quarta-feira, 10 de julho de 2019

TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO



Último desejo. Tão difícil escolher um. Primeiro porque essa ideia nos remete à gente que está à beira da morte, ou no momento de um fuzilamento. Em qualquer uma destas situações em que eu eventualmente me metesse, levaria horas para resolver. Queria ver os quadros de Botticelli, Rafael, Da Vinci e Caravaggio - face to face -; caminhar pelas plantações de uva da Toscana, poder salvar o maior número de animais que eu pudesse, ir à FLIP, mostrar às pessoas que não precisamos comer aquela vaquinha linda e nem o seu lindo bebê, livrar as cidades das pichações, que mais crianças gostassem de ler, que mais adolescentes usassem menos “eu te amo” com estranhos e mais com os seus, que ninguém apanhasse por crer ou não em Deus, que houvesse máquinas do tempo (só com a finalidade de passeio, não de alterar a ordem das coisas), que mais gente trocasse os motores pelos pedais, que os pássaros desconhecessem as gaiolas, que as baleias desconhecessem os arpões, que os homens fossem menos revoltados e mais resignados, desenvolver o poder que todo mundo tem (e nem desconfia) no chakra coronário, ver as linhas de Nazca, avistar discos voadores, ver meus familiares e amigos felizes e continuar rindo muito de bobagens. Enfim, a gente quer tanta coisa, que chega a dar raiva! E acho que foi mais ou menos isso que Rachel de Queiroz quis mostrar em seu delicioso texto Talvez o último desejo. Imagino que tenha sido isso. 

É que certa vez lhe perguntaram qual era o seu maior desejo (isso em 1950). Ela naturalmente respondeu “muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro em casa”, como todos nós fazemos nos famigerados votos de fim de ano. Mas, disse ela, que na verdade, seu desejo era pegar o planeta, olhar bem nos olhos dele e dizer: dane-se! Dane-se ao mundo, aos países, às cidades, ao seu homem, ao respeitável público, à pátria: “Que cresças, que aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou que compres ervilhas de lata, que simule eleições ou que engula golpes. Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu”. Queria mandar danar-se as parentalhas, o bom nome, o dinheiro, e deitaria-se numa rede branca sob uma jaqueira, roendo castanha-de-caju confeitada (sem remorso), e nela balançaria até dormir ao som de Noel Rosa e lendo Ágata Christie. Mas não dava. 

O coração não deixaria. O coração, essa armadilha, lhe traria todos os problemas do mundo e dos entes queridos e faria com que ela, cheia do sentimento de fraternidade, sentisse a dor dos seus, se achasse responsável pelas mazelas da terra e do céu. Coração insolente. 

Me senti exatamente – e novamente – como Rachel. Queria mandar o mundo às favas, mandar o Brasil se lixar, que continuem escolhendo seus presidentes em troca de esmolas, que continuem idolatrando celebridades ocas e negligenciando seus verdadeiros gênios, dane-se o mundo e que continuem derrubando árvores, esquentando e sujando o ar, acabando com os animais, virando máquinas, querendo ser Deus ao mesmo tempo em que zomba Dele; dane-se juventude que anda armada e mata gente trabalhadora em troca de umas pedrinhas, danem-se as crianças que já fazem outras crianças, danem-se os governantes mentirosos que um dia vão pra debaixo da terra também. Mas não dá... O coração não deixa a gente ser tão duro. 

Sabemos que lá no íntimo, por mais que tenhamos raiva de algo ou alguém, lá está o coração, esse chato, nos lembrando que não nos faz bem pensar assim. Lá está aquele intrometido nos lembrando que temos amor, piedade, caridade e empatia dentro dele. É só querer usar. E temos que “cuidar do mundo e vigiar o mundo”, como diz Rachel. 
Então, se eu tivesse um último desejo, pediria que o cérebro e o coração entrassem logo num acordo, porque não é prudente sermos moles o tempo todo, mas também nunca é bom sermos duros o tempo todo.

(escrito e publicado em 9 de julho de 2015)

TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO

Último desejo. Tão difícil escolher um. Primeiro porque essa ideia nos remete à gente que está à beira da morte, ou no momento de um ...