnívoros": por que amar a uns e comer os outros? Por que a vida de alguns têm mais valor que a dos demais? 

Um dia a sociedade achou normal escravizar determinados seres humanos; era bom para a economia e gente de uma cor ou cultura diferente, era inferior. O que ontem era uma prática comum, hoje escandaliza - e com razão. Se a evolução é nosso destino inevitável, então esperamos que logo esse massacre animal também seja visto como uma página nefanda de nossa História. 



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