quinta-feira, 30 de maio de 2019

OS GATOS DE ULTHAR


"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo; e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido” - Howard P. Lovecraft (1890 – 1937)

“Veridiana, quer um gato?” – essa pergunta é tão ou mais frequente do que “de onde viemos?” e “pra onde vamos?”. Semana sim, e outra também, alguém vem me oferecer um gatinho que foi abandonado e resgatado. Muita gente sabe do amor que eu tenho por esses bichos. Convivo com eles desde antes de nascer. Estava ainda na barriga da minha mãe quando, em casa, me aguardavam uns gatos – sim, sempre no plural.

Quando digo às pessoas que não consigo imaginar a minha vida sem esses felinos, alguns pensam que é exagero. Mas o caso é que preciso de gatos, preciso de sua energia boa, de seus bigodes, do miado, do olhar e até das lambidinhas com sua linguinha de lixa. Amo todos os bichos, mas tenho uma predileção descarada pelos gatos – tão descarada que está marcada, literalmente, na minha pele. Não os vejo como somente animais – chamo minha gata de minha filha, pois é assim que a sinto. Me preocupo se ela sai para a rua e tarda a voltar, ou se não está comendo direito, como qualquer mãe faz. E me corta a alma quando vejo ou sei de algum gato (ou quaisquer outros animais, para mim, sagrados), maltratado ou morto pelas mãos de seres “humanos”. 

Apesar da criação de leis e campanhas, que muita gente à toa chama de “modinhas”, é urgente que a consciência das pessoas mude, ou que, pelo menos, se abra um pouco para o sofrimento pelo quais os animais passam. Estejam eles nas ruas, nas indústrias, nas arenas, nos laboratórios. Gente ignorante com mania de matar gatos, por exemplo, desperta nos amantes dos animais nosso “pior lado”, o da raiva, da indignação, do ódio pela raça humana. Mas sabemos que nos pautarmos por esses sentimentos, não vai resolver o problema. Ódio se combate com amor. O mal se combate com o bem. Mas se estivéssemos em Ulthar, tudo seria diferente.

Em Ulthar, cidade do conto do (sombrio) norte-americano H.P. Lovecraft, é onde “ninguém jamais mata um gato; e ao olhar para aquele que ronrona perto do fogo aceso na lareira, sei que é verdade”. Essa é a lei maior de Ulthar, não matar nenhum gato. Sua origem vem da passagem de uma caravana de peregrinos - provavelmente de egípcios – pela cidade. Lá, apesar de todos amarem seus gatos, os moradores sabiam que eles eram mortos por um casal de velhos que viva numa cabana sob os carvalhos. A casa, com ares macabros, era a última parada dos gatos. Os animais eram roubados, torturados e mortos, para diversão do casal. Todos sabiam, todos ouviam os miados aterrorizados dos animais, mas nada diziam, por medo dos velhos. 

Um dia, passa por lá um bando de peregrinos e, dentre eles, uma criança com seu gatinho preto. A criança era órfã e tinha em seu gato, seu maior amigo e consolo. Mas o bichano acabou sendo pego pelos velhos. Depois de chorar muito, o menino rezou, e enquanto estendia os braços para o céu e proferia palavras numa língua desconhecida, as nuvens formavam figuras estranhas e o céu parecia medonho. Neste dia, todos os gatos de Ulthar sumiram e as suspeitas caíram sobre o casal assassino. Eis que um garoto diz aos cidadãos que havia visto os gatos no bosque dos carvalhos, andando, como se estivessem num ritual, em torno da cabana dos velhos. Passados alguns dias, todos os gatos voltaram! Mas nenhum aparentava estar com fome, aliás estavam gordinhos e sonolentos. Ficaram assim por dias e as pessoas notaram que a casa dos velhos estava muito quieta. 

Vencendo o receio, alguns homens foram até a cabana: “...e eles arrombaram a porta da chácara e foi só isso que acharam: dois esqueletos humanos no meio do chão de terra, limpos de todo vestígio de carne ou pele, e uma quantidade de besouros estranhos a se arrastar pelos cantos da sala”. Tudo aconteceu depois da passagem do “povo moreno” pela cidade, depois da morte do gatinho do menino e de suas orações que deixaram o céu diferente. Depois deste episódio bizarro, ficou decretado que em Ulthar “ninguém jamais pode matar um gato”. 

Dá até para sentir inveja de um lugar assim, ainda que fictício. As leis tardam a funcionar – quando funcionam – para gente que se diverte com a dor de um animal. Muitos, assim como os aldeões de Ulthar faziam, se calam, se omitem, por medo, por falta de provas. Talvez seja preciso aprender algum ritual egípcio para que os criminosos sejam punidos. De qualquer modo, que São Francisco, o patrono dos animais, e Bastet, a deusa gata, olhem por nossos bichinhos. Se a justiça não chega pelas mãos dos homens, então que venha pelas mãos dos deuses.


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