quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

DE OUTROS CARNAVAIS...

As águas vão rolar. Allah-lá ô. Cachaça não é água. Apareceu a margarida. Cabeleira do Zezé. Chiquita Bacana. Pirata da perna de pau. Cidade maravilhosa. Jardineira. Linda morena. Mamãe eu quero. Índio quer apito. Marcha da cueca. O teu cabelo não nega. Me dá um dinheiro aí. Ô balancê. Pó-de-mico. Saca-rolha. Taí. Touradas de Madri. Sassaricando. Turma do funil. Transplante de corintiano. Vai com jeito. Aurora. A sogra e o jacaré. Me dá um gelinho aí. Maria escandalosa. Marcha do kung-fu. Linda lourinha. Rema-rema. Vai com jeito. Maracangalha. Eu bebo sim. Marcha do barrigudinho. Camisa listrada. Nós, os carecas. O assassinato do camarão. 

Quem é que não conhece, ao menos, uma meia dúzia destas marchinhas de carnaval? Como bons brasileiros que somos, acho que todos já brincaram o carnaval; mesmo aqueles que hoje são bem avessos à festa, já devem ter sido levados pelos pais à matinê. Bons tempos das marchinhas - que só aparentavam inocência, pois algumas, com essa onda do politicamente correto, seriam passíveis de processos. Mas todo mundo cantava e o país, mesmo (e sempre) em crise, parecia mais feliz. 


Quando ouvia minha avó relembrar as marchinhas do seu tempo e depois contando que acompanhava minhas tias aos bailes no Grêmio, sentia até uma pontinha de inveja, por querer ter vivido naquela época. Com algumas semanas de antecedência, os carnavalescos já levavam para casa o livrinho com as músicas, para decorar. Compravam-se mesas nos clubes. Gastavam-se horas planejando como ia ser o bloco daquele ano - qual seria o tema? Árabes, gregos, Carmens Mirandas? Todo mundo, de algum modo, se envolvia. 

Carnaval, desde sempre, foi um ópio. Mas me parece que houve um tempo em que, mais do que isso, mais do que distrair a população e tirar o foco dos reais problemas do país, o carnaval reunia amigos, família e a comunidade. Quem é dos tempos dos ensaios das escolas de samba de Garça? Quem se lembra da rivalidade entre Salgueiro, Rosas de Ouro e Grêmio? Alegria e comprometimento se misturavam. 


Hoje, o que se mistura é álcool e direção, é homem abusado na multidão, letras abertamente indecentes, ladrões de celular e tempos de crise que nada mais consegue eclipsar. Não sei se é porque em Garça já não há mais carnaval, mas me parece que motivos para celebrar, temos tido muito poucos. E dinheiro pra gastar, menos ainda. Então, vejo o carnaval hoje apenas com saudosismo. 

Saudades de quando os jovens iam aos bailes unicamente para brincar, em que a maioria bebia só água mesmo, em que a gente nem dirigia (os pais iam buscar na porta do clube, bem certinho e careta como deveria ser), quando não rolava briga no salão, dos pacotinhos de confete vendidos na portaria, dos leques de papelão com as letras dos sambas. Aliás, muitos dos sambas-enredo dos anos 80 e 90 eu acabei decorando graças à minha tia Cinira, que comprava os LPs das escolas de samba e já ia aprendendo um por um, durante os dias em que ela ficava em Garça. Eu acompanhava, lia nos encartes e assistia aos desfiles - e às apurações - com ela. 


Quando frequentávamos o Grêmio - que por vários anos seguidos contratou a Banda Livre para animar os carnavais - a diversão era genuína (pelo menos ninguém da minha turma apelava para "subterfúgios" para ficar alegre), tinha a hora das marchinhas, tinha a hora dos sambas-enredo e depois a hora do axé. O baile começava com "eu mato quem pegou minha cueca pra fazer pano de prato" e terminava com "Oh, Mila, mil e uma noites de amor com você". E na última hora da última noite já batia a melancolia pela quarta de cinzas que já estava chegando. 

Parei de frequentar o carnaval quando o funk entrou no repertório. E com a mudança da idade, a coisa meio que perdeu o encanto. Lembro-me de que se ameaçasse chover nos dias de carnaval, já batia o desespero. Hoje, agradeço pela água, que embala o meu sono e deixa os momentos de leitura ainda mais gostosos. 

Espírito de velho, eu? Talvez. Curti bem curtido o tempo que já foi - mas ainda assim tenho inveja dos tempos das minhas tias. Agora o carnaval acontece todos os dias, a bagunça se vê em todo canto, a farra se espalhou por todos os setores, nosso dinheiro é que virou confete e estamos realmente bancando os palhaços... E não há marchinha que dê graça nisso. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

MUITA SORTE & POUCO JUÍZO

Existe uma frase que afirma: "Jornalista: um profissional que, além das teorias de comunicação, também estuda Sociologia, Filosofia, Psicologia, História, Antropologia, Semiótica, gestão de empresas de comunicação. E que os outros pensam que passa 4 anos aprendendo a escrever redação e sorrir para a câmera". 

