Dizem que o escritor é uma criatura muito reclusa, já que escrever é um ato bem solitário. Eu, como “projeto de cronista bem mediana” acho impossível alguém escrever algo decente, profundo, verdadeiro ou até puramente divertido, com uma zoeira em volta. Quem escreve pra valer, precisa estar só consigo mesmo, com seus pensamentos, fantasmas, angústias, desejos, segredos, alegrias, irritações, manias, neuras, traumas. Estar sozinho com pedaços de si mesmo. O que não significa que o escritor seja de fato alguém só. Pelo contrário.
Quantos escritores lemos que têm ou tiveram uma rede vasta de amizades – ou amantes? Fernando Sabino, Hélio Pelegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos eram tão amigos que foram chamados de “os quatro cavaleiros do apocalipse”. Nos anos 40 eles eram o Grupo dos Vintanistas – estavam com 20 anos, mas já discutiam e faziam literatura, em meio à vida boêmia de Belo Horizonte – cidade onde, na Praça Carlos Drummond de Andrade (feliz coincidência) há um conjunto de suas estátuas, batizado de Encontro Marcado. Amizade eternizada no bronze. E nas letras.
Há ainda as amizades misturadas aos laços de família: o pai de Eça de Queiroz era amigo de Camilo Castelo Branco; e Eça, de Antero de Quental. Além dos irmãos Aluísio e Artur Azevedo, que creio, devem ter sido amigos também. Amizade de sangue.
Clarice Lispector, frequentava o Bar Cinelândia, no Rio, convivendo com Vinícius de Moraes e Rachel de Queiroz; foi amiga de Rubem Braga, Nélida Piñon e “comadre” Érico Veríssimo, além de amiga dos “quatro cavaleiros do apocalipse”. Quando mudou-se para a Suíça, correspondia-se especialmente com Fernando Sabino; eram cartas quase que diárias. Amizade que resistiu à distância. Clarice também trabalhou pelo próximo sem olhar a quem quando, em 1945, deu assistência aos feridos da guerra em um hospital americano. Amizade desinteressada.
Em 1845, somado ao seu estado normal de espírito, Edgar Allan Poe, deprimido por conta da censura de seus livros, entregou-se definitivamente ao álcool. Pobre, autodestrutivo e desesperado, apenas um amigo lhe estendeu a mão. Poe foi internado delirante, e morreu no dia seguinte, deixando uma vasta obra, que acabaria por ser um marco na literatura universal. Amizade nos piores momentos e um amigo sem nome.
E Oscar Wilde (1854 - 1900), um dos meus favoritos, com quem aprendi mais sobre convivência e amizade, com seu texto Eu escolho os meus amigos pela pupila, viu-se completamente sozinho depois que foi acusado e preso pelo “crime” de ser homossexual. Robert Baldwin Ross, jornalista e escritor, e também seu namorado, foi também seu grande amigo, dividindo com ele momentos dos mais dolorosos e humilhantes. Até a morte. Ross cuidou do enterro e das dívidas de Wilde, ajudando a limpar seu nome. Um amigo-amor.
Quando Wilde descreveu o que era amizade, para ele não existia o conceito de cor de pele ou hábitos: a pessoa deveria ter um certo brilho no olhar, que fosse uma mistura de santo e louco, de velho e criança, de bobo e sério, sabendo dosar cada coisa para cada situação. Para ele, um amigo te puxa para a realidade quando necessário, mas fantasia contigo para, juntos, desconectarem-se da realidade que, muitas vezes, é dura. "Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças".
Dos meus amigos, dos quais nunca fiquei sem resposta, tenho meu avesso, tenho minha porção de velhos e crianças, de saudosistas e de pés fincados no chão; tenho neles exemplos de garra e de como não fazer algumas coisas. As pupilas dos meus amigos brilham como aquelas descritas por Oscar Wilde. Ainda que eu não as veja, pela distância geográfica que nos separam. Não são amigos de Face. São amigos da vida toda. Amigos-irmãos. Amigos-primos. Amigos-almas-gêmeas. Amigos-anjos-da-guarda.
Wilde disse: "Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça". Amigos sábios que não vivem nos extremos. É esse os que eu tenho a felicidade de cultivar.
"Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que normalidade é uma ilusão imbecil e estéril". E agora, beirando uma nova década de vida, eles ainda me ajudam a saber quem eu sou. E levo cada um deles nesse quebra-cabeças que é minha alma. Sou um pouquinho de cada um e isso me ajuda para que o brilho nas minhas pupilas não se apague.
Obrigada aos meus amigos.






