sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

ANO NOVO


Adeus ano velho. Feliz ano novo. Que tudo se realize no ano que vai nascer. Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. Para os solteiros, sorte no amor, nenhuma esperança perdida. Para os casados, nenhuma briga. Paz e sossego na vida”. Musiquinha quase obrigatória nas festas de reveillon, a letra tem seu ápice tragicômico quando se aconselha os solteiros a não perderem a esperança. Imagino que, quando tenha sido escrita essa letra, o contexto era outro; devia ser um vexame ser solteiro, especialmente solteira. Antes dos 30, se não fosse casada, a mulher era declarada oficialmente - e pejorativamente - solteirona. Outros tempos.

Mas além das músicas típicas, há outros "rituais" clássicos para a virada do ano: vestir determinada cor para atrair sorte, dinheiro, amor; pular 7 ondas (para quem estiver na praia); comer 7 uvas ou 7 romãs ou jantar lentilha para chamar prosperidade. Tudo na expectativa por um ano ainda melhor.
Mas que garantia poderemos ter em relação a um ano que acaba de começar? Nos primeiros minutos de cada ano, só temos uma certeza: a maioria estará de barriga cheia e/ou de pileque – e por causa disso, abraçando inconvenientemente os amigos e familiares, confessando coisas inconfessáveis ou dizendo algumas "verdades". Alguns preferem o sossego do campo, outros ficam em casa mesmo. Outros soltam fogos que assustam os animais. E há aqueles que não dão a mínima - apenas viram a página da folhinha. 

Luís Fernando Veríssimo, em seu texto Ano Novo, fala sobre uma porção de rituais (zoando certas tradições que se perdem no tempo) – alguns claramente inventados, mas não por isso menos engraçados: “Existem muitas superstições sobre a melhor maneira de entrar o Ano Novo. Na nossa casa, por exemplo, nunca falta um prato de lentilha para ser consumido nos primeiros minutos do ano que começa. Dá sorte. Ouvi dizer que na Espanha, ao soar da meia-noite, deve-se comer uma uva para cada badalada do relógio. Este costume chegou à Bulgária mas, por uma falha na tradução, lá se come um melão para cada batida do relógio, e os hospitais ficam cheios do dia 1º. Na Suíça, comem o relógio. Algumas crenças persistem através do tempo, desafiando toda lógica. Se o champanhe aberto à meia-noite não estourar e se tiver alguém na família chamado Edgar, é sinal de que a casa será arrasada por uma manada de elefantes e o champanhe está choco. Na Rússia, depois de brindarem o Ano Novo com vodca, os convidados devem atirar suas taças contra a parede, e depois de ficar muito brabos, porque não há mais copos na casa, atirar o anfitrião contra a parede. De qualquer maneira, a festa termina cedo”. 

Aqui no Brasil uma coisa interessante acontece: há no país muita gente que torce o nariz para as religiões afro-brasileiras, generalizando e dizendo que “é tudo macumba”. Mas aí chega o reveillon e todo mundo corre pra orla, pular 7 ondas vestido de branco e oferecendo flores para Iemanjá. Se há um ritual que deve ser feito por aqui é a abolição da hipocrisia, da ignorância e da incoerência. 

Diz o autor: “O primeiro animal que você encontrar na rua no ano novo pode significar uma coisa. Cachorro é sorte. Gato é dinheiro. Rato é saúde. Um bando de hienas é azar, corra. Um cavalo roxo dançando o xaxado na calçada significa que você está bêbado. Vá dormir”. Como a militante chata dos animais, aconselho a, caso virem um bichinho na rua, no ano novo e em qualquer dia, sejam vocês a sorte deste animal. 

Ao invés de comer tal coisa ou vestir tal cor para atrair coisas boas, devemos ser nós a fonte dessas coisas boas: gentileza, fé, compaixão, empatia, respeito. Dê ao mundo aquilo que você acha que falta nos outros. Todos os dias, por todos os anos.

EXCELSIOR


Nunca é demais lembrar. Se bem que não tem como esquecer... 
Happy Bday.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

"PORQUE NO MEU TEMPO..."


Se você pudesse voltar no tempo, que idade gostaria de ter? Para que ano iria? Eu adoraria voltar aos anos 80, mas com a idade de agora, 40. Seria o máximo poder curtir Raul Seixas, Ira!, Queen, Iron Maiden, Tears for Fears, Depeche Mode, D.E.V.O e The Smiths com a cabeça que tenho hoje (e que nem é lá essas coisas), do que quando eu tinha apenas uma meia dúzia de anos. É, queria voltar assim mesmo, velha. 

Velha. Os mais idosos talvez se sintam incomodados por eu dizer que sou velha aos quase 40, mas quando me chamo de velha, é no bom sentido. É não me sentir encaixada no contexto atual, é sentir que poderia muito bem ter nascido em outra época, que essa primeira década dos anos 2000 são mesmo de enlouquecer. E desta vez, no pior sentido. Já até uso a expressão “no meu tempo...”!