Me identifiquei. Quando ingressei na faculdade de Jornalismo, ouvi: "Ah, vai aparecer na Globo, heim?". Alguns diziam com tom de deboche, outros achando mesmo que todo novo jornalista ambiciona uma Globo da vida. Não é por aí. Nem todos sonham em aparecer na TV. Alguns, como eu, preferem a clausura de uma sala de redação, onde as palavras brotam na cabeça, passam pelo teclado, viram tinta e preenchem as páginas. 

Mas saber escrever não basta. Palavras são criaturinhas dúbias que, se usadas no lugar e na hora errados, podem ser tóxicas, perigosas e sacanas. Escrever, qualquer um pode - basta ver os "repórteres" e "jornalistas" de Facebook e WhatsApp. Um bom repórter se faz, em partes, nas faculdades e, em outra parte, na vida. Tenho colegas que se formaram com esmero por uma instituição séria e colegas que se lapidaram ao longo de décadas. Ser repórter é um chamado. E a credibilidade que ele conquista depende só dele, do seu caráter, do modo como trata as fontes e o público. 

Tive professores excelentes na faculdade, exigentes, capacitados, profissionais há anos. Passei por aulas de jornalismo cultural, científico, econômico; aulas sobre cidadania e ética, História da Arte, gramática, rádio, TV, fotografia, Teologia. Filosofia, diagramação, inglês, informática, Antropologia, Sociologia... Mas senti que, durante os estudos, ficou faltando uma coisinha: poderiam terem criado uma disciplina chamada Muita sorte & Pouco juízo. Afinal, repórteres e jornalistas também precisam disso no dia a dia: muita sorte para pescar uma boa pauta e pouco juízo para transformar uma única sentença em uma grande matéria. 

Essa disciplina poderia ser inspirada nas lições de profissão e de vida de vários jornalistas bacanas de que o Brasil dispõe - um deles, o meu favorito, que nos deixou no início desta semana, Ricardo Boechat, me fazia diariamente parar para ouvir sua coluna na Band News FM. 


Muita sorte & Pouco juízo é o título do livro de José Roberto de Alencar - que também já se foi -, que nos conta histórias engraçadas de sua carreira. Ali ele fala de instinto, audácia e cara de pau: itens que se esqueceram de nos falar durante os estudos. Não nos estimularam a ser atrevidos, zoeiros, espirituosos. 

No livro, Alencar fala através de um personagem, Zé Grandão (um alter ego), narrando aventuras pessoais e profissionais; fala de um repórter que adorava azucrinar o chefe, mas que era um trabalhador incansável e que cruzava o caminho de criaturas pitorescas e non sense. As reportagens descritas na obra são reflexo dos anos de experiência de Alencar e de sua incessante busca pelo conhecimento (quesito em que vários repórteres e jornalistas pecam, pois alguns acreditam-se semi-deuses que já sabem o suficiente). 

Para ele, o jornalismo vai além da ridícula vaidade: é pesquisar, é mover montanhas, é incomodar autoridades, é tomar as dores de quem não tem voz, é "tirar minhoca do asfalto". Mas também sabemos que a teoria, na prática, não é bem assim e que a curiosidade não mata apenas o gato. 

Uma das passagens que Alencar conta em seu livro - e que ensina a como ter pouco juízo - fala de quando ele ia fazer uma matéria sobre plataformas submarinas da Petrobras, na Bacia de Campos. Entediado dentro do helicóptero, inventou de perguntar ao piloto o que era aquele pino ao lado do manche. Como uma criança arteira, não bastou apontar o pino, ele apertou, acionando o salva-vidas inflável da aeronave. Depois de um grande susto, tiveram que forçar um pouso no mar. 

Numa outra história, ele conta que seu chefe, irritado, certa vez o mandou à merda. Sem perder o bom humor, Alencar respondeu: "A administração me informou que não há permuta de passagem aérea para a merda. Posso ir a Portugal?". O atrevimento lhe rendeu a tal viagem e ele, que até então não tinha pauta, chegou a Portugal e fez dezenas de matérias sobre Amália Rodrigues, doces gemados, azeite e cortiça. 


Apesar de saber que ousadia é uma característica de berço, quem se dispõe a ser repórter tem que desenvolve-la por necessidade. Jornalismo nem sempre é sinônimo de glamour - especialmente no interior. Repórter não é - ou não deveria ser - visto como celebridade (embora alguns tenham certeza de que o são); são seres humanos que se estressam, ouvem muitos "nãos", têm contas a pagar; são criaturas normais, mas que escolheram ser a voz de quem não tem como se expressar.

Repórter sofre! Mas também aprende a se divertir, a ver a vida através das histórias de seus entrevistados e a desenvolver a arte de ter muita sorte e pouco juízo. 

16 de fevereiro - Dia do Repórter

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

HQs: ARTE E LITERATURA


“Quadrinho é coisa de criança”. Quando um adulto colecionador de HQ ouve esse tipo de afirmação, até acha graça. Sim, pode ser coisa de criança, mas daquela criança interior que todo mundo carrega - ou deveria carregar - dentro de si. 

Eles foram meus companheiros desde pequena. Acredito que, como praticamente toda pirralha leitora brasileira, comecei pelos gibis de Maurício de Souza. O universo Disney nunca me encantou (e continua não encantando). Preferia vivenciar coisas mais ligadas à cultura daqui: a turma da Mônica, que viva no Bairro do Limoeiro, em São Paulo, onde ainda podia-se brincar na rua. O Chico Bento, que vivia na roça, tinha grande ligação com os animais, roubava goiaba, tirava zero na escola, mas nunca perdia a alegria. O Astronauta, sempre viajando pelos planetas e conhecendo criaturas estranhas, e sempre voltando à Terra para matar as saudades. O dino Horácio, com suas crises existenciais. O cãozinho Bidu, o gatinho Mingau, o porquinho Chovinista. O indiozinho Papa-Capim, o Anjinho, o Penadinho e seus amigos do cemitério, o gênio Franjinha, o Louco. Toda criança tem um pouco de cada personagem. E foi através delas que desenvolvi o gosto pela leitura e por colecionar quadrinhos. 

Tinha paixão pelas tirinhas brasileiras dos jornais: As cobras, Geraldão, Níquel Náusea. Esperava pelo Caderno 2, do Estadão, para ver a Graúna, do Henfil. Ainda que eu não compreendesse os vieses das mensagens, de algum modo eu me divertia e isso me marcou. O Brasil é um terreno fértil para essa arte. É, arte! Desenho, pintura e escrita. A união de três artes em uma – não é tão simples quanto parece: contar uma história e manter um enredo através de balõezinhos. O casamento entre desenho e texto tem que ser perfeito e equilibrado (diferente dos casamentos de verdade). Por isso, não é só coisa de criança. Quem folhear obras como Lobo, Deadpool ou Batman - A piada mortal, verão que nem mesmo adultos têm estômago para certas coisas. 

Como, até hoje, são os americanos os dominadores deste mercado, às vezes criam-se personagens de várias nacionalidades, dentro do politicamente correto, ou numa tentativa diplomática de agradar a um possível aliado. Esse foi o caso do Zé Carioca. Walt Disney, em visita ao Brasil, dentro da "política de boa vizinhança", em plena Segunda Guerra, criou o personagem caricato (malandro, alegre e bon vivant). Foi uma das várias formas de os Estados Unidos massagearem o ego do governo brasileiro a fim de conquistar uma força latina contra o Eixo. 

Da adolescência para cá, minha estante vive abarrotada de heróis (e anti-heróis) da Marvel e da DC e de mangás – os quadrinhos japoneses que a gente tem que começar a ler pela última página. São um pequeno tesouro pra mim. E pra minha criança interior. Também o são os quadrinhos que se juntam à Literatura. Quem passou pelo colegial, deve se recordar que nas aulas de Português, muitos penavam com a leitura dos clássicos. Alguns termos, nascidos no século 19, causavam estranhamento, bem como a dificuldade em contextualizar a história, pensar “com a cabeça” de determinada época. Não fossem as orientações dos professores, desconheceríamos Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Manuel Antônio de Almeida, Arthur Azevedo. Na sexta ou sétima série, não tive acesso aos quadrinhos de literatura; tive que ler os livros (sem figuras, hahaha), e não me arrependo. Mas vejo nessas HQs um material rico para os professores de hoje, prenderem seus alunos neste universo à parte, que é a literatura brasileira. 

Tanto para os livros como para os quadrinhos, o Brasil sempre foi muito bem servido. Muitos são os escritores e cartunistas ainda anônimos, mas que desenvolvem um excelente material, de forma independente. Infelizmente a maioria de nós só tem contato com aquilo que é comercial - o que não quer dizer que seja ruim - afinal, conhecemos Glauco, Angeli, Jaguar, Luís Fernando Veríssimo, Adão Iturrusgarai, Caco Galhardo, os irmãos Chico e Paulo Caruso, Daniel Azulay, Millôr, Ziraldo. 

Hoje, na minha estante convivem harmoniosamente Capitão América e o homem que sabia javanês, Superman e um tal sargento de milícias, Wolverine e o enfermeiro Procópio, Gavião Arqueiro e uma moreninha, Aquaman e Gaetaninho, Flash e o alienista. Ambos – quadrinhos e livros, e neste caso, livros em quadrinhos -, são arte, ambos fazem bem à cabeça – especialmente nos dias mais aborrecidos. Assim, se quadrinho for mesmo coisa de criança, então, pais e mestres, ofereçam um Machado de Assis em balõezinhos às suas. Façam um favor à nossa cultura. 

TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO

Último desejo. Tão difícil escolher um. Primeiro porque essa ideia nos remete à gente que está à beira da morte, ou no momento de um ...