“Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Essa frase é atribuída a Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma. E é tida como uma das mais sábias proferidas por ele - como se fosse possível fazer um ranking dos ensinamentos mais sábios, dos espíritos mais iluminados que passaram pela Terra – como Jesus, Buda, o Dalai Lama, Francisco de Assis ou o seu xará papa. Seja qual for a sentença que usaram, independente da época, do povo ao qual se dirigiram, as circunstâncias e as consequências de suas frases, todos eles falaram e falam basicamente da paz.
A paz entre os homens que deve começar dentro de casa e se espalhar pelo mundo; o entendimento que é necessário que exista entre pessoas que divergem de opinião, de visão sobre a vida, de experiências e impressões; a tolerância que devemos ter para com aqueles que não pensam e não agem como nós.
É importante lembrar que somos indivíduos. Somos partículas com características diferentes; assim como não há impressões digitais, marcas na íris, manchas na pele dos felinos ou nas asas de uma borboleta ou flocos de neve idênticos, todos nós também diferimos em algo, dos demais. E nem vamos entrar na questão das diferenças físicas. Isso se torna totalmente dispensável perto das diferenças que carregamos dentro da alma. E são elas que nos ajudam a compreender o outro – ou pelo menos deveriam.
Há um conto budista, O samurai e o cavalo (contado pelo professor de budismo Kentetsu Takamori), que, de uma forma precisa e singela, nos mostra que a mudança que ocorre em nós, pode mudar o comportamento do outro – ou seja, que quando somos a mudança, vemos a mudança no mundo. Nos anos 1600, havia um monge do budismo zen, chamado Bankei, que meditava todas as manhãs e depois ia descansar num estábulo. Certa vez, enquanto se refazia, começou a observar quando um samurai chegou para treinar seu cavalo. Bankei reparava que o animal estava visivelmente incomodado, não obedecia aos comandos do seu dono, mostrava-se rebelde às suas ordens. E o samurai, impaciente, batia no cavalo. Um adendo na história: invejo muito os praticantes do budismo zen, que conseguem controlar a ira, pois diante de uma cena desta, minha vontade seria a de pegar o chicote das mãos do samurai e bater nele! Mas como a cena foi diante de um monge, ele apenas se dirigiu ao samurai, lhe perguntando: “O que você acha que está fazendo?”.
O samurai, irritado, continuou chicoteando o animal. E o monge, sabiamente, continuou perguntando. Até que o cavaleiro desceu do lombo do animal, dizendo: “Já faz um tempo que você está falando comigo. Se tem algo a me ensinar, fale, estou pronto para escutar”. Bankei explicou que era tolice culpar o cavalo e descontar nele sua frustração. O animal tem suas próprias razões (todos eles, ao seu modo, têm) e se o samurai pretendia doma-lo, era necessário que ele o convencesse utilizando outra abordagem: “Você precisa começar a corrigir a si próprio”, disse o monge. Afinal, sabemos que se gentileza gera gentileza, intolerância atrai intolerância. Nada mais óbvio.
Então, o samurai humildemente assentiu com a cabeça, fez uma reverência e foi tentar novamente treinar seu cavalo. Mudando sua atitude e aproximando-se do animal com mais tranquilidade, ele montou no animal e percebeu que o cavalo estava mais calmo e obedecia docilmente aos seus comandos. Da mesma forma nós, em qualquer situação em que nos encontremos, devemos ser a mudança que sonhamos ver nos outros e no mundo. Por menor que pareça, por mais insignificante que pensemos ser este gesto, alguém, em algum lugar, poderá ser tocado por ele.
Sempre me indagam se vale a pena eu ser vegetariana; se eu, deixando de comer carne e não comprando nada de couro ou que tenha usado de crueldade com os animais, fará alguma diferença. E eu sempre respondo que, ainda que apenas e somente eu fizesse isso no mundo, sim, faria diferença. Faria diferença para o animal que deixou de ser morto por minha causa. Mas afortunadamente o vegetarianismo não conta só comigo. Somos um bando que, mudando o nosso comportamento, buscamos ver um mundo melhor, ainda que isso leve centenas de anos.
A mudança deve começar do lado de dentro, com sinceridade, com o coração, com determinação. Se formos mais brandos como o monge e mais humildes como o samurai, qualquer cavalo rebelde se tornará o mais doce dos potros.
“Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo” - Siddhartha Gautama, o Buda (500 a.C)
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