quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

OS NOVOS PROFETAS DO FIM DO MUNDO


“Chove. Faz sol. Chove. Faz sol. São Pedro deve ser bipolar”. Essa frase pretensamente engraçadinha que circula pela internet nos dias em que o clima parece não se decidir, vai muito além do temperamento do porteiro do céu. 

São Pedro não tem culpa se nós, seres humanos, estamos detonando o planeta que o chefe dele, Deus, nos deu. Não é novidade que as mudanças climáticas estão causando catástrofes nas cidades, nos campos e na vida de muita gente. Não é de hoje que estamos sentindo que as estações parecem estar invertidas, que espécies de animais migram em busca de alimento em regiões que antes nunca haviam aparecido; que as doenças tropicais, antes extintas, reaparecem. Tudo isso tem uma razão: nosso consumo desenfreado. 

Não podemos culpar o santo, a Deus ou a natureza. O planeta só está dando sinais de que precisa de socorro. Tempestades cada vez mais destruidoras são sinais de que nossa mãe Gaia anda doente. 

No início de novembro o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC, órgão das Nações Unidas, com sede na Suíça, divulgou um relatório, no mínimo alarmante. Num documento de 400 páginas, elaborado por 91 pesquisadores e assinado por representantes de 40 países, esses novos profetas do fim do mundo nos alertam que o planeta pode passar por transformações ainda mais drásticas, caso não mudemos nossos hábitos. E isso é pra ontem!

Fontes energéticas que utilizamos no nosso dia a dia, especialmente as fósseis, poluem o ar, o solo e a água, por isso é necessário que tiremos o pé do acelerador (até no sentido literal) e peguemos mais leve com o consumo de combustíveis, plásticos e afins. Repararam que em alguns lugares, o uso de sacolinhas e embalagens já não é tão popular? Em cidades da Europa, por exemplo, e em algumas capitais do Brasil, armazéns e mercados já aboliram as embalagens plásticas; os produtos, como grãos, são vendidos à granel, como era no tempo dos nossos avós, nos estabelecimentos de “secos e molhados”. Isso é um excelente começo. Cada uma das embalagens que descartamos, seja uma garrada pet ou um papelzinho de bala, demora séculos para se decompor no meio ambiente – isso sem falar nos entupimentos dos bueiros e no aspecto horrível que o lixo deixa pela cidade. 

Os cientistas do IPCC ainda dizem que não dá mais para reverter essa realidade, mas podemos minimizar as tragédias hoje: é possível limitar o aquecimento do planeta “dentro das leis da Química e da Física, mas isso requer mudanças sem precedentes (...) as emissões humanas de dióxido de carbono terão que cair 45% até 2030, em relação aos níveis de 2010, e zerar até 2050. E isso só será possível com mudanças no estilo de vida das pessoas e o desenvolvimento de tecnologias capazes de remover CO2 da atmosfera”. 

Mas como fazer isso se hoje todo mundo quer ter seu próprio veículo? Podemos começar pela conscientização de não usar o carro a toda hora. Quando for possível ir a um lugar caminhando, vá! (Mais uma vez) na Europa, há muita gente que só usa o carro nos fins de semana para passear com a família. Nos outros dias, optam por transporte público e bicicletas. Ok, o Brasil não conta ainda com um sistema decente de transporte público. É aí que entra nossa força como eleitores. Cobrança! 

As mudanças climáticas vêm afetando especialmente as cidades costeiras, e estas serão as primeiras a desaparecer caso o nível dos oceanos siga subindo – estima-se que até 2100 os mares se aquecerão e ficarão cada vez mais ácidos, elevando-se até 80 centímetros ou mais. Parece pouco? Quando você vai à praia, não reparou como a água está avançando cada vez mais na areia? Isso é real! Estima-se também que até este tempo, haverá mais embalagens nos oceanos, do que peixes. 

O aquecimento também afeta e afetará mais ainda as produções no campo, interferindo no desenvolvimento dos vegetais e no aparecimento de pragas. Tudo está conectado. Lixo espalhado, pouca reciclagem, consumismo, desperdício, indiferença: tudo isso vai limitar a produção de alimentos, aumentar a pobreza, castigar ainda mais os países subdesenvolvidos, proliferar doenças, extinguir espécies animais, dizimar ecossistemas, estremecer a economia e, consequentemente, a segurança de todas as sociedades. 

Parece muito dramático? Exagerado? Apocalíptico? Mas está acontecendo. Daí não adianta apelar nem pra São Pedro. 



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