sexta-feira, 8 de março de 2019

👱‍♀ CALÇA LITERÁRIA ❤🌷

Os poetas que tratem de defender seus direitos autorais. A menos que considerem uma honra vestir de versos as mulheres”. Essa frase encerra um texto muito delicado de Carlos Drummond de Andrade. Vestir de versos as mulheres. Foi uma das sentenças mais bonitas que já li, não apenas em Drummond, mas em toda literatura. E dá o que pensar: hoje em dia os homens – independente da profissão ou inclinação: poetas, médicos, estudantes, balconistas, garis, pilotos, físicos – pensariam em coisas assim, em relação às mulheres? Dize-las vestidas de versos – ao invés de vestidas de qualquer maneira, já que serão despidas mesmo... Ficou fora de moda ver a mulher com respeito? Ou alguns de nós paramos no tempo porque nos irritamos com atitudes machistas?


Hoje as mulheres podem se vestir da maneira que quiserem (em sociedades que aceitam isso) e são fortes o bastante para lidar com as "consequências" de suas escolhas. Porém, ao mesmo tempo em que elas se sentem cada vez mais livres e donas de si, também convivem com a sombra da violência dos homens - que, talvez, frustrados por tantas conquistas, não sabem lidar com mulheres independentes e que sabem brilhar.

O texto de Drummond, Calça literária, sempre me fez pensar: será que ainda existem homens que olhem para as mulheres, não como um pedaço de carne, não como uma serviçal, não como uma coisa ou uma pessoa que só deveria pilotar fogão? Há ainda piadinhas deste naipe por todas as partes. E me questiono se esses mesmos caras, que depreciam as mulheres, se esquecem que têm mães, irmãs, filhas, avós... Elas são poupadas destes comentários ou são niveladas por baixo, como todas as outras? 

Há formas e formas de olhar para nós. De se dirigir a nós. De nos considerar profissionais. De nos ver como seres humanos com intelecto, força – física ou interior -, vontades, liberdade. 

No texto, Drummond conversa com um amigo, descrevendo como leu vários trechos de poemas clássicos lusitanos e brasileiros, na calça de uma moça, no cinema. O olhar de “cobiça” lançado foi mais por interesse literário – embora ele não negasse a beleza da jovem: “- Ontem eu li uma calça comprida, de mulher, que à primeira vista não tinha nada de especial. Estava escrita como tantas outras. Mas o texto (não confundir com textura) me chamou a atenção. Geralmente, calças e blusas não são Iiterárias. Trazem notícias, anúncios, slogans, mas versos, ainda não tinha visto. Pois essa tinha poemas em português, de Camões ao Vinícius.  -Tomou nota? - Claro. Aliás, a usuária foi muito gentil. Percebendo que eu mirava a parte inferior do seu revestimento, gratificou-me com um sorriso que eu traduzi assim: ‘Pode mirar mais’. E eu mirei. Aí, puxei da caneta, e ela sorriu outra vez, como quem diz: ‘Pode copiar também’. Copiei. - Tudo? - Tudo, não. A dona da calça estava sentada na sala de espera do cinema. Só o que era visível. Depois se levantou, foi ao bebedouro, deu tempo para eu colher mais alguma coisa, no ir e vir. Não tive coragem de pedir-lhe que desse umas voltas. Você compreende: sou tímido”. 

Que falta fazem os caras tímidos, os Drummonds ou Vinícius. E aí uns podem levantar a questão: “A moça usou essa calça de propósito, para que as pessoas parassem para ler os versos e, ao mesmo tempo, suas curvas. E se pediu pra ser olhada, não pode achar ruim se algum cara passar uma cantada ou dizer coisas indecentes”. Pode achar ruim, sim! Palavras grosseiras não devem ser ditas, seja pra uma mulher, uma criança, um idoso, pra quem quer que seja, em qualquer situação. Se tiver algo chulo para dizer, guarde para si. Pense sobre ele, reflita e perceba que você, pessoa machista e pré-conceituosa, não tem autoridade alguma para julgar o comportamento de ninguém. 

Se este texto pareceu um tanto feminista, ótimo. Mas acima do feminismo, do machismo, do achismo e outros ismos, deve haver o maior de todos: o humanismo. Se vier acompanhado de poesia, melhor ainda. Feliz Dia Internacional da Mulher, todos os dias e em todos os lugares. 



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