No meu tempo as crianças se levantavam quando o professor entrava na classe e a gente tinha uma alfabetização impecável (a pedagogia era outra, os profs eram valorizados, respeitados e tinham autonomia para punir o aluno bocudo); no meu tempo a gente podia brincar na rua sem medo de dar de cara com um pedófilo ou um noiado, não havia o maldito vício em WhatsApp, porque simplesmente não existia celular; funk era sinônimo de James Brown e Earth, Wind & Fire; as músicas tinham um pouco mais de poesia e bem menos de safadeza; Rock in Rio tinha rock de verdade e era só no Rio. Tá certo que no meu tempo se fumava muito mais, ninguém usava cinto de segurança, houve o boom da Aids, a inflação chegava a 400% e o PT nasceu. Coisas boas e coisas ruins aconteceram nos anos 80, como em todas as épocas, mas ainda assim, hoje me sinto velha porque gosto das coisas que ficaram para trás. Música, artes, literatura. Não dou a mínima para o último celular lançado nesta semana ou para as novas tendências da moda primavera-verão que vêm aí. Definitivamente, não me encaixo. 

Será que estou ficando gagá? Millôr Fernandes quando escreveu a crônica Ser gagá citava os “sintomas” desta fase: querer voltar aos trinta, quarenta ou até sessenta estavam valendo! Disse ele que fazia parte de ser gagá ver os amigos morrendo – e os que não morreram ainda, estão entrevando; é se aposentar e ficar olhando o vazio (ou talvez alguns brotinhos numa vã esperança), é olhar os obituários no jornal, é perder a fome por causa de melancolia (outro sintoma meu), é ainda reconhecer os atores dos antigos filmes de bang-bang, tentar usar gírias e passar vergonha; é reconhecer, ainda que à revelia, que está ficando cada vez mais necessitado da ajuda dos outros; é ter sabido falar francês e ter esquecido, é ter orgulho de ainda ter cabelo e dentes de verdade, apegar-se à existência de filhos e netos - mesmo sabendo que eles não estão nem aí pra você. Ser gagá - e isso também compartilho com Millôr, é observar essa juventude já tão decrepita, juventude boba que deixa o tempo escorrer por entre os dedos atrás de frivolidades... Como ele, às vezes, também me esqueço de coisas importantes e me lembro de passagens de lá longe. Tem dias que me dá um branco sobre um compromisso, mas me recordo com perfeição do sabor da paçoca que era vendida na cantina do Hilmar Machado no final dos anos 80. Esqueço o nome de um entrevistado, mas me lembro da alegria dos cafés da tarde na minha avó. 

E no fim das contas, isso também é importante. Não para os outros. Mas pra nós mesmos. São pedaços de nossa história. Pedaços da existência de um gagá. Um ser gagá que por fora pode parecer ranzinza, egoísta, chato, cheio de manias, estúpido. E que por dentro é uma criatura medrosa, aflita e acuada com tantas novidades e modernidades que passam por cima da gente como um tanque de guerra. 
Então, sim, também sou gagá. E me respeite! Porque no meu tempo... 

OS NOVOS PROFETAS DO FIM DO MUNDO


“Chove. Faz sol. Chove. Faz sol. São Pedro deve ser bipolar”. Essa frase pretensamente engraçadinha que circula pela internet nos dias em que o clima parece não se decidir, vai muito além do temperamento do porteiro do céu. 

São Pedro não tem culpa se nós, seres humanos, estamos detonando o planeta que o chefe dele, Deus, nos deu. Não é novidade que as mudanças climáticas estão causando catástrofes nas cidades, nos campos e na vida de muita gente. Não é de hoje que estamos sentindo que as estações parecem estar invertidas, que espécies de animais migram em busca de alimento em regiões que antes nunca haviam aparecido; que as doenças tropicais, antes extintas, reaparecem. Tudo isso tem uma razão: nosso consumo desenfreado. 

Não podemos culpar o santo, a Deus ou a natureza. O planeta só está dando sinais de que precisa de socorro. Tempestades cada vez mais destruidoras são sinais de que nossa mãe Gaia anda doente. 

No início de novembro o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, órgão das Nações Unidas, com sede na Suíça, divulgou um relatório, no mínimo alarmante. Num documento de 400 páginas, elaborado por 91 pesquisadores e assinado por representantes de 40 países, esses novos profetas do fim do mundo nos alertam que o planeta pode passar por transformações ainda mais drásticas, caso não mudemos nossos hábitos. E isso é pra ontem!

Fontes energéticas que utilizamos no nosso dia a dia, especialmente as fósseis, poluem o ar, o solo e a água, por isso é necessário que tiremos o pé do acelerador (até no sentido literal) e peguemos mais leve com o consumo de combustíveis, plásticos e afins. Repararam que em alguns lugares, o uso de sacolinhas e embalagens já não é tão popular? Em cidades da Europa, por exemplo, e em algumas capitais do Brasil, armazéns e mercados já aboliram as embalagens plásticas; os produtos, como grãos, são vendidos à granel, como era no tempo dos nossos avós, nos estabelecimentos de “secos e molhados”. Isso é um excelente começo. Cada uma das embalagens que descartamos, seja uma garrada pet ou um papelzinho de bala, demora séculos para se decompor no meio ambiente – isso sem falar nos entupimentos dos bueiros e no aspecto horrível que o lixo deixa pela cidade. 

