quinta-feira, 18 de abril de 2019

❤☕ HISTÓRIAS, CAFÉ E UM DEDIM DE PROSA ☕💚

"Você já bebeu seis xícaras de café! Vou contar pra sua mãe!". Esse era um dos pitos que meu irmão e eu mais ouvíamos na casa da minha avó. Praticamente todas as tardes, durante uns bons anos (os 90) era esse ritual de descer pra lá, bem na hora do café. As 16 horas eram sagradas. Era bem mais divertido do que qualquer vídeo game ou brincadeira de rua ou qualquer outra distração do mundo para gente da nossa idade. O café na casa da vó... 


E por mais que todas as tardes fossem parecidas, elas eram únicas. Era uma conjunção de fatores que tornava todas elas muito legais. O encontro com os primos, ouvir a conversa dos mais velhos, voltar da banca sempre com algum gibi, assistir à Sessão da Tarde, passar trotes pelo telefone (sem identificador de chamadas). E quando era tempo de jabuticabas, outro "pretinho" aparecia na mesa. 

Mal entravamos pela sala e já vinha aquele perfume tão familiar. Meu tio chegava depois com o saco de pães (da saudosa Panificadora 2001). Sobre a toalha quadriculada, às vezes tinha queijo branco com goiabada, remetendo a uma mesa adoravelmente bem caipira. E aí as conversas começavam. Muito do que escutei sobre política na minha adolescência, devo a esses cafés da tarde na dona Valentina. E entre um café e outro, entre uma arte e outra do meu irmão e entre um pito e outro da minha vó (alguns num italiano macarrônico bem engraçado, com sotaque de São Manuel), eu ficava imaginando até quando eu poderia viver aquilo. 

Por isso posso dizer que tenho um carinho especial por essa bebida - daí a minha lembrança tão afetiva, já que o último domingo (dia 14) foi o Dia Mundial do Café. Foi cortando mato e plantando o tal do ouro verde que meus ascendentes portugueses, ainda muito jovens, fizeram sua vida aqui. Meu bisavô do lado italiano também cruzou seu caminho com o café quando viveu numa colônia e viu chegar os imigrantes japoneses para trabalharem na terra. Contava-se que eles, mortos de sede, pediam água, mas no idioma deles. E como não eram compreendidos, eles ganhavam apenas café, pois os colonos pensavam que era isso o que eles pediam, que deviam ter gostado tanto que queriam mais. Os primeiros japoneses "paulistas" tinham que matar a sede com café. Tempos duros pra todos...

Saindo da Etiópia, cruzando o Egito e chegando à Europa, o café foi trazido à América e aqui ganhou status de moeda valiosa. Fez a fortuna e a desgraça de muita gente. Levou progresso onde antes havia apenas mato (se bem que hoje é preferível o mato). Fez crescer cidades como São Paulo, antes das indústrias (Matarazzo); foi, ao lado do leite de Minas, uma escada para se governar o país. Hoje ainda somos o maior produtor e maior exportador de café do mundo, o mercado se desenvolveu, os bebedores estão ficando cada vez mais exigentes e estão se tornando apreciadores; a ciência já disse que café faz bem, depois disse que café faz mal, agora disse de novo que café faz bem. Tá, mas nada disso me interessa tanto quanto as memórias que eu guardo e que vêm à tona quando sinto o cheirinho do café. 

Quando morava perto da torrefação São João, sentia aquele perfume tão característico. Não tinha mais que 5 anos de idade, mas a lembrança ficou. Aí veio o café da mãe, que me ajudava sempre a despertar para ir à escola cedo, e o café da vó, que fazia minha alegria nas tardes. O primeiro e único café decente que fiz na vida foi em 1992, em viagem a Monte Verde, Minas  (percebe-se que nunca fui afeita às artes culinárias). Provei o horrível "chafé" nova-iorquino e o saboroso cafezinho de padaria de Lisboa. Guardo impressões de tudo. Por isso não celebro o tal Dia Mundial do Café. Celebro os dias dos anos 80, quando vivia perto da torrefação; celebro os dias dos anos 90, quando a casa da minha avó era o centro do mundo pra mim; celebro os dias de viagem, em que se pode experimentar os diferentes jeitos de fazer café; celebro hoje em que uma pausa para um café tem sido uma das poucas alegrias dos meus dias. 

E se os romanos têm Baco e os gregos têm Dionísio, deuses do vinho - tão nobre bebida -, acho que devemos reivindicar um deus só nosso, deus do café, pois abençoadas sejam as xícaras nossas de cada dia.

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