sexta-feira, 17 de maio de 2019

A SEMENTE DE MOSTARDA


Qual é o tamanho da sua fé? Não há como saber. Fé não se mede, não se pesa, varia de coração para coração; mas se ela for do tamanho de um grão de mostarda, teremos condições de realizar prodígios. Não é assim que Cristo nos ensinou? E não somente ele, mas Buda e Krishna antes dele. Sim, os três (só para citar alguns poucos, mas os melhores exemplos), cada um a seu tempo, deixaram mensagens belíssimas usando a figura das sementes. Dentro do budismo - dependendo da escola - não há a "necessidade" da presença de Deus para que uma pessoa lute para ser melhor, que consiga sua paz interior, que pratique o bem. Visto pelos ocidentais como uma religião não-teísta, o budismo cala-se sobre Deus, não porque não creia n'Ele, mas porque nos mostra um caminho sem simbolismos para se chegar até Ele: ver sua face sem dizer seu nome. E isso depende muito da meditação e da experiência de cada um. 

E convenhamos: meditação, autoconhecimento, aprimoramento espiritual e a prática de tudo isso, é do que mais temos necessitado nessas últimas décadas tão turbulentas. Me atrevo a dizer (mesmo não sendo profunda conhecedora de Teologia) que cristianismo, budismo e hinduísmo convergem em pontos cruciais. Nasci num lar católico, me tornei espírita, estudo o budismo e hinduísmo e vejo que Deus está em toda e qualquer parte, ainda que nada sobre Ele seja dito. Ele (através de suas obras e seu reino) é o grão de mostarda, mínimo, quase imperceptível, dentro de nós, solo mal preparado, mas com potencial para abrigar uma grande árvore. 

Não vou falar diretamente sobre religião - um dos três temas sobre os quais nunca se deve discutir -, pois este é um espaço dedicado à literatura. Só que, além de bússolas e poderosos calmantes, vejