sexta-feira, 21 de junho de 2019

🌸 GUERRA X AMOR: A ORIGEM DA FLOR DE CEREJEIRA 🌸

Nossas cerejeiras estão rosadas de novo. E ainda que não estivessem, e mesmo quando não estão, eu continuo caminhando entre elas. Foi entre as cerejeiras que aprendi a meditar e a ver o tempo correr de forma diferente. O bosque das cerejeiras do lago e eu, logo mais, completaremos 40 anos. Mas minha ligação com esse lugar vai além dessa coincidência.

Não é exagero em dizer que parte do meu tratamento físico, mental e espiritual está se dando ali. Caminhar, sentar e meditar entre as cerejeiras tem sido um valoroso aprendizado pra mim. E foi pensando nisso, com um imenso carinho, que resolvi compartilhar uma lenda sobre a origem da sakura, a flor de cerejeira. 

Conta-se que na época do Japão feudal, quando as guerras eram constantes e muitas famílias perdiam seus entes queridos, havia um bosque intocado, um local que nem mesmo os generais ousavam invadir. Todas as árvores e plantas deste bosque tinham uma beleza exuberante e um perfume embriagador. Todos viam naquele lugar, um refúgio para as mazelas que assolavam a população. Era muita dor e sangue derramado por todo lado, mas naquele bosque as pessoas que sofriam, tentavam renovar sua esperança. 

No entanto, havia ali uma árvore bem jovem, mas que nunca havia florescido. Era seca, aparentava estar morta; nenhum animal se aproximava dela por medo e nada crescia ao seu redor. Certa vez, um espírito - um anjo, talvez - compadecido, disse à árvore que ele lhe concederia um encanto que duraria 20 anos. Neste tempo, a árvore poderia se transformar em humano e experimentar todos os sentimentos; que ela preenchesse seu coração com todas as emoções para se inspirar e florescer. Se depois desses 20 anos, nada lhe tocasse, ela voltaria a ser árvore e morreria. E assim aconteceu: a árvore assumiu a aparência de um rapaz, deu-se o nome de Yohiro (que significa esperança) e saiu para conhecer o mundo. Mas tudo o que viu era guerra, sofrimento, miséria e ódio. Queria voltar a ser árvore, pois nada daquilo lhe abrandava o coração. 

Até o dia em que conheceu Sakura, uma moça que ia buscar água num rio. Ele se ofereceu para lhe ajudar a levar a água para casa e conforme os dias iam passando, Yohiro e Sakura ficaram muito amigos, tinham uma grande sintonia: passeavam, conversavam muito, liam poemas, cantavam e se divertiam. E isso foi tocando o coração de Yohiro. Toda vez que se separavam, ele ficava com saudades dela. Um dia ele lhe contou sua história, sobre ser uma árvore e que seu prazo de 20 anos estava terminando. 

O cenário horroroso da guerra assolava todos os cantos e o rapaz voltou a ser árvore - seca, triste, prestes a morrer. Foi quando Sakura foi até a árvore, abraçou-a e confessou-lhe seu amor. O anjo apareceu e propôs à moça que ela poderia evitar a morte de Yohiro se ela se unisse a ele. Pensando em todo o sofrimento de seu povo e no amor de Yohiro, ela decidiu se juntar a ele. Então, ambos se tornaram um só, a mesma árvore, e floresceram juntos: a mais frondosa, florida e perfumada árvore daquele bosque. 

Com seu sacrifício, Sakura  - cujo significado é flor de cerejeira -, virou o símbolo do amor que vence o ódio, que leva esperança às pessoas e que floresce, mesmo em meio às situações mais tristes. 

Essa lenda pode nos mostrar que não precisamos ser uma árvore tão seca quando as maldades do mundo. Que cada um de nós tem a sua "metade sakura" para podermos florescer - seja ela um amor, um amigo, pai, mãe, irmão, um companheiro fiel de quatro patas... 

