sábado, 15 de junho de 2019

🍁 ESQUILOS DE OUTONO 🍁


Acho que vou na contramão de muita gente, porque adoro o outono. Não sinto um pingo de saudades do verão. Muitos acham o outono meio melancólico, talvez porque as imagens de folhas caindo e deixando as árvores nuas possam remeter à solidão, à partida, à secura das coisas e pessoas... Não sei. Mas eu amo o outono. E amo os esquilos. Daí porque li este texto de Érico Veríssimo, que só pelo título não dá pistas do que encontraremos. E aqui sim, vemos um tipo de sentimento triste e corrosivo que alguns associam às estações mais frias. 

Veríssimo nos conta sobre Gerald K. Ames, um cinquentão viúvo bem sucedido, um dos maiorais da grande companhia de seguros Monumental Insurance, de Washington D.C. Apesar de todo o dinheiro, sucesso profissional e de sair em colunas badalas de magazines como a Time, Gerald é sentimentalmente inseguro e autodestrutivo. De origem humilde, batia muito de frente com o pai autoritário, até o dia em que saiu de casa e se fez sozinho num mundo muito competitivo. No fundo queria ser pintor, entendia muito de arte do século XIX, mas sufocava esse lado sensível. Quantos não cometem esse verdadeiro crime contra a sua própria alma, com medo do que a sociedade vai pensar? 

Um dia, na Galeria Nacional, ele conheceu Lizzy. Encantou-se por ela, com seus 25 anos. Mesmo cheio de dúvidas (afinal, ela mais parecia sua filha), casou-se. Porém, sentindo-se velho e vendo a juventude da esposa, Gerald se afundava em pensamentos negativos; imaginava Lizzy nos braços de seu sobrinho conquistador e por isso se entupia de remédios para dormir e, depois, mais drogas para ficar acordado. Fumava ininterruptamente. Tinha "visões". Estava se matando. 

Numa tarde de outono, saiu dirigindo com seus devaneios, seu ciúme e suas fantasias destrutivas, quando parou num parque para, diante das árvores e das folhas laranjas e vermelhas, tentar se acalmar. Viu um grupo de esquilinhos correndo e brincando. Gostava deles. Na verdade até os invejava. Tentou fazer amizade com um, que lhe mordeu o dedo. Irritado, entrou no carro e passou por cima do esquilo. Voltou pra casa, remoendo-se de arrependimento. Encontrou a esposa - tinha certeza de que ela passara a tarde no desfrute, mas percebeu que sua paranoia estava indo longe demais. A mulher apenas, havia saído para encomendar um casaco. Arrepende-se mais ainda pela desconfiança infundada. Nisso, recebe uma ligação do departamento de homicídios. Gerald, no auge de seu ciúme e lutando internamente com esse turbilhão de sentimentos, não havia matado exatamente um esquilo... O desfecho, deixo por conta dos leitores interessados.

Só digo que o conto mexe mesmo com nossa cabeça. Nos mostra que, às vezes, é inútil e até perigoso sufocarmos um sentimento em detrimento de outro, ou de convenções sociais. Se amamos, amamos! Se odiamos, odiamos, ainda que isso seja ruim e exija uma mudança. Insegurança se cura com entendimento, não com autoflagelo. Sonhos não merecem ser abortados por conta de (pré)conceitos que a sociedade inventou. Se sente-se artista, seja-o. Se sente-se empresário, seja-o, mas de forma sincera para consigo mesmo. Caso contrário, apenas sobreviveremos, à base de remédio e invejando os animais - que são felizes por serem eles mesmos. 

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