sexta-feira, 31 de maio de 2019

O QUE APRENDI COM OSCAR WILDE (E COM A VIDA)

Dizem que o escritor é uma criatura muito reclusa, já que escrever é um ato bem solitário. Eu, como “projeto de cronista bem mediana” acho impossível alguém escrever algo decente, profundo, verdadeiro ou até puramente divertido, com uma zoeira em volta. Quem escreve pra valer, precisa estar só consigo mesmo, com seus pensamentos, fantasmas, angústias, desejos, segredos, alegrias, irritações, manias, neuras, traumas. Estar sozinho com pedaços de si mesmo. O que não significa que o escritor seja de fato alguém só. Pelo contrário. 

Quantos escritores lemos que têm ou tiveram uma rede vasta de amizades – ou amantes? Fernando Sabino, Hélio Pelegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos eram tão amigos que foram chamados de “os quatro cavaleiros do apocalipse”. Nos anos 40 eles eram o Grupo dos Vintanistas – estavam com 20 anos, mas já discutiam e faziam literatura, em meio à vida boêmia de Belo Horizonte – cidade onde, na Praça Carlos Drummond de Andrade (feliz coincidência) há um conjunto de suas estátuas, batizado de Encontro Marcado. Amizade eternizada no bronze. E nas letras. 

Há ainda as amizades misturadas aos laços de família: o pai de Eça de Queiroz era amigo de Camilo Castelo Branco; e Eça, de Antero de Quental. Além dos irmãos Aluísio e Artur Azevedo, que creio, devem ter sido amigos também. Amizade de sangue.

Clarice Lispector, frequentava o Bar Cinelândia, no Rio, convivendo com Vinícius de Moraes e Rachel de Queiroz; foi amiga de Rubem Braga, Nélida Piñon e “comadre” Érico Veríssimo, além de amiga dos “quatro cavaleiros do apocalipse”. Quando mudou-se para a  Suíça, correspondia-se especialmente com Fernando Sabino; eram cartas quase que diárias. Amizade que resistiu à distância. Clarice também trabalhou pelo próximo sem olhar a quem quando, em 1945, deu assistência aos feridos da guerra em um hospital americano. Amizade desinteressada.  

Em 1845, somado ao seu estado normal de espírito, Edgar Allan Poe, deprimido por conta da censura de seus livros, entregou-se definitivamente ao álcool. Pobre, autodestrutivo e desesperado, apenas um amigo lhe estendeu a mão. Poe foi internado delirante, e morreu no dia seguinte, deixando uma vasta obra, que acabaria por ser um marco na literatura universal. Amizade nos piores momentos e um amigo sem nome. 

E Oscar Wilde (1854 - 1900), um dos meus favoritos, com quem aprendi mais sobre convivência e amizade, com seu texto Eu escolho os meus amigos pela pupila, viu-se completamente sozinho depois que foi acusado e preso pelo “crime” de ser homossexual. Robert Baldwin Ross, jornalista e escritor, e também seu namorado, foi também seu grande amigo, dividindo com ele momentos dos mais dolorosos e humilhantes. Até a morte. Ross cuidou do enterro e das dívidas de Wilde, ajudando a limpar seu nome. Um amigo-amor

Quando Wilde descreveu o que era amizade, para ele não existia o conceito de cor de pele ou hábitos: a pessoa deveria ter um certo brilho no olhar, que fosse uma mistura de santo e louco, de velho e criança, de bobo e sério, sabendo dosar cada coisa para cada situação. Para ele, um amigo te puxa para a realidade quando necessário, mas fantasia contigo para, juntos, desconectarem-se da realidade que, muitas vezes, é dura. "Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças". 

Dos meus amigos, dos quais nunca fiquei sem resposta, tenho meu avesso, tenho minha porção de velhos e crianças, de saudosistas e de pés fincados no chão; tenho neles exemplos de garra e de como não fazer algumas coisas. As pupilas dos meus amigos brilham como aquelas descritas por Oscar Wilde. Ainda que eu não as veja, pela distância geográfica que nos separam. Não são amigos de Face. São amigos da vida toda. Amigos-irmãos. Amigos-primos. Amigos-almas-gêmeas. Amigos-anjos-da-guarda. 

Wilde disse: "Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça". Amigos sábios que não vivem nos extremos. É esse os que eu tenho a felicidade de cultivar. 

"Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que normalidade é uma ilusão imbecil e estéril". E agora, beirando uma nova década de vida, eles ainda me ajudam a saber quem eu sou. E levo cada um deles nesse quebra-cabeças que é minha alma. Sou um pouquinho de cada um e isso me ajuda para que o brilho nas minhas pupilas não se apague. 

Obrigada aos meus amigos. 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

OS GATOS DE ULTHAR


"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo; e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido” - Howard P. Lovecraft (1890 – 1937)

“Veridiana, quer um gato?” – essa pergunta é tão ou mais frequente do que “de onde viemos?” e “pra onde vamos?”. Semana sim, e outra também, alguém vem me oferecer um gatinho que foi abandonado e resgatado. Muita gente sabe do amor que eu tenho por esses bichos. Convivo com eles desde antes de nascer. Estava ainda na barriga da minha mãe quando, em casa, me aguardavam uns gatos – sim, sempre no plural.

Quando digo às pessoas que não consigo imaginar a minha vida sem esses felinos, alguns pensam que é exagero. Mas o caso é que preciso de gatos, preciso de sua energia boa, de seus bigodes, do miado, do olhar e até das lambidinhas com sua linguinha de lixa. Amo todos os bichos, mas tenho uma predileção descarada pelos gatos – tão descarada que está marcada, literalmente, na minha pele. Não os vejo como somente animais – chamo minha gata de minha filha, pois é assim que a sinto. Me preocupo se ela sai para a rua e tarda a voltar, ou se não está comendo direito, como qualquer mãe faz. E me corta a alma quando vejo ou sei de algum gato (ou quaisquer outros animais, para mim, sagrados), maltratado ou morto pelas mãos de seres “humanos”. 

Apesar da criação de leis e campanhas, que muita gente à toa chama de “modinhas”, é urgente que a consciência das pessoas mude, ou que, pelo menos, se abra um pouco para o sofrimento pelo quais os animais passam. Estejam eles nas ruas, nas indústrias, nas arenas, nos laboratórios. Gente ignorante com mania de matar gatos, por exemplo, desperta nos amantes dos animais nosso “pior lado”, o da raiva, da indignação, do ódio pela raça humana. Mas sabemos que nos pautarmos por esses sentimentos, não vai resolver o problema. Ódio se combate com amor. O mal se combate com o bem. Mas se estivéssemos em Ulthar, tudo seria diferente.

Em Ulthar, cidade do conto do (sombrio) norte-americano H.P. Lovecraft, é onde “ninguém jamais mata um gato; e ao olhar para aquele que ronrona perto do fogo aceso na lareira, sei que é verdade”. Essa é a lei maior de Ulthar, não matar nenhum gato. Sua origem vem da passagem de uma caravana de peregrinos - provavelmente de egípcios – pela cidade. Lá, apesar de todos amarem seus gatos, os moradores sabiam que eles eram mortos por um casal de velhos que viva numa cabana sob os carvalhos. A casa, com ares macabros, era a última parada dos gatos. Os animais eram roubados, torturados e mortos, para diversão do casal. Todos sabiam, todos ouviam os miados aterrorizados dos animais, mas nada diziam, por medo dos velhos. 

