“Chove. Faz sol. Chove. Faz sol. São Pedro deve ser bipolar”. Essa frase pretensamente engraçadinha que circula pela internet nos dias em que o clima parece não se decidir, vai muito além do temperamento do porteiro do céu.
São Pedro não tem culpa se nós, seres humanos, estamos detonando o planeta que o chefe dele, Deus, nos deu. Não é novidade que as mudanças climáticas estão causando catástrofes nas cidades, nos campos e na vida de muita gente. Não é de hoje que estamos sentindo que as estações parecem estar invertidas, que espécies de animais migram em busca de alimento em regiões que antes nunca haviam aparecido; que as doenças tropicais, antes extintas, reaparecem. Tudo isso tem uma razão: nosso consumo desenfreado.
Não podemos culpar o santo, a Deus ou a natureza. O planeta só está dando sinais de que precisa de socorro. Tempestades cada vez mais destruidoras são sinais de que nossa mãe Gaia anda doente.
No início de novembro o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, órgão das Nações Unidas, com sede na Suíça, divulgou um relatório, no mínimo alarmante. Num documento de 400 páginas, elaborado por 91 pesquisadores e assinado por representantes de 40 países, esses novos profetas do fim do mundo nos alertam que o planeta pode passar por transformações ainda mais drásticas, caso não mudemos nossos hábitos. E isso é pra ontem!
Fontes energéticas que utilizamos no nosso dia a dia, especialmente as fósseis, poluem o ar, o solo e a água, por isso é necessário que tiremos o pé do acelerador (até no sentido literal) e peguemos mais leve com o consumo de combustíveis, plásticos e afins. Repararam que em alguns lugares, o uso de sacolinhas e embalagens já não é tão popular? Em cidades da Europa, por exemplo, e em algumas capitais do Brasil, armazéns e mercados já aboliram as embalagens plásticas; os produtos, como grãos, são vendidos à granel, como era no tempo dos nossos avós, nos estabelecimentos de “secos e molhados”. Isso é um excelente começo. Cada uma das embalagens que descartamos, seja uma garrada pet ou um papelzinho de bala, demora séculos para se decompor no meio ambiente – isso sem falar nos entupimentos dos bueiros e no aspecto horrível que o lixo deixa pela cidade.
Os cientistas do IPCC ainda dizem que não dá mais para reverter essa realidade, mas podemos minimizar as tragédias hoje: é possível limitar o aquecimento do planeta “dentro das leis da Química e da Física, mas isso requer mudanças sem precedentes (...) as emissões humanas de dióxido de carbono terão que cair 45% até 2030, em relação aos níveis de 2010, e zerar até 2050. E isso só será possível com mudanças no estilo de vida das pessoas e o desenvolvimento de tecnologias capazes de remover CO2 da atmosfera”.
Mas como fazer isso se hoje todo mundo quer ter seu próprio veículo? Podemos começar pela conscientização de não usar o carro a toda hora. Quando for possível ir a um lugar caminhando, vá! (Mais uma vez) na Europa, há muita gente que só usa o carro nos fins de semana para passear com a família. Nos outros dias, optam por transporte público e bicicletas. Ok, o Brasil não conta ainda com um sistema decente de transporte público. É aí que entra nossa força como eleitores. Cobrança!
As mudanças climáticas vêm afetando especialmente as cidades costeiras, e estas serão as primeiras a desaparecer caso o nível dos oceanos siga subindo – estima-se que até 2100 os mares se aquecerão e ficarão cada vez mais ácidos, elevando-se até 80 centímetros ou mais. Parece pouco? Quando você vai à praia, não reparou como a água está avançando cada vez mais na areia? Isso é real! Estima-se também que até este tempo, haverá mais embalagens nos oceanos, do que peixes.
O aquecimento também afeta e afetará mais ainda as produções no campo, interferindo no desenvolvimento dos vegetais e no aparecimento de pragas. Tudo está conectado. Lixo espalhado, pouca reciclagem, consumismo, desperdício, indiferença: tudo isso vai limitar a produção de alimentos, aumentar a pobreza, castigar ainda mais os países subdesenvolvidos, proliferar doenças, extinguir espécies animais, dizimar ecossistemas, estremecer a economia e, consequentemente, a segurança de todas as sociedades.
Parece muito dramático? Exagerado? Apocalíptico? Mas está acontecendo. Daí não adianta apelar nem pra São Pedro.


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