Os cientistas do IPCC ainda dizem que não dá mais para reverter essa realidade, mas podemos minimizar as tragédias hoje: é possível limitar o aquecimento do planeta “dentro das leis da Química e da Física, mas isso requer mudanças sem precedentes (...) as emissões humanas de dióxido de carbono terão que cair 45% até 2030, em relação aos níveis de 2010, e zerar até 2050. E isso só será possível com mudanças no estilo de vida das pessoas e o desenvolvimento de tecnologias capazes de remover CO2 da atmosfera”. 

Mas como fazer isso se hoje todo mundo quer ter seu próprio veículo? Podemos começar pela conscientização de não usar o carro a toda hora. Quando for possível ir a um lugar caminhando, vá! (Mais uma vez) na Europa, há muita gente que só usa o carro nos fins de semana para passear com a família. Nos outros dias, optam por transporte público e bicicletas. Ok, o Brasil não conta ainda com um sistema decente de transporte público. É aí que entra nossa força como eleitores. Cobrança! 

As mudanças climáticas vêm afetando especialmente as cidades costeiras, e estas serão as primeiras a desaparecer caso o nível dos oceanos siga subindo – estima-se que até 2100 os mares se aquecerão e ficarão cada vez mais ácidos, elevando-se até 80 centímetros ou mais. Parece pouco? Quando você vai à praia, não reparou como a água está avançando cada vez mais na areia? Isso é real! Estima-se também que até este tempo, haverá mais embalagens nos oceanos, do que peixes. 

O aquecimento também afeta e afetará mais ainda as produções no campo, interferindo no desenvolvimento dos vegetais e no aparecimento de pragas. Tudo está conectado. Lixo espalhado, pouca reciclagem, consumismo, desperdício, indiferença: tudo isso vai limitar a produção de alimentos, aumentar a pobreza, castigar ainda mais os países subdesenvolvidos, proliferar doenças, extinguir espécies animais, dizimar ecossistemas, estremecer a economia e, consequentemente, a segurança de todas as sociedades. 

Parece muito dramático? Exagerado? Apocalíptico? Mas está acontecendo. Daí não adianta apelar nem pra São Pedro. 



quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

EU ERA FOOL E (NEM) SABIA


Animes, filmes baseados em quadrinhos, seriados, ficção científica. Tudo o que hoje vende e dá um certo status à molecada, "no meu tempo" era coisa de adolescente esquisito. Ser geek, nerd ou otaku entre os anos 80 e 90 não era tarefa muito fácil. Ainda mais para meninas! Enquanto as garotas da minha idade se preocupavam com coisas inerentes à idade, minhas maiores ambições eram ter alguns trocados para gastar na banca e me darem sossego para eu poder assistir aos meus desenhos e seriados. 

Andar com um geek naquela época, era algo meio "queima filme". O estereótipo do esquisitinho de óculos incluía também conversas sobre Arquivo X, filmes do Batman e Cavaleiros do Zodíaco. Só que eu não tinha muito com quem conversar sobre. Meu monólogo se restringia às revistinhas. E a Herói foi uma das minhas grandes companheiras nos anos 90. A ida à banca era o ponto alto da semana e quando os CDZ ou Mulder e Scully estavam na capa, eu pirava! Lia vagarosamente, saboreando cada página, na tranquilidade do meu quarto. E até hoje, 22 anos depois, eu ainda guardo essas relíquias geek com o maior carinho. 


Hoje isso é cool. Mas um dia, foi fool! Sim, o termo geek - registrado em 1876, nos Estados Unidos -, significava fool (pessoa idiota, bobona). E até pior. Fool era sinônimo de gente bizarra que se apresentava nas ruas com espetáculos desconcertantes, como arrancar cabeças de galinhas vivas com os dentes. Para uma "geekveg", isso não tem nem nome. 
Só quando as pessoas comuns começaram a ter acesso aos computadores domésticos, é que o termo ficou mais positivo; geek e nerd eram usados para falar de gente inteligente, que se virava bem com tecnologia, criativa, interessada em leitura e atividades intelectuais. De qualquer maneira, ser geek, nerd, otaku ou mesmo fool, ainda serve para gente que não se adéqua ao resto do mundo. 


Ainda me sinto bem fool. Aos quase 40 anos coleciono revistinhas, "hominhos" e HQs; sou apaixonada pelo silêncio, justamente para poder curtir esses momentos de leitura ou seriados. Papos "mulherzinha" não me interessam. Prefiro discutir os poderes dos heróis. 

