Quando o brasileiro ouve falar em política, já torce o nariz, faz "humm" com aquele tom de desaprovação, ou então já taca logo um "ninguém presta". Já estamos calejados. Há quase 520 anos é a mesma coisa: vem alguém, poe-nos à boca um mel e quando conseguem o que querem, desfazem o que foi combinado. Foi assim com os índios e segue sendo assim conosco.
Com os pacíficos povos da terra, o agrado eram os espelhos, facas e chapéus. No tempo dos mestiços brasileiros, as promessas vêm em forma de hospitais, condições dignas de trabalho, segurança pública. As cenas de candidatos abraçando o povo, comendo pastel de feira e tomando um pingado de bar, já ficaram caricatas e patéticas. Mas também, toda vez, acabamos por eleger um engodo.
Não estou me referindo a um político em específico - até porque a lista seria grande. Me refiro ao que a classe, infelizmente, nos remete: a pessoas interesseiras, falsas, dissimuladas, que têm e põem preço nas pessoas. Ainda acredito em um ou outro, mas confesso-me decepcionada. Assim como decepcionou-se o poeta nordestino Joaquim Eduvirges de Mello Açucena - o Lourival Açucena.
Cito o boêmio riograndense em sua memória - hoje, dia 28 completam-se 112 anos de sua partida - e para mostrar, através de um poema seu, A Política, que as coisas no seu tempo e em sua terra não diferem em quase nada do nosso tempo e do nosso canto.
Açucena viveu numa época em que Natal era um paraíso na Terra; participava de noitadas, foi compadre de meio mundo, era alegre, apaixonado (ia a nado e andava léguas para ver a namorada que vivia do outro lado do Rio Potenji); foi funcionário público, delegado, juiz de paz, ator, apresentador nas festas típicas. Fez 32 filhos e, no entanto, não publicou nenhum livro (vai ver não dava tempo). Seus amigos, após seu desencarne, é que trataram de reunir seus escritos e Câmara Cascudo providenciou a publicação de uma antologia. Apesar das pisadas na jaca (quem nunca?) - como ter ficado preso por algum tempo no Forte dos Reis Magos, por falcatruas - ele é o que chamamos de sujeito do bem. Como a maioria de nós.
E assim como nós, indignava-se com a política, mas conseguia transformar isso em arte: "Você pergunta, Yayá / por que deixei a política? / Você quer saber de tudo / Você é muito analítica / (...) Esses arautos políticos / Quer de uma, quer doutra grei / Quando estão de baixo gritam: / 'Viva o povo” – “Abaixo o Rei'! / Mas, o sábio Rei, / Que conhece tudo, / Faz que não entende, / Fica surdo e mudo; / E o povo que ideia / Não tem dos negócios / Vai crendo nas loas / Dos tais capadócios / (...) Prometem ao pobre povo / Um governo angelical / A terra da promissão / Um paraíso ideal / Porém, quando grimpam / Cessam as cantigas / E tratam somente / De suas barrigas. / E nem mais conhecem / Aquele bom moço / Com quem já viveram / De braço ao pescoço".
E assim como nós, indignava-se com a política, mas conseguia transformar isso em arte: "Você pergunta, Yayá / por que deixei a política? / Você quer saber de tudo / Você é muito analítica / (...) Esses arautos políticos / Quer de uma, quer doutra grei / Quando estão de baixo gritam: / 'Viva o povo” – “Abaixo o Rei'! / Mas, o sábio Rei, / Que conhece tudo, / Faz que não entende, / Fica surdo e mudo; / E o povo que ideia / Não tem dos negócios / Vai crendo nas loas / Dos tais capadócios / (...) Prometem ao pobre povo / Um governo angelical / A terra da promissão / Um paraíso ideal / Porém, quando grimpam / Cessam as cantigas / E tratam somente / De suas barrigas. / E nem mais conhecem / Aquele bom moço / Com quem já viveram / De braço ao pescoço".
Me sento como este moço, que recebia abraços e promessas, mas que, passada a eleição, fora ignorado. Vários conhecidos meus, aliás, da causa animal, sentem-se da mesma forma. Vários candidatos, usando a luta pelos animais de rua como bandeira, ganharam de nós um voto de confiança: um CCZ digno, castrações, carroças de lata, maiores cuidados com os animais usados nos rodeios - ou até a extinção deste espetáculo de extremo mau gosto e sadismo. Promessas. Encenações. Cremos nas "loas dos tais capadócios". E nada mudou. Seguimos agindo sozinhos, cada vez mais desconfiados e escaldados.
Alguns se fazem de desentendidos, desmemoriados; outros dizem "vamos ver... vamos ver". Ai, Açucena, queria ter o seu bom humor: "Prometem casas da Índia, / Cabedais, mundos e fundos: /Mas, quando estão no poleiro: / – Viva Dom Pedro segundo! / Seja liberal / Seja puritano, / Traz o povo sempre / Num completo engano. / Gregos e Troianos / Procedem assim / Eu vou debulhando / Tintim por tintim / Enquanto esperam maré, / Oh! Que afeto! Oh! que doçura! / Mas, quando embarcam na lancha, / Quanto gás! Quanta impostura! / Nas vésperas da eleição, / Vão à casa do compadre, / Dão beijos no afilhado, / Rompem sedas à comadre / E o pobre diabo entra na rascada, / Tomando sopapos, / Servindo de escada".
Evito entrar em contendas por política - muitas amizades se desfizeram por isso no último ano. Só que não caio mais na conversa de gente que adere "à modinha" das causas. Senhores, não usem mais os animais como chamariz de votos. Não prometam mais nada daquilo que sabem que não vão cumprir. Tentem não ser, como bem define Açucena: "Hoje, Sancho é muito bom / Amanhã, Sancho é ruim / Já fica sendo um demônio / Quem foi ontem Serafim".

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