quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

MUITA SORTE & POUCO JUÍZO

Existe uma frase que afirma: "Jornalista: um profissional que, além das teorias de comunicação, também estuda Sociologia, Filosofia, Psicologia, História, Antropologia, Semiótica, gestão de empresas de comunicação. E que os outros pensam que passa 4 anos aprendendo a escrever redação e sorrir para a câmera". 

Me identifiquei. Quando ingressei na faculdade de Jornalismo, ouvi: "Ah, vai aparecer na Globo, heim?". Alguns diziam com tom de deboche, outros achando mesmo que todo novo jornalista ambiciona uma Globo da vida. Não é por aí. Nem todos sonham em aparecer na TV. Alguns, como eu, preferem a clausura de uma sala de redação, onde as palavras brotam na cabeça, passam pelo teclado, viram tinta e preenchem as páginas. 

Mas saber escrever não basta. Palavras são criaturinhas dúbias que, se usadas no lugar e na hora errados, podem ser tóxicas, perigosas e sacanas. Escrever, qualquer um pode - basta ver os "repórteres" e "jornalistas" de Facebook e WhatsApp. Um bom repórter se faz, em partes, nas faculdades e, em outra parte, na vida. Tenho colegas que se formaram com esmero por uma instituição séria e colegas que se lapidaram ao longo de décadas. Ser repórter é um chamado. E a credibilidade que ele conquista depende só dele, do seu caráter, do modo como trata as fontes e o público. 

Tive professores excelentes na faculdade, exigentes, capacitados, profissionais há anos. Passei por aulas de jornalismo cultural, científico, econômico; aulas sobre cidadania e ética, História da Arte, gramática, rádio, TV, fotografia, Teologia. Filosofia, diagramação, inglês, informática, Antropologia, Sociologia... Mas senti que, durante os estudos, ficou faltando uma coisinha: poderiam terem criado uma disciplina chamada Muita sorte & Pouco juízo. Afinal, repórteres e jornalistas também precisam disso no dia a dia: muita sorte para pescar uma boa pauta e pouco juízo para transformar uma única sentença em uma grande matéria. 

Essa disciplina poderia ser inspirada nas lições de profissão e de vida de vários jornalistas bacanas de que o Brasil dispõe - um deles, o meu favorito, que nos deixou no início desta semana, Ricardo Boechat, me fazia diariamente parar para ouvir sua coluna na Band News FM. 


Muita sorte & Pouco juízo é o título do livro de José Roberto de Alencar - que também já se foi -, que nos conta histórias engraçadas de sua carreira. Ali ele fala de instinto, audácia e cara de pau: itens que se esqueceram de nos falar durante os estudos. Não nos estimularam a ser atrevidos, zoeiros, espirituosos. 

No livro, Alencar fala através de um personagem, Zé Grandão (um alter ego), narrando aventuras pessoais e profissionais; fala de um repórter que adorava azucrinar o chefe, mas que era um trabalhador incansável e que cruzava o caminho de criaturas pitorescas e non sense. As reportagens descritas na obra são reflexo dos anos de experiência de Alencar e de sua incessante busca pelo conhecimento (quesito em que vários repórteres e jornalistas pecam, pois alguns acreditam-se semi-deuses que já sabem o suficiente). 

Para ele, o jornalismo vai além da ridícula vaidade: é pesquisar, é mover montanhas, é incomodar autoridades, é tomar as dores de quem não tem voz, é "tirar minhoca do asfalto". Mas também sabemos que a teoria, na prática, não é bem assim e que a curiosidade não mata apenas o gato. 

Uma das passagens que Alencar conta em seu livro - e que ensina a como ter pouco juízo - fala de quando ele ia fazer uma matéria sobre plataformas submarinas da Petrobras, na Bacia de Campos. Entediado dentro do helicóptero, inventou de perguntar ao piloto o que era aquele pino ao lado do manche. Como uma criança arteira, não bastou apontar o pino, ele apertou, acionando o salva-vidas inflável da aeronave. Depois de um grande susto, tiveram que forçar um pouso no mar. 

Numa outra história, ele conta que seu chefe, irritado, certa vez o mandou à merda. Sem perder o bom humor, Alencar respondeu: "A administração me informou que não há permuta de passagem aérea para a merda. Posso ir a Portugal?". O atrevimento lhe rendeu a tal viagem e ele, que até então não tinha pauta, chegou a Portugal e fez dezenas de matérias sobre Amália Rodrigues, doces gemados, azeite e cortiça. 


Apesar de saber que ousadia é uma característica de berço, quem se dispõe a ser repórter tem que desenvolve-la por necessidade. Jornalismo nem sempre é sinônimo de glamour - especialmente no interior. Repórter não é - ou não deveria ser - visto como celebridade (embora alguns tenham certeza de que o são); são seres humanos que se estressam, ouvem muitos "nãos", têm contas a pagar; são criaturas normais, mas que escolheram ser a voz de quem não tem como se expressar.

Repórter sofre! Mas também aprende a se divertir, a ver a vida através das histórias de seus entrevistados e a desenvolver a arte de ter muita sorte e pouco juízo. 

16 de fevereiro - Dia do Repórter

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