Um dia, passa por lá um bando de peregrinos e, dentre eles, uma criança com seu gatinho preto. A criança era órfã e tinha em seu gato, seu maior amigo e consolo. Mas o bichano acabou sendo pego pelos velhos. Depois de chorar muito, o menino rezou, e enquanto estendia os braços para o céu e proferia palavras numa língua desconhecida, as nuvens formavam figuras estranhas e o céu parecia medonho. Neste dia, todos os gatos de Ulthar sumiram e as suspeitas caíram sobre o casal assassino. Eis que um garoto diz aos cidadãos que havia visto os gatos no bosque dos carvalhos, andando, como se estivessem num ritual, em torno da cabana dos velhos. Passados alguns dias, todos os gatos voltaram! Mas nenhum aparentava estar com fome, aliás estavam gordinhos e sonolentos. Ficaram assim por dias e as pessoas notaram que a casa dos velhos estava muito quieta. 

Vencendo o receio, alguns homens foram até a cabana: “...e eles arrombaram a porta da chácara e foi só isso que acharam: dois esqueletos humanos no meio do chão de terra, limpos de todo vestígio de carne ou pele, e uma quantidade de besouros estranhos a se arrastar pelos cantos da sala”. Tudo aconteceu depois da passagem do “povo moreno” pela cidade, depois da morte do gatinho do menino e de suas orações que deixaram o céu diferente. Depois deste episódio bizarro, ficou decretado que em Ulthar “ninguém jamais pode matar um gato”. 

Dá até para sentir inveja de um lugar assim, ainda que fictício. As leis tardam a funcionar – quando funcionam – para gente que se diverte com a dor de um animal. Muitos, assim como os aldeões de Ulthar faziam, se calam, se omitem, por medo, por falta de provas. Talvez seja preciso aprender algum ritual egípcio para que os criminosos sejam punidos. De qualquer modo, que São Francisco, o patrono dos animais, e Bastet, a deusa gata, olhem por nossos bichinhos. Se a justiça não chega pelas mãos dos homens, então que venha pelas mãos dos deuses.


sábado, 25 de maio de 2019

🐝 ELAS MORREM. EU MORRO. TODO MUNDO MORRE.


Quando pequena, era comum ainda ver alguma criança reclamando de picada de abelha. "Passa álcool que sara", diziam os adultos. Sadismos à parte, qual criança, até, pelo menos a década de 80, não foi picada por uma abelha? Assim como outros pequenos acidentes, isso fazia parte da infância. Mas hoje, cadê as abelhas?

Essa é a pergunta que vem sendo feita nos últimos anos e que agora, em 2019, ganhou ainda mais força. Milhares delas têm aparecido mortas e seu desaparecimento pode, sem exagero, comprometer até em 80% a nossa alimentação. 

No dia 20 de maio celebrou-se o Dia Mundial das Abelhas - a data foi proposta pela Eslovênia em homenagem ao pioneiro da apicultura moderna, Anton Janša, nascido neste dia, em 1734. A celebração foi instituída em 2017 pela Organização das Nações Unidas, tendo como motivo principal, alertar o mundo sobre os perigos decorrentes da morte destes animais. 

Aprendemos na escola que as abelhas são responsáveis pela polinização: voando de flor em flor, ela carrega consigo o pólen, que fecunda outras flores, e assim mantém em equilíbrio, não apenas o ecossistema, mas a nossa alimentação. Quem tem uma horta, sabe bem disso. 

Infelizmente esses bichinhos podem vir a faltar em breve, livres na natureza. Talvez só existam em criadouros. O que não será o bastante para dar conta de toda uma cadeia de flora - e, consequentemente, de fauna. Não é papo de ecochato alarmista, o desastre já está acontecendo: de dezembro de 2018 a fevereiro agora, mais de meio bilhão de abelhas morreram só nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e São Paulo, por conta do uso de agrotóxicos. Os produtos utilizados no Brasil são tão nocivos ao meio ambiente, que vários de seus componentes já foram abolidos na Europa, há décadas. 

E não adianta os mega agricultores dizerem que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Esse tipo de afirmação é típico de gente mal caráter, ambiciosa e egoísta, que pensa em curto prazo e está se lixando para como ficará o planeta nos próximos anos. Albert Einstein já havia feito a previsão de que as abelhas poderiam desaparecer da Terra e que depois disso, toda a vida animal e humana duraria, no máximo, quatro anos. 

