Animes, filmes baseados em quadrinhos, seriados, ficção científica. Tudo o que hoje vende e dá um certo status à molecada, "no meu tempo" era coisa de adolescente esquisito. Ser geek, nerd ou otaku entre os anos 80 e 90 não era tarefa muito fácil. Ainda mais para meninas! Enquanto as garotas da minha idade se preocupavam com coisas inerentes à idade, minhas maiores ambições eram ter alguns trocados para gastar na banca e me darem sossego para eu poder assistir aos meus desenhos e seriados.
Andar com um geek naquela época, era algo meio "queima filme". O estereótipo do esquisitinho de óculos incluía também conversas sobre Arquivo X, filmes do Batman e Cavaleiros do Zodíaco. Só que eu não tinha muito com quem conversar sobre. Meu monólogo se restringia às revistinhas. E a Herói foi uma das minhas grandes companheiras nos anos 90. A ida à banca era o ponto alto da semana e quando os CDZ ou Mulder e Scully estavam na capa, eu pirava! Lia vagarosamente, saboreando cada página, na tranquilidade do meu quarto. E até hoje, 22 anos depois, eu ainda guardo essas relíquias geek com o maior carinho.
Hoje isso é cool. Mas um dia, foi fool! Sim, o termo geek - registrado em 1876, nos Estados Unidos -, significava fool (pessoa idiota, bobona). E até pior. Fool era sinônimo de gente bizarra que se apresentava nas ruas com espetáculos desconcertantes, como arrancar cabeças de galinhas vivas com os dentes. Para uma "geekveg", isso não tem nem nome.
Só quando as pessoas comuns começaram a ter acesso aos computadores domésticos, é que o termo ficou mais positivo; geek e nerd eram usados para falar de gente inteligente, que se virava bem com tecnologia, criativa, interessada em leitura e atividades intelectuais. De qualquer maneira, ser geek, nerd, otaku ou mesmo fool, ainda serve para gente que não se adéqua ao resto do mundo.
Ainda me sinto bem fool. Aos quase 40 anos coleciono revistinhas, "hominhos" e HQs; sou apaixonada pelo silêncio, justamente para poder curtir esses momentos de leitura ou seriados. Papos "mulherzinha" não me interessam. Prefiro discutir os poderes dos heróis.
Sinto que não me adéquo muito pelo fato de ser vegetariana, de preferir "deixar pra lá" do que comprar uma briga, de desconhecer que tipo de música rola nesses 2000s, de gostar de sossego, de amar livros e de ser ainda bem fool. Mas não me arrependo e nem me envergonho dessas escolhas. Que na verdade nem são bem escolhas. São características, fazem parte da minha natureza. E da natureza de alguns outros fools, que há uns 30 anos tinham que ficar invisíveis na escola para não ser zuados, e que agora veem o estilo geek ser festejado em mega eventos.
Desenhos como Superamigos, Os Jetsons, Os Impossíveis, Corrida Maluca, Manda Chuva, Scooby Doo, Capitão Planeta, Silverhawks, Thundercats e He-Man; animes como Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball, Yu Yu Hakusho, Shurato, Samurai X, Sailor Moon, Samurais Warriors e Inuyasha; seriados como MacGyver, Arquivo X, Star Trek, Dawson´s Creek, Anos Incríveis, Confissões de adolescente, Mundo da lua, As aventuras de Clark e Lois, The Flash, Parker Lewis, Alf, Anjos da lei, Flash Gordon; tokusatsu como Jaspion, Changeman, Jiraya, Flashman, Google V, Maskman, Lion Man, Black Kamen Rider, Spectreman; filmes como Indiana Jones, Os Goonies, Curtindo a vida adoidado, A garota de rosa schoking, O Clube dos cinco, Superman, Karate Kid, A história sem fim, De volta para o futuro; ficções como 2001 - Uma odisseia no espaço, Blade Runner, Coccon, O exterminador (e o Vingador) do futuro: cada uma dessas "bobeiras" foram, de algum modo, me moldando, preenchendo a minha infância e adolescência.
E hoje me fazem ver que o mundo lá fora está terrível sim, mas há "ilhas" onde a gente pode se refugiar e respirar um pouco; essas "revistinhas" nos levam de volta para instantes de inocência, de emoções bem particulares, de imaginação.
Eu era fool e não sabia. Mas eu era feliz e disso eu sabia.
(ps: Essas Herói são minhas. Não vendo, não dou, não troco, não empresto, não alugo.)
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