Sinto que não me adéquo muito pelo fato de ser vegetariana, de preferir "deixar pra lá" do que comprar uma briga, de desconhecer que tipo de música rola nesses 2000s, de gostar de sossego, de amar livros e de ser ainda bem fool. Mas não me arrependo e nem me envergonho dessas escolhas. Que na verdade nem são bem escolhas. São características, fazem parte da minha natureza. E da natureza de alguns outros fools, que há uns 30 anos tinham que ficar invisíveis na escola para não ser zuados, e que agora veem o estilo geek ser festejado em mega eventos. 

Desenhos como Superamigos, Os Jetsons, Os Impossíveis,  Corrida Maluca, Manda Chuva, Scooby Doo, Capitão Planeta, Silverhawks, Thundercats e He-Man; animes como Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball, Yu Yu Hakusho, Shurato, Samurai X, Sailor Moon, Samurais Warriors e Inuyasha; seriados como MacGyver, Arquivo X, Star Trek, Dawson´s Creek, Anos Incríveis, Confissões de adolescente, Mundo da lua, As aventuras de Clark e Lois, The Flash, Parker Lewis, Alf, Anjos da lei, Flash Gordon; tokusatsu como Jaspion, Changeman, Jiraya, Flashman, Google V, Maskman, Lion Man, Black Kamen Rider, Spectreman; filmes como Indiana Jones, Os Goonies, Curtindo a vida adoidado, A garota de rosa schoking, O Clube dos cinco, Superman, Karate Kid, A história sem fim, De volta para o futuro; ficções como 2001 - Uma odisseia no espaço, Blade Runner, Coccon, O exterminador (e o Vingador) do futuro: cada uma dessas "bobeiras" foram, de algum modo, me moldando, preenchendo a minha infância e adolescência.


E hoje me fazem ver que o mundo lá fora está terrível sim, mas há "ilhas" onde a gente pode se refugiar e respirar um pouco; essas "revistinhas" nos levam de volta para instantes de inocência, de emoções bem particulares, de imaginação. 
Eu era fool e não sabia. Mas eu era feliz e disso eu sabia. 

(ps: Essas Herói são minhas. Não vendo, não dou, não troco, não empresto, não alugo.)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

JINGLE BELL PRA VOCÊS


Presentes, correria, lojas cheias, trânsito ruim,  filas nos mercados, comidas caras, roupas novas, amigo-secreto, confraternizações, estoque de bebidas, falta de vagas nos estacionamentos, a média que se tem que fazer com certas pessoas, árvores, luzinhas, músicas (e a Simone nos perguntando “e o que você fez?”). Há vários Natais sinto que a alma da data vai se esvaindo, e aquele encanto que eu tinha quando criança, já era. 

Nessa semana foi divulgado um estudo, feito por pesquisadores da Universidade de Lund (Suécia) mostrando que há um aumento de 37% dos casos de ataques cardíacos nos dias finais do ano, tendo como pico  - entradas em hospitais -, as 22 horas da véspera de Natal. Além do excesso de alimentação que as festas proporcionam, há o acúmulo das mais variadas emoções: estresse, ansiedade, tristeza, luto, raiva. Os casos variam de acordo com o país e sua cultura, mas é fato que a época das festas de final de ano provocam e desarranjam nosso coração. Mas a culpa não é da data - muito menos de Jesus, o "aniversariante". É nossa mesmo. Sofremos por vontade própria por cedermos aos apelos do consumismo.

Quem corre, planeja, se estressa, se frustra, gasta uma grana danada com futilidades, somos nós. Como diria a minha avó Valentina: quem manda procurar sarna pra se coçar? Natal era para ser uma comemoração simples. Afinal, tudo começou num cenário paupérrimo: um estábulo (ou caverna), pastores, animais, manjedoura. Luxo zero. Sim, queremos receber o aniversariante da noite com a nossa melhor roupa, com mesa farta e enfeites bonitos. Mas isso não deve custar a nossa saúde. O que Ele quer de nós é que estejamos bem, conosco e com todos. 

Apesar do tom melancólico que a data me traz, através de textos como o de Mário Prata, tento ver a coisa toda com um certo humor: "Não gosto do Natal. Não chego a odiar, mas não gosto. Nunca gostei. Desde pequeno, no interior. Papai Noel sempre me assustou. Gostava de preparar a árvore com dias de antecedência, apesar de não concordar em colocar algodão para ‘simbolizar’ a neve”. Me incomoda um pouco esse toque exageradamente europeizado e americanizado que demos ao nosso Natal, como neve falsa e meia de lã na lareira. A árvore, por exemplo, surgiu antigamente entre os povos pagãos como uma forma de celebrar as colheitas, no hemisfério norte (daí que a árvore de Natal seria uma réplica dos pés de maçã, que proviam alimento ao povo). 