Venha de onde vier esse amor, que em meio ao caos que o mundo está se tornando, cultivemos dentro de nós, a nossa flor de cerejeira. 

sábado, 15 de junho de 2019

🍁 ESQUILOS DE OUTONO 🍁


Acho que vou na contramão de muita gente, porque adoro o outono. Não sinto um pingo de saudades do verão. Muitos acham o outono meio melancólico, talvez porque as imagens de folhas caindo e deixando as árvores nuas possam remeter à solidão, à partida, à secura das coisas e pessoas... Não sei. Mas eu amo o outono. E amo os esquilos. Daí porque li este texto de Érico Veríssimo, que só pelo título não dá pistas do que encontraremos. E aqui sim, vemos um tipo de sentimento triste e corrosivo que alguns associam às estações mais frias. 

Veríssimo nos conta sobre Gerald K. Ames, um cinquentão viúvo bem sucedido, um dos maiorais da grande companhia de seguros Monumental Insurance, de Washington D.C. Apesar de todo o dinheiro, sucesso profissional e de sair em colunas badalas de magazines como a Time, Gerald é sentimentalmente inseguro e autodestrutivo. De origem humilde, batia muito de frente com o pai autoritário, até o dia em que saiu de casa e se fez sozinho num mundo muito competitivo. No fundo queria ser pintor, entendia muito de arte do século XIX, mas sufocava esse lado sensível. Quantos não cometem esse verdadeiro crime contra a sua própria alma, com medo do que a sociedade vai pensar? 

Um dia, na Galeria Nacional, ele conheceu Lizzy. Encantou-se por ela, com seus 25 anos. Mesmo cheio de dúvidas (afinal, ela mais parecia sua filha), casou-se. Porém, sentindo-se velho e vendo a juventude da esposa, Gerald se afundava em pensamentos negativos; imaginava Lizzy nos braços de seu sobrinho conquistador e por isso se entupia de remédios para dormir e, depois, mais drogas para ficar acordado. Fumava ininterruptamente. Tinha "visões". Estava se matando. 

Numa tarde de outono, saiu dirigindo com seus devaneios, seu ciúme e suas fantasias destrutivas, quando parou num parque para, diante das árvores e das folhas laranjas e vermelhas, tentar se acalmar. Viu um grupo de esquilinhos correndo e brincando. Gostava deles. Na verdade até os invejava. Tentou fazer amizade com um, que lhe mordeu o dedo. Irritado, entrou no carro e passou por cima do esquilo. Voltou pra casa, remoendo-se de arrependimento. Encontrou a esposa - tinha certeza de que ela passara a tarde no desfrute, mas percebeu que sua paranoia estava indo longe demais. A mulher apenas, havia saído para encomendar um casaco. Arrepende-se mais ainda pela desconfiança infundada. Nisso, recebe uma ligação do departamento de homicídios. Gerald, no auge de seu ciúme e lutando internamente com esse turbilhão de sentimentos, não havia matado exatamente um esquilo... O desfecho, deixo por conta dos leitores interessados.

Só digo que o conto mexe mesmo com nossa cabeça. Nos mostra que, às vezes, é inútil e até perigoso sufocarmos um sentimento em detrimento de outro, ou de convenções sociais. Se amamos, amamos! Se odiamos, odiamos, ainda que isso seja ruim e exija uma mudança. Insegurança se cura com entendimento, não com autoflagelo. Sonhos não merecem ser abortados por conta de (pré)conceitos que a sociedade inventou. Se sente-se artista, seja-o. Se sente-se empresário, seja-o, mas de forma sincera para consigo mesmo. Caso contrário, apenas sobreviveremos, à base de remédio e invejando os animais - que são felizes por serem eles mesmos. 

quinta-feira, 6 de junho de 2019

💕🎬 OS MEUS CLÁSSICOS DA SESSÃO DA TARDE 📺💕

Ontem minha amiga Flávia me deu algo que foi muito mais que um presente. Foi um “passado”. Explico. Ganhei um pin do Karatê Kid. Há coisa mais oitentista que pin e Karatê Kid? Na verdade há, mas bastou esse pequeno agrado para que eu logo depois me visse relembrando de vários clássicos da minha infância. A começar pelo próprio Karatê Kid. Daniel LaRusso... ♥  Eu tenho certeza que muitos meninos já tentaram fazer aquela posição que ele fazia na praia – e não conseguiam. Aliás, eu acho aquela cena muito bonita (ainda que alguns achem brega - bem como a música-tema,  Glory of Love, de Peter Cetera & Chicago). E quanto às meninas, bom, só queríamos mesmo ver o rostinho lindo do Ralph Macchio. Até hoje ele conserva aquela cara adolescente.