E elas não tem sumido apenas daqui. Na Europa e Estados Unidos também há registros alarmantes; e de acordo com a FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, 75% de todo o cultivo destinado à alimentação humana, dependem das abelhas. Por isso elas vêm sendo vistas como uma das criaturas mais vitais do mundo. Uma pena a humanidade só perceber esse valor quando já é quase tarde demais. E assim vem sendo e será com outras espécies animais e vegetais. 

Pensar apenas na comida no prato de cada dia é ignorar toda uma cadeia que está por trás. O que podemos fazer, então, para, ao menos, amenizar um pouco essa tragédia anunciada? Boicotar produtores que utilizam à vontade todo tipo de veneno - há sites sobre ecologia e direitos dos animais que sempre divulgam esse assunto para consulta - e valorizar mais o pequeno produtor, as famílias que cultivam na zona rural de cada município. Elas trazem o alimento livre de venenos, tratados de modo orgânico e são uma fatia importante para a economia. 

Sou a favor de valorizar quem valoriza o meio ambiente; favorecer quem favorece a natureza. É bom pesquisar sempre as marcas que não utilizam substâncias de origem animal ou que não submeteram animais a testes. Já é um bom começo para educar a mente e o espírito para essa nova realidade em que teremos que parar com demagogias e falsa piedade, e agir realmente. O nosso modo de viver afeta diretamente todo o ecossistema. Nossa alimentação, nosso transporte, o consumo de produtos, o descarte de embalagens, a utilização da água: todos os nossos atos entram para essa imensa conta. 

Aos governantes - de grandes e pequenos municípios - vocês podem começar preservando e aumentando as áreas verdes e incentivando as escolas a educar os pequenos cidadãos para que respeitem o meio ambiente (cartazes e musiquinhas não resolvem o problema: o lance é dar um choque de realidade mesmo). Londres, por exemplo, está construindo 11 quilômetros de corredores de flores silvestres em 22 parques e áreas verdes, a fim de criar um ambiente ideal às atividades polinizadoras das abelhas. Na Europa, desde a Segunda Guerra, os ambientes silvestres vêm sendo ameaçados e as flores foram as primeiras a desaparecer - neste caso, a culpa não é unicamente dos agrotóxicos. 

Mas seja por qual motivo for, a responsabilidade é exclusivamente nossa. Alteração climática, desmatamento, poluição de oceanos e rios, contaminação do solo, péssima qualidade do ar, alimentos ricos em venenos, caça legalizada, falta de leis mais severas, conchavos para agradar à bancada ruralista, fiscais insuficientes, subornos e deboches. Tudo isso somado, só mostra a imbecilidade que ainda reina em nossa sociedade, em pleno 2019 - quando vemos que a profecia de Albert Einstein começa a se cumprir. 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

OS NERDS E OS SERIADOS


O Dia do Orgulho Nerd tá aí e eu desenterrei um texto sobre uma das coisas que os nerds mais curtem: seriados. 

Antes mesmo de saber o que significava ser nerd, acho que sempre fui: óculos desde criança, a total falta de coordenação com os esportes e a timidez excessiva somavam-se às coleções de gibis, aos seriados e super-heróis. E uns 30 anos depois, essas coisas todas ainda me acompanham, com a diferença que hoje em dia ser chamado de nerd é quase como um elogio. Houve um tempo em quem ser nerd era sinônimo de passar cola, fazer a tarefa alheia, ser o preferido do professor, tomar sova na educação física, fazer parte de uma turma meio bizarra com quem ninguém queria andar no recreio. Agora somos tendência de moda, comportamento, consumo e até beleza! Parece que o jogo virou, não é mesmo? 

Mesmo sendo 100% Humanas, minhas séries favoritas sempre abordam conceitos ligados à física e astronomia: viagens no tempo, buracos de minhoca, universos paralelos, realidades alternativas. MacGyver era o terráqueo mais inteligente - e charmoso - dos anos 80; perito em química, salvava o dia sem apelar para armas. E Spock, o alienígena sex symbol - sendo metade vulcano, dominava a arte da fleuma. 

Apesar de parecerem apenas um produto, os seriados são "documentos" de várias épocas, e através de muitos deles podemos compreender o pensamento de uma geração ou os interesses de uma sociedade. Star Trek - a série original, dos anos 60 - abordou questões importantes ligadas à diversidade racial: querendo mostrar que seria, sim, possível, uma sociedade igual para todas as etnias, fizeram da tripulação da U.S.S Enterprise NCC 1701, um amálgama: americanos, europeus (com destaque para um irlandês, um escocês e um russo), negros, asiáticos e aliens, todos convivendo harmonicamente com suas funções e com um único objetivo. O famoso primeiro beijo interracial da TV norte-americana - entre o capitão Kirk e a tenente Uhura - é creditado à série e causou um furor à época. 

"No meu tempo", era preciso esperar uma semana inteira para saber o que aconteceria no próximo episódio - até parte dos anos 90 era assim: não tínhamos internet em casa, então as coisas eram mais devagar. Depois que inventaram os canais pagos, a venda de boxes completos, Youtube e Netflix, dá pra baixar uma temporada inteira e fazer uma maratona. Inúmeros. E que movimentam um mercado imenso de produtos - licenciados ou não. Sim, nerds gastam com os derivados de seriados e filmes como qualquer pessoa "normal" gastaria com comida, por exemplo. Por isso, merecemos, no mínimo, um dia só nosso!


O livro Loucuras dos seriados da TV - 287 histórias reais... e absurdas (de Manoel de Souza, pela Panda Books) me fez rememorar dezenas de seriados que me acompanharam na infância ou que, de certa forma, marcaram a minha década de 80: Esquadrão Classe A, Dallas, A gata e o rato, Super Vicky, Primos Cruzados, Anjos da Lei, A dama de ouro, Miami Vice, Magnum, O elo perdido, Terra de gigantes, A feiticeira, Jeannie é um gênio, Alf, Capitão Marvel (popularmente conhecido por Shazam!). Daí vieram Anos incríveis, As aventuras de Hércules, Xena - a princesa guerreira, Beverly Hills 90210, Dawson´s Creek, Gilmore Girls, Friends, Seinfeld, Blossom, Parker Lewis, Confissões de adolescente, Twin Peaks (e a pergunta que não calava: quem matou Laura Palmer?), Arquivo X, Lois & Clark - As novas aventuras do Superman, The Flash, Buffy, Angel.

Com uma linguagem ainda mais ágil (e polêmica) - e episódios cada vez mais caros - o longevo Doctor Who, a franquia C.S.I, Lost, 24 Horas, Friends, Grey´s Anatomy, Modern Family, Fresh Prince of Bel Air, The Office, Sherlock, Frasier, Doctor House, Fringe, Dexter, Supernatural, Smallville, A família Soprano, Mad Men, Two and a half man, The Big Bang Theory, Breaking Bad, The Walking Dead, Games of Thrones, Lúcifer, Stranger things, Arrow, Supergirl e o novo Flash. Os nerds mais velhos, com 50 anos ou mais, talvez não saibam do que se tratem esses nomes, mas certamente se lembram com carinho de Rin Tin Tin, Maverick, I love Lucy, Thunderbirds, Flash Gordon, A poderosa Ísis, Bonanza, Os pioneiros, A família Dó Ré Mi, Bat Masterson, Lassie, Perdidos no espaço, As panteras, Manimal, Columbo, Zorro, Chaparral, Havaí 5-0, O homem de 6 milhões de dólares, Batman. 

Não importa de qual geração falemos: todas tiveram seus seriados do coração e cada seriado guarda uma história - aquela que nós conhecemos e a outra, dos bastidores, da concepção, das ideias tomando forma, dos fracassos e sucessos. Acompanhamos os seriados e eles nos acompanham; marcam uma época, nos espelham certos personagens, nos tiram da realidade ou nos mergulham nela. Meros produtos, futilidades, ópio. Distração, calmante, companhia. Cada um encara de uma forma, mas é fato que nossa cultura já não vive mais sem seriados (e suas loucuras). 

Então, a todos eles e a nós, nerds: vida longa e próspera.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

A SEMENTE DE MOSTARDA


Qual é o tamanho da sua fé? Não há como saber. Fé não se mede, não se pesa, varia de coração para coração; mas se ela for do tamanho de um grão de mostarda, teremos condições de realizar prodígios. Não é assim que Cristo nos ensinou? E não somente ele, mas Buda e Krishna antes dele. Sim, os três (só para citar alguns poucos, mas os melhores exemplos), cada um a seu tempo, deixaram mensagens belíssimas usando a figura das sementes. Dentro do budismo - dependendo da escola - não há a "necessidade" da presença de Deus para que uma pessoa lute para ser melhor, que consiga sua paz interior, que pratique o bem. Visto pelos ocidentais como uma religião não-teísta, o budismo cala-se sobre Deus, não porque não creia n'Ele, mas porque nos mostra um caminho sem simbolismos para se chegar até Ele: ver sua face sem dizer seu nome. E isso depende muito da meditação e da experiência de cada um. 

E convenhamos: meditação, autoconhecimento, aprimoramento espiritual e a prática de tudo isso, é do que mais temos necessitado nessas últimas décadas tão turbulentas. Me atrevo a dizer (mesmo não sendo profunda conhecedora de Teologia) que cristianismo, budismo e hinduísmo convergem em pontos cruciais. Nasci num lar católico, me tornei espírita, estudo o budismo e hinduísmo e vejo que Deus está em toda e qualquer parte, ainda que nada sobre Ele seja dito. Ele (através de suas obras e seu reino) é o grão de mostarda, mínimo, quase imperceptível, dentro de nós, solo mal preparado, mas com potencial para abrigar uma grande árvore. 

Não vou falar diretamente sobre religião - um dos três temas sobre os quais nunca se deve discutir -, pois este é um espaço dedicado à literatura. Só que, além de bússolas e poderosos calmantes, vejo nos evangelhos e nos ensinamentos orientais, obras literárias. Há histórias, parábolas, alegorias, personagens, cenários, passagens de tempo, o retrato de costumes dos povos, feitos extraordinários, reinos, jogos de interesses, poder, o embate de classes, crises existenciais, o amor filial. São ou não são elementos comumente encontrados em obras literárias, dignas de uma peça shakespeariana, por exemplo? 

Religiosos, me perdoem pela comparação, mas Cristo, Buda e Krishna foram, além de homens fora do comum, grandes ícones. Não quero faltar com respeito quando coloco no mesmo balaio os evangelhos, o budismo, os vedas e a literatura dos simples mortais. Nos livros, sejam eles quais forem, sempre encontramos alguma resposta. E quando digo que o time da videira e o time da flor de lótus jogam do mesmo lado, é porque ambos têm a mesma crença sobre algo eterno, imutável e imenso. (Sobre os termos "time da videira" e "time da flor de lótus", posso assegurar que eles não são nada pejorativos. Ora, se eu tenho Deus como um Pai amoroso, porque não posso ter essa licença poética com Ele?). 

As parábolas da semente de mostarda são as menores (que irônico) dos evangelhos, mas são umas das mais conhecidas. Mateus, Marcos, Lucas e até Tomé (em seu evangelho apócrifo) falam sobre essas passagens: "Porque a fé que vocês têm é pequena. Eu asseguro que, se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: 'Vá daqui para lá', e ele irá. Nada será impossível para vocês" e "O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual grão é, na verdade, a menor de todas as sementes, mas depois de crescido, é a maior das hortaliças e faz-se árvore, de tal modo que as aves do céu vêm pousar nos seus ramos". 

Quando li o conto indiano As sementes de mostarda, vi que em ambos os tempos, Siddhartha e Jesus falavam dessa força poderosa que cada um tem, encapsulada numa sementinha, mas que pode atingir um tamanho imensurável. No conto, há uma mulher que havia acabado de perder seu jovem filho. Desesperada, ela foi visitar Buda, em busca de consolo ou alguma resposta para tamanha dor. Buda lhe recomendou: "Vá até a cidade e peça sementes de mostarda, mas deve ser em casas onde ninguém tenha perdido nenhum ente querido". A mulher saiu batendo às portas, sempre ouvindo a mesma resposta: "Podemos lhe dar quantas sementes quiser, mas a condição não será cumprida, porque muitos parentes morreram nesta casa". 

Exausta por passar o dia caminhando em busca das sementes, ela percebeu que a morte não era uma tragédia pessoal, que não era um "castigo" destinado somente a ela, que a morte abraça a todos e é parte natural da vida. Voltando a Buda, comovida, ela lhe pediu: "Inicie-me. Quero conhecer aquilo que nunca morre. Não peço para recuperar o meu filho, pois mesmo que pudesse recupera-lo, ele morreria novamente. Ensine-me a como encontrar dentro de mim mesma isso que nunca morre". As sementes de mostarda foram um meio apenas, para levar a mulher à resposta que ela procurava. Indo atrás das sementes, ela notou que ela e todos os demais estão juntos na mesma caminhada, visitados pela morte, mas também pela vida. 

As minúsculas sementes, através dos sábios conselhos de Buda ou dos doces ensinamentos de Jesus, acabaram também se tornando personagens da história. Algo ínfimo, mas que guarda em si uma grande força, raízes fortes, ramas generosas. Para encontrar as respostas que buscamos, não precisamos ir atrás de sementes de porta em porta - há um grãozinho de mostarda dentro de cada um de nós, esperando para ser cultivado. Esse é o algo que nunca morre.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

UM PEDAÇO DE DEUS EM CADA MÃE


"Qualquer um que tenha a coragem de superar as limitações da mente, vai atingir o estado de Maternidade Universal. Isto é um amor e compaixão sentidos não só na direção da própria criança, mas também em todas as pessoas, animais, plantas, rochas e rios. E é um amor estendido a toda a natureza e a todos os seres em um, a quem o estado de verdadeira maternidade despertou. Todas as criaturas são seus filhos nesse despertar do amor. Esta maternidade é o Amor Divino. Isto é Deus". 

Eu imagino que amor de mãe seja algo indefinível - só quem é, sente. E mesmo sentindo, não consegue explicar a magnitude. Mas talvez a palavra divinal sirva. Um amor que é plantado por Deus e cujas forças se assemelham. 

A frase sobre a maternidade universal pertence à guru indiana Sri Amma. Nascida em 1954, na Vila Sangra, no Estado de Andhra Pradesh, Amma desde pequena externou grande amor e compaixão por todas as criaturas e sempre buscou um meio de explicar às pessoas um modo de resolver seus problemas através da espiritualidade; Amma sempre levou - e leva - um sorriso no rosto e diz-se que ela costuma aparecer em sonho ou durante as orações para algumas pessoas. Por isso é tida como a encarnação da Mãe Divina. 

Apesar de sua aura de santidade (como denominariam os ocidentais), não é necessário possuir a envergadura de Sri Amma para ser uma mãe divina. Todas, ao seu modo, levam um pedaço da divindade dentro de si. É bem clichê dizer isso, mas quem tem e quem é mãe, conhece essa porção do amor de Deus. Seja mãe de sangue, mãe adotiva, uma tia, uma avó, uma irmã mais velha, uma madrinha, uma professora muito querida, uma amiga. Há tantas formas de se demonstrar mãe. Até mãe de bicho, conta - e eu me incluo nessa categoria. Tenho duas filhas de quatro patas que me mudaram por dentro. 

Quando se aproxima essa data, a do Dia das Mães, a publicidade nos traz também diversos clichês, muitas vezes focando na dificuldade do filho em escolher um presente. O lado comercial do dia nos força a quebrar a cabeça, atrás de um mimo para elas. Mas já pararam para pensar no quanto elas quebram a cabeça, desde quando se souberam grávidas? Há quantas décadas? Filhos são meio egoístas - ainda que inconscientemente - e não sabem os apuros internos que cada mãe deve ter passado - tanto aquelas que se descobriram mães de surpresa ou aquelas que foram mães planejadas. 

E mesmo com tantas coisas para pensar e providenciar; com tantas coisas para sentir e aprender; com tantos palpites da família e tantas dúvidas ou com tantos planos adiados ou sonhos cancelados, ainda assim, houve espaço e tempo para amar. 

E é desse amor que Sri Amma nos fala e nos pede para que apliquemos em tudo no mundo. Se não temos força e nem capacidade para aplicar o próprio amor de Deus, então que saibamos aplicar o amor materno - e também divino - em nossas vidas e em tudo o que fazemos, pois não há amor mais dedicado que este. 

Diz ela que "o amor tem muitas faces; ele se manifesta em momentos e formas diferentes. Em sua relação com o seu filho, o amor se manifesta como afeição. Permita-se ser afetado pelos medos, inseguranças e frustrações complexas do seu filho. Estenda a mão com compreensão. Em relação ao seu relacionamento conjugal, o amor é paixão e respeito; serem amigos e ficarem juntos até nos maus momentos. Para a família, o amor se manifesta como providência e doação. Transforma-se em sensibilidade e consciência das necessidades dos outros. No trabalho, o amor se manifesta como compromisso e paixão pela excelência. Por um amigo, amor significa um conselho correto em tempos difíceis e brincadeiras durante os tempos fáceis. Para a nação, o amor é a criação de riqueza através de integridade. Na vida, o amor vem através da coragem e aceitação. Derrube as paredes do medo e permita que cada experiência flua através de você; assim como as águas modelam as areias. A vida é completa somente quando você cultivar o amor em todas as suas formas". 

Lógico que o amor sentido por um filho, não será sentido por um colega de trabalho. Mas é o exercício em si que podemos por em prática. A paciência, a compaixão, o aconselhamento, os ouvidos, o colo, o incentivo, a fidelidade e a doçura que estão sempre presentes no amor materno é que devemos espalhar pelo mundo. 

Certamente que o planeta seria um lugar bem melhor se todos os vissem pelos olhos de uma mãe: com a sensibilidade de uma mãe do coração, com o entusiasmo de uma mãe-avó, com os cuidados de uma mãe de bicho, com a bravura de uma mãe leoa, com a proteção de uma mãe coruja, com o jogo de cintura de um pai-mãe. 

Ser filho não é fácil; há sempre aquele choque de gerações, a discordância, a rebeldia injustificada. Mas mais difícil ainda é ser mãe: presenciar um filho que trilha um mau caminho ou até perde-lo; ter um filho numa cama de hospital ou num presídio; indignar-se quando o mundo acha que seu filho "não se encaixa" em certos padrões. Aguentar tanta coisa, tanto desaforo, tanto julgamento e ainda assim... Ter um estoque de amor. 

Se prestarmos mais atenção nesse amor, nessa fatia de Deus em nosso dia a dia, e aprendermos a pratica-lo pelo mundo, talvez ainda haja uma saída para a humanidade inteira. Parece exagero de mãe, mas não é. 

TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO

Último desejo. Tão difícil escolher um. Primeiro porque essa ideia nos remete à gente que está à beira da morte, ou no momento de um ...