Gostava de imaginar os presentes. Aliás, não gosto nem de dar e nem de receber presentes em datas certas. O presente é bom quando você não espera. No aniversário, Natal, Dia da Criança, depois Dia dos Pais, acho um saco de Papai Noel. O presente, conforme a palavra em si se explica, é uma presença. Portanto, não pode ser datada. Não deve ser uma obrigatoriedade”. Como gastamos tempo e energia (e grana) providenciando presentes. Não deveríamos ser "obrigados" a isso. Mas, repito, a culpa é nossa. 

E as propagandas de Natal? (...) A publicidade brasileira é uma das melhores do mundo, perdendo talvez apenas para a inglesa. Mas, chega o Natal, baixa o ‘espírito natalino’ nos criadores das agências e dá no que dá. Eles não conseguem (há 1994 anos) fazer um único anúncio sequer decente nessa época. São constrangedores, amadores, dignos de um Papai Noel de mentirinha. Tem uns, mais ‘criativos’, que até neve têm, debaixo dos 40 graus de dezembro”. Mário Prata escreveu este texto em meados dos anos 90, mas continua super atual. 

Sem demagogia, mas que tal retomarmos o que realmente o Natal significa? Menos correria, menos gula, menos compras. Mais famílias unidas, mais presença, mais serenidade. E se tivermos que aturar certas coisas, então que levemos tudo com bom humor, com leveza, perdão, compreensão. Esse, acho, é um bom presente para o aniversariante da noite.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O SAMURAI E O CAVALO



“Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Essa frase é atribuída a Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma. E é tida como uma das mais sábias proferidas por ele - como se fosse possível fazer um ranking dos ensinamentos mais sábios, dos espíritos mais iluminados que passaram pela Terra – como Jesus, Buda, o Dalai Lama, Francisco de Assis ou o seu xará papa. Seja qual for a sentença que usaram, independente da época, do povo ao qual se dirigiram, as circunstâncias e as consequências de suas frases, todos eles falaram e falam basicamente da paz. 

A paz entre os homens que deve começar dentro de casa e se espalhar pelo mundo; o entendimento que é necessário que exista entre pessoas que divergem de opinião, de visão sobre a vida, de experiências e impressões; a tolerância que devemos ter para com aqueles que não pensam e não agem como nós. 

É importante lembrar que somos indivíduos. Somos partículas com características diferentes; assim como não há impressões digitais, marcas na íris, manchas na pele dos felinos ou nas asas de uma borboleta ou flocos de neve idênticos, todos nós também diferimos em algo, dos demais. E nem vamos entrar na questão das diferenças físicas. Isso se torna totalmente dispensável perto das diferenças que carregamos dentro da alma. E são elas que nos ajudam a compreender o outro – ou pelo menos deveriam. 

Há um conto budista, O samurai e o cavalo (contado pelo professor de budismo Kentetsu Takamori), que, de uma forma precisa e singela, nos mostra que a mudança que ocorre em nós, pode mudar o comportamento do outro – ou seja, que quando somos a mudança, vemos a mudança no mundo. Nos anos 1600, havia um monge do budismo zen, chamado Bankei, que meditava todas as manhãs e depois ia descansar num estábulo. Certa vez, enquanto se refazia, começou a observar quando um samurai chegou para treinar seu cavalo. Bankei reparava que o animal estava visivelmente incomodado, não obedecia aos comandos do seu dono, mostrava-se rebelde às suas ordens. E o samurai, impaciente, batia no cavalo. Um adendo na história: invejo muito os praticantes do budismo zen, que conseguem controlar a ira, pois diante de uma cena desta, minha vontade seria a de pegar o chicote das mãos do samurai e bater nele! Mas como a cena foi diante de um monge, ele apenas se dirigiu ao samurai, lhe perguntando: “O que você acha que está fazendo?”. 

O samurai, irritado, continuou chicoteando o animal. E o monge, sabiamente, continuou perguntando. Até que o cavaleiro desceu do lombo do animal, dizendo: “Já faz um tempo que você está falando comigo. Se tem algo a me ensinar, fale, estou pronto para escutar”. Bankei explicou que era tolice culpar o cavalo e descontar nele sua frustração. O animal tem suas próprias razões (todos eles, ao seu modo, têm) e se o samurai pretendia doma-lo, era necessário que ele o convencesse utilizando outra abordagem: “Você precisa começar a corrigir a si próprio”, disse o monge. Afinal, sabemos que se gentileza gera gentileza, intolerância atrai intolerância. Nada mais óbvio. 

Então, o samurai humildemente assentiu com a cabeça, fez uma reverência e foi tentar novamente treinar seu cavalo. Mudando sua atitude e aproximando-se do animal com mais tranquilidade, ele montou no animal e percebeu que o cavalo estava mais calmo e obedecia docilmente aos seus comandos. Da mesma forma nós, em qualquer situação em que nos encontremos, devemos ser a mudança que sonhamos ver nos outros e no mundo. Por menor que pareça, por mais insignificante que pensemos ser este gesto, alguém, em algum lugar, poderá ser tocado por ele. 

Sempre me indagam se vale a pena eu ser vegetariana; se eu, deixando de comer carne e não comprando nada de couro ou que tenha usado de crueldade com os animais, fará alguma diferença. E eu sempre respondo que, ainda que apenas e somente eu fizesse isso no mundo, sim, faria diferença. Faria diferença para o animal que deixou de ser morto por minha causa. Mas afortunadamente o vegetarianismo não conta só comigo. Somos um bando que, mudando o nosso comportamento, buscamos ver um mundo melhor, ainda que isso leve centenas de anos. 

A mudança deve começar do lado de dentro, com sinceridade, com o coração, com determinação. Se formos mais brandos como o monge e mais humildes como o samurai, qualquer cavalo rebelde se tornará o mais doce dos potros. 

“Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo” - Siddhartha Gautama, o Buda (500 a.C)

MENTES QUE PENSARAM VERDE




Há uma frase, atribuída a Leonardo da Vinci que diz: “Haverá um tempo em que os seres humanos se contentarão com uma alimentação vegetariana e julgarão a matança de um animal inocente da mesma forma como hoje se julga o assassino de um homem”. Acredito que nos princípios do Renascimento, a expressão vegetarianismo ainda não existisse, mas certamente algo que exprimisse essa ideia de poupar os animais de uma morte desnecessária. Acredito que um pensamento permeado de justiça possa, sim, ter saído da cabeça de um dos homens mais intrigantes e criativos do mundo. 

Já disse várias vezes que vegetarianismo não determina o caráter de ninguém, mas ajuda muito a sabermos mais sobre uma pessoa. Não dizem que você é o que você come? Logo, crer que os animais tenham direito à vida tanto quanto nós, dá uma pista que diz muito sobre uma pessoa. Vegetarianos, mesmo no século 21, com as pessoas (ao menos, teoricamente) abrindo suas mentes, passam-se ainda por criaturas estranhas, com mania de “querer aparecer”, radicais e lançadoras de moda. Mas vamos ver que vegetarianismo não é “modinha”, pois até filósofos como Pitágoras já falavam sobre o assunto: “Enquanto o homem continuar a ser o destruidor dos seres animados dos planos inferiores, não conhecerá a saúde nem a paz. Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor”. Hoje, matar para comer, para nós, homens modernos, é um “luxo” de mau gosto e o pensador, 500 anos antes de Cristo, já afirmava: “Que horror é meter entranhas em entranhas, engordar um corpo com outro corpo, viver da morte de seres vivos”, e ainda alegava que os animais, assim como nós, têm alma!

Em 1º de outubro celebrou-se o Dia Mundial do Vegetarianismo, (ok, hoje é 26, mas sempre é tempo de falar sobre o assunto), então eu, como militante – nada radical, totalmente de boas! – separei algumas frases de escritores, pensadores e líderes vegetarianos para que se perceba que dentro deste universo não há modismo ou “falta do que fazer”. Indico, portanto, a leitura destes gênios que, além de serem expoentes em suas áreas, carregaram consigo a benevolência para com os animais e o senso se justiça para com todas as criaturas. 

Da Vinci disse que um dia as pessoas se chocariam com a matança de animais da mesma forma como hoje (e em seu tempo) se chocam com o assassínio de seres humanos. E não há exagero nisso. Há tempos a escravidão era vista como uma atividade normal e lucrativa para a economia. Até um grupo de pessoas com almas diferenciadas se levantar e fazer perceber a crueldade de tal ato. Antes disso, mandar pessoas para a fogueira era um espetáculo corriqueiro. Agora mandam-se animais. Mulheres sábias eram condenadas como bruxas. Cristãos eram atirados nas arenas romanas. Judeus foram exterminados. E agora todas essas coisas nos causa mal estar por sabermos o quão cruel elas são. Isso se chama evolução! Perceber que algo não está certo, que ao invés de empregarmos a violência e de meter criaturas em cativeiros, podemos agir diferente pelo bem de todos. Aí reside a essência do vegetarianismo!

A piedade, o respeito e a empatia pelos animais e pelo planeta já eram pregados por Buda, que ainda nos recorda que os campos já nos dão tudo aquilo de que necessitamos: “Feliz seria a terra se todos os seres estivessem unidos pelos laços da benevolência e só se alimentassem de alimentos puros, sem derrame de sangue. Os dourados grãos que nascem para todos, dariam para alimentar a dar fartura ao mundo”. Sempre perguntam aos vegetarianos o que comemos, senão carne. Oras, tudo! Menos carne! Tudo o que a terra nos dá e que vem pelas mãos dos agricultores que nela tanto trabalham. Sêneca, em 60 depois de Cristo já afirmava que “os vegetais constituem alimentação suficiente para o estômago e, no entanto recheamo-lo de vidas valiosas”. 

Sim, para quem “pensa verde”, todas as vidas são valiosas, estejam elas nos campos, nos mares, nos rios, nas matas. Parecemos radicais ao botarmos no mesmo patamar a vida de uma pessoa e a de um animal, mas vida é vida! Encurta-la para preencher um prato não tem justificativa: “Eu sou a favor dos direitos dos animais bem como dos direitos humanos. Essa é a proposta de um ser humano integral”, disse o presidente abolicionista Abraham Lincoln. 

Se se respeita a existência de um, há que se respeitar a existência de outro, caso contrário, estamos agindo de modo egoísta, como afirmou Arthur Schopenhauer: “A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem”. O líder pacifista Gandhi sugeriu que “deveríamos ser capazes de recusar-nos a viver se o preço da vida é a tortura e seres sensíveis”, e Francisco de Assis não nos deixa esquecer que “todas as coisas da criação são filhos do Pai e irmãos do homem. Toda criatura em desgraça tem o mesmo direito a ser protegida”. 

Se as pessoas que veem nos vegetarianos um bando de hippies desocupados e dementes, não prestam atenção em nossos argumentos, então que parem um pouco e reflitam sobre o que legaram esses homens da História. Não existe coincidência. Tantas mentes brilhantes não podem estar erradas. 

- 25 de outubro de 2018 - 

PROVA DE AMOR


"Quem trabalha de graça é relógio". Já ouvi muitas vezes essa frase, especialmente quando era criança. Lá nos anos 80 não se falava tanto em voluntariado como se fala hoje. Havia pessoas abnegadas que abriam mão de si para doar-se aos demais, só que agora, contando com mídias e com a velocidade das comunicações, a propaganda do voluntariado pode se espalhar mais depressa e atingir um número cada vez maior de pessoas. 

Antes falava-se que quem trabalhava de graça era o relógio, porque viemos de uma sociedade em que os mais "espertos" é que se dão bem, aqueles que sempre tiram um por fora, que sempre lucram a qualquer preço. Só que muitas das doenças do mundo vêm justamente dessa sanha em ter dinheiro, seja lá como for. Trabalho de graça é coisa de escravo... Ou otário. 

Essa gente que pensa assim ignora que há outras formas de pagamento, além do dinheiro. Quem é voluntário sabe muito bem. Encostar a cabeça no travesseiro a cada noite, sabendo que foram dedicadas algumas horas de seu dia a outra pessoa; levantar-se a cada manhã pensando no bem que ainda pode ser feito a quem necessita; ajudar a aliviar as dores físicas e espirituais de um irmão; recolher um animal abandonado... Quem investe tempo, energia e amor - seja lá em que causa for -, recebe de volta uma leveza na alma que grana nenhuma no mundo pode comprar. 

Também ainda criança ouvi uma música na igreja, da qual nunca mais me esqueci, e dizia: "Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão / Eis que eu vos dou o meu novo mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado / Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão / Vós sereis os meus amigos se seguirdes meu preceito: amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado". Voluntariado é bem isso: amar o outro e doar-se pelo irmão. Essa é a grande prova de amor que Deus quer nos ver desempenhando. Nada de sacrifícios, de mortificações, de competir para ver quem reza mais... Basta doar-se. 

Visitar idosos, ler para crianças, resgatar animais, desenvolver projetos ambientais; arrecadar remédios, roupas, brinquedos, alimentos; alegrar enfermos nos hospitais, orientar jovens mães solteiras e carentes; ensinar música ou artesanato, ouvir pessoas deprimidas com tendências suicidas, ajudar a limpar praças, matas ou praias. Há tanta coisa a ser feita, há tantas mãos desocupadas, há tantas horas desperdiçadas. 

Ser voluntário independe de religião e costumes e não deve ser exercido só para "fazer bonito" nas redes sociais; quem se dispõe a ajudar, deve faze-lo de coração limpo, de mente aberta, sem queixumes. E com um sorriso no rosto, para que todos aqueles que precisam de um socorro, sintam-se acolhidos. Voluntariado de má vontade, é melhor que nem aconteça. Mas sorrir não é difícil, pois quem socorre a um irmão, sente o coração invadido por algo que lhe transforma o semblante. 

Neste último dia 5 de dezembro foi celebrado o Dia Internacional do Voluntário - data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1995. Mas antes mesmo que datas fossem estipuladas, já víamos gente batalhando desinteressadamente por outros. Em Garça mesmo, há pessoas iluminadas que levam sua luz por todos os cantos da cidade: voluntários do Lar Meimei, Roupeiro Santa Rita, Vicentinos, clubes de serviços, igrejas evangélicas, grupos religiosos afrobrasileiros, Ong S.O.S Totó, Ong EcoBrasil, centros espíritas e pessoas independentes de entidades, que batalham solitárias ou entre amigos por aquilo em que acreditam para tornar a cidade um lugar melhor. 

Pode parecer um gotinha no oceano, mas para quem recebe um socorro, um alimento, uma roupa, um aconselhamento, uma orientação, isso pode mudar os rumos de uma vida. O bem que se faz, bate no outro e volta. Quem diz que o governo é que tem que providenciar tudo e que "a culpa não é minha se existe tanta pobreza", deixa de sentir uma coisa que palavra nenhuma exprime: alma alegre, fé renovada, entusiasmo pela vida. Pobreza maior do que a que vemos pelas ruas, é a do caráter.
Abençoados sejam nossos voluntários, trabalhadores do bem que transformam o mundo. 

- 7 de dezembro de 2018 - 

DESEJOS


Fim de ano é sempre igual: todo mundo deseja algo, quer dar início àquela resolução de ano novo. Desejos de prosperidade, saúde, uma casa, um carro, viagens; desejos de encontrar alguém, de emagrecer, de um novo emprego. Desejos comuns à maioria de nós e que não precisam estar numa lista de presentes ou serem mentalizados só na virada do ano. São coisas que não dependem do cosmos, de Deus ou de qualquer energia do universo para se concretizarem: só dependem da gente. O poeta português Alexandre Herculano disse que "é um erro confundir o desejar com o querer. O desejo mede obstáculos; a vontade vence-os". O ideal então é mesclar o desejo com a vontade. Primeiro deseja-se no plano das ideias, depois realiza-se, com força e boa vontade - e sabedoria para manter cada uma destas coisas. 

Na minha infância oitentista, nós desejávamos e nossos pais, tios e afins davam um jeito de realizar. E os desejos eram até simples, se comparados aos das crianças de hoje (e mesmo com uma inflação de 400% ao mês, às vezes nossos desejos eram atendidos; não sem antes ouvir a pergunta retórica: você acha que dinheiro cai do céu?): ganhar um Atari, completar o álbum do chocolate Surpresa, ter a mais gorda pasta de papéis de carta, colecionar os “hominhos” Playmobil; assistir a Thundercats, Superamigos, Caverna do Dragão; jogar Jogo da Vida, Banco Imobiliário, Stop; uma caixa de lápis de cor (de, no máximo 24 cores – as de 36, 48 e 52, eram coisa de “riquinho”), fitas K7 para gravar a sequência musical no rádio, um sorvete da Gelato, um pacote de Zambinos, uma paçoquinha Amor, balas Kleps, cigarrinhos de chocolate da Pan, uma barra de Galak, uma carteira da Op, um vidro de Taty, um reloginho Champion (troca-pulseiras), um estojo do Paraguai (aquele com 300 divisórias),  caneta de 10 cores (inclusive amarelo), escovar os dentes com Tandy, comer Danoninho (que valia por um bifinho), um diário com cadeado, poder ficar acordado até mais tarde no sábado, jogar queimada na rua, ter uns trocadinhos para comprar gibi na banca, a pipoca doce da cantina da escola, brincar na enxurrada, fichas de orelhão para passar trote, dormir sem tomar banho. Eram tantas as coisas desejáveis daqueles tempos, que eu gastaria - com gosto - horas escrevendo. 

No tempo dos meus pais, as famílias desejavam o luxo de ter um par de sapatos para cada membro – sim, havia o “sapato da família”, que era revezado entre os irmãos. Comer uma maçã argentina, só em caso de doença. Saborear um doce de padaria era um evento bissexto. Agora, na vida adulta, os desejos são mais "sérios", mais materialistas ainda. Nos esquecemos de desejar ó que é realmente essencial, espiritualmente falando. 

Mas Carlos Drummond de Andrade, com seu espírito sempre jovial, nos lembra dessas coisinhas simples e pueris, que nos "corres" do dia a dia nós negligenciamos, mas que enchem de significado a nossa vida. Escreveu ele: “Desejo a vocês / Fruto do mato / Cheiro de jardim / Namoro no portão / Domingo sem chuva / Segunda sem mau humor / Sábado com seu amor / Filme do Carlitos / Chope com amigos / Crônica de Rubem Braga / Viver sem inimigos / Ter uma pessoa especial / E que ela goste de você / Ouvir uma palavra amável / Ter uma surpresa agradável / Noite de lua cheia / Ter fé em Deus / Rir como criança / Ouvir canto de passarinho / Tomar banho de cachoeira / Pegar um bronzeado legal / Aprender uma nova canção / Esperar alguém na estação / Queijo com goiabada / Pôr-do-sol na roça / Uma festa / Uma seresta / Recordar um amor antigo / Ter um ombro sempre amigo / Uma tarde amena / Calçar um velho chinelo / Sentar numa velha poltrona / Ouvir a chuva no telhado / Vinho branco / Bolero de Ravel / E muito carinho meu”. 

Eu acrescentaria: a alegria de um cachorro, o ronronar de um gato, o perfume dos incensos, a beleza dos cristais, o som do silêncio, praticar o que se prega, emocionar-se com um livro, rever filmes da infância, fotografias antigas da família, pão de queijo com café (em Minas, de preferência). Desejos e vontades que, no fim das contas - e no fim da vida -, é o que teremos de mais precioso. Então, neste final de ano, desejo a todos ótimos desejos. 

- 14 de dezembro de 2018 - 


TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO

Último desejo. Tão difícil escolher um. Primeiro porque essa ideia nos remete à gente que está à beira da morte, ou no momento de um ...