Se você pudesse voltar no tempo, que idade gostaria de ter? Para que ano iria? Eu adoraria voltar aos anos 80, mas com a idade de agora, 40. Seria o máximo poder curtir Raul Seixas, Ira!, Queen, Iron Maiden, Tears for Fears, Depeche Mode, D.E.V.O e The Smiths com a cabeça que tenho hoje (e que nem é lá essas coisas), do que quando eu tinha apenas uma meia dúzia de anos. É, queria voltar assim mesmo, velha.
Velha. Os mais idosos talvez se sintam incomodados por eu dizer que sou velha aos quase 40, mas quando me chamo de velha, é no bom sentido. É não me sentir encaixada no contexto atual, é sentir que poderia muito bem ter nascido em outra época, que essa primeira década dos anos 2000 são mesmo de enlouquecer. E desta vez, no pior sentido. Já até uso a expressão “no meu tempo...”!
No meu tempo as crianças se levantavam quando o professor entrava na classe e a gente tinha uma alfabetização impecável (a pedagogia era outra, os profs eram valorizados, respeitados e tinham autonomia para punir o aluno bocudo); no meu tempo a gente podia brincar na rua sem medo de dar de cara com um pedófilo ou um noiado, não havia o maldito vício em WhatsApp, porque simplesmente não existia celular; funk era sinônimo de James Brown e Earth, Wind & Fire; as músicas tinham um pouco mais de poesia e bem menos de safadeza; Rock in Rio tinha rock de verdade e era só no Rio. Tá certo que no meu tempo se fumava muito mais, ninguém usava cinto de segurança, houve o boom da Aids, a inflação chegava a 400% e o PT nasceu. Coisas boas e coisas ruins aconteceram nos anos 80, como em todas as épocas, mas ainda assim, hoje me sinto velha porque gosto das coisas que ficaram para trás. Música, artes, literatura. Não dou a mínima para o último celular lançado nesta semana ou para as novas tendências da moda primavera-verão que vêm aí. Definitivamente, não me encaixo.
Será que estou ficando gagá? Millôr Fernandes quando escreveu a crônica Ser gagá citava os “sintomas” desta fase: querer voltar aos trinta, quarenta ou até sessenta estavam valendo! Disse ele que fazia parte de ser gagá ver os amigos morrendo – e os que não morreram ainda, estão entrevando; é se aposentar e ficar olhando o vazio (ou talvez alguns brotinhos numa vã esperança), é olhar os obituários no jornal, é perder a fome por causa de melancolia (outro sintoma meu), é ainda reconhecer os atores dos antigos filmes de bang-bang, tentar usar gírias e passar vergonha; é reconhecer, ainda que à revelia, que está ficando cada vez mais necessitado da ajuda dos outros; é ter sabido falar francês e ter esquecido, é ter orgulho de ainda ter cabelo e dentes de verdade, apegar-se à existência de filhos e netos - mesmo sabendo que eles não estão nem aí pra você. Ser gagá - e isso também compartilho com Millôr, é observar essa juventude já tão decrepita, juventude boba que deixa o tempo escorrer por entre os dedos atrás de frivolidades... Como ele, às vezes, também me esqueço de coisas importantes e me lembro de passagens de lá longe. Tem dias que me dá um branco sobre um compromisso, mas me recordo com perfeição do sabor da paçoca que era vendida na cantina do Hilmar Machado no final dos anos 80. Esqueço o nome de um entrevistado, mas me lembro da alegria dos cafés da tarde na minha avó.
E no fim das contas, isso também é importante. Não para os outros. Mas pra nós mesmos. São pedaços de nossa história. Pedaços da existência de um gagá. Um ser gagá que por fora pode parecer ranzinza, egoísta, chato, cheio de manias, estúpido. E que por dentro é uma criatura medrosa, aflita e acuada com tantas novidades e modernidades que passam por cima da gente como um tanque de guerra.
Então, sim, também sou gagá. E me respeite! Porque no meu tempo...

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