Assim como Matthew Broderick, o Ferris Bueller, de Curtindo a vida adoidado – um filme que pode passar quantas vezes for, que eu dou um jeito de assistir. Acho que todo adolescente (especialmente os saudosistas) já quiseram ser um pouco Ferris: acordar um dia e perceber que a vida passa depressa demais e que, às vezes, é bom fugir da mesmice para saborear as coisas boas que ela tem pra oferecer. Qual aluno nunca quis fazer o diretor tirano da escola de bobo, pegar o carro do pai e sair pela cidade (se passando pelo Rei da Salsicha de Chicago) com os melhores amigos só para ter um dia memorável? 

Também já tive vontade de morar em Astoria, a bucólica cidade onde viviam os Goonies. Apesar de ser um grupo meio estereotipado, eles eram, e são até hoje, a melhor turma dos filmes. Quem nunca teve um amigo sensível, tímido e introspectivo como o Mikey; um patife, debochado e divertido como o Bocão; o gordinho engraçado e gente boa como o Bolão; o japinha CDF como o Dado, ou o líder mais velho e sensato, como o Brandon? Cada vez que escuto Goonies are good enough (da Cindy Lauper) me dá um desejo doido de fazer parte daquele grupo, sair caçando tesouros, decifrando mapas, achar um navio pirata e até fugir de mafiosos italianos super burros.

Ou então viver aventuras mais ousadas como Marty McFly que ia e vinha do futuro dentro do DeLorean, do Doc Brown. Dizem que originalmente a máquina do tempo do filme seria uma geladeira, mas mudaram de ideia com medo de influenciar as crianças a se fecharem nelas depois. Bom, mas se as crianças não imitaram Marty entrando numa geladeira, certamente imitaram o Superman ao tentar voar. Pelo menos um primo meu fez isso de cima de uma antena. E uma das minhas memórias afetivas mais fortes que ainda tenho, são do Christopher Reeves e seus lindos olhos azuis - com certeza o mais belo Kal-El de todos os tempos. 

Mas há quem tivesse passado pelas chatices adolescentes enfrentadas pelos membros do Clube dos Cinco: os também estereotipados John Bender, o bad boy; Claire Standish, a princesinha; Brian Johnson, o nerd; Andrew Clark, o atleta e Allyson Reinolds, a esquisita. A mensagem passada por John Hughes (o mestre do filmes teen 80's) era a de que você não tem obrigação nenhuma de se adequar ao sistema; seja fiel à sua essência. 

E qual menina nunca se sentiu meio Andy Walsh, tímida, de personalidade e criativa, apaixonada pelo galãzinho do colégio, como Blane McDonough? E que tinha um amigo super parceiro, secretamente apaixonado por ela, como era "Duckie" Dale, em A garota de rosa shocking? Falando em colégio, havia ainda um professor muito charmoso que salvava as mais diversas relíquias usando apenas coragem, esperteza, cara de pau e um chicote. Henry Jones - o Indiana. Um dos meus sonhos de criança era ser arqueóloga por causa dele. 

Esses filmes certamente hoje jamais prenderiam uma criança ou adolescente em frente à TV. Lhes pareceriam bobos, mal feitos, forçados. Outros tempos. Mas guardo cada um deles - e vários outros - com muito carinho na memória, pois foram eles os meus companheiros nos momentos de solidão. E são até hoje. São um refúgio; me dão algumas horas para que eu ignore a realidade e dialogue com um kriptoniano gato, um arqueólogo corajoso, um jovem karateca certinho, adolescentes problemáticos, crianças aventureiras e um cientista aloprado que viaja no tempo. 

Certamente que esses não são filmes nada cabeça. Mas são filmes muito coração. 

*** 01 de outubro de 2009 ***

TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO

Último desejo. Tão difícil escolher um. Primeiro porque essa ideia nos remete à gente que está à beira da morte, ou no momento de um ...