"Poder-se ia definir Deus de modo superior ao que fazemos? Definir é limitar, e toda fraqueza humana se mostra em face deste grande problema. Deus impõe-se ao nosso espírito, mas escapa a qualquer análise. Ele, que ocupa todo o tempo e todo o espaço, não pode ser medido por aqueles que vivem no espaço e no tempo: definir Deus seria circunscrevê-lo e quase negá-lo".
Como assim, quase negar a Deus? Uma frase que parece bem radical, partiu de um dos maiores apóstolos do espiritismo: Léon Denis. Esta frase me veio aleatoriamente (abrindo o livro Depois da morte - A existência da reencarnação), enquanto pensava sobre o que falar a respeito deste grande pensador e divulgador do movimento espírita. Neste dia 12 de abril, deram-se 92 anos de seu desencarne, e suas palavras, assim como tudo o que diga respeito ao mundo espiritual, a Deus e à existência da vida, seguem sendo atemporais.
Logo que me "percebi" espírita, Léon Denis foi uma de minhas primeiras leituras - não é à toa que ele é tido como um verdadeiro apóstolo, pois esclareceu, depois da partida de Allan Kardec e ao lado de Gabriel Delanne e Camille Flammarion, muitas coisas que despertavam no público descrença, deboche, medo e até preconceito.
Não vim falar - e muito menos pregar - sobre espiritismo. Quis somente prestar reverências a Léon Denis, que me clareou muito os caminhos quando tomei contato com a doutrina que é a soma equilibrada de fé + filosofia + ciência.
Não quero também, com isso, diminuir tudo aquilo que aprendi e vivi dentro da Igreja Católica. Pelo contrário. O catolicismo me preparou para muitas das coisas que viriam a me acontecer; tenho em Nossa Senhora (seja ela Aparecida, de Fátima, de Guadalupe ou das Graças), em São Francisco de Assis e em São Rafael Arcanjo, grandes almas a quem recorro nos momentos de aflição.
Mas nomes como Léon Denis - bem como o próprio Kardec, além de Emmanuel, André Luiz, Dr. Bezerra, Joana de Ângelis e Chico - falou sobre a fé inabalável, porém raciocinada. A não ver os fenômenos que nos acontecem todos os dias como acaso, castigo divino ou "porque Deus quis". Pensadores espíritas (budistas e hinduístas também) me fizeram entender que a lei de causa e efeito está em tudo, e que Deus não castiga; apenas nos mostra que tropeçar e quebrar a cara deve fazer parte do nosso burilamento; que muitos aprendizados vêm da dor - quando não vêm pelo amor -, que Ele não criou o mal: as desgraças humanas têm origem na própria humanidade que cede aos seus instintos primitivos de ganância, egoísmo, luxúria, consumismo, materialismo.
Mas quando Léon Denis falou em "negar a Deus", me fez pensar. Todos nós temos a mania de tentar definir Deus: Ele é pai, é o criador de tudo, tudo vê, tudo sabe, é justo, misericordioso. Mas e daí? Mesmo com tão poucas e pobres palavras, quase nunca nos lembramos disso quando estamos prestes a fazer uma besteira.
Não sabemos ao certo ainda o que é Deus. Nossa cabecinha de terráqueos ainda não comporta tanta informação. Mas sabemos o que Ele não é. Não é tirano, não é um velho barbudo sentado num trono mandando raios cá pra baixo (esse é Zeus, não confundam!); Ele não "negocia" um paraíso cheio de paz e fartura, apenas se formos bonzinhos e frequentarmos a missa ou o culto. Ele não quer fariseus que fazem propaganda da própria reputação imaculada.
Acredito que Ele prefira também, assim como Jesus nos deixou bem claro, seres humanos sinceros, que busquem melhorar-se a cada dia, que se transformam a partir do íntimo, que sejam genuinamente misericordiosos.
Léon Denis escreveu: "Recorda-te de que a vida é curta; esforça-te, pois, por conquistar, enquanto o podes, aquilo que vieste aqui realizar: o verdadeiro aperfeiçoamento. Possa teu espírito partir desta Terra mais puro do que quando nela entrou! Pensa que a Terra é um campo de batalha, onde a matéria e os sentidos assediam continuamente a alma; corrige teus defeitos, modifica teu caráter, reforça a tua vontade; eleva-te pelo pensamento, acima das vulgaridades da Terra e contempla o espetáculo luminoso do céu.”
E isso vale não só para os espíritas, mas para todo ser humano! Inclusive para aqueles que não creem em nada. Apenas sejam melhores, se quisermos um mundo melhor. Uma receita tão simples na teoria, mas um grande sacrifício na prática. Por isso temos tantas vidas: para recomeçar, para errar e tentar e acertar; para aprender, para reter o aprendizado e seguir adiante, a caminho da angelitude. Até lá, nosso dever é cuidar desta casa que temos em comum: a Terra. Pois ela e nós somos em pedaço de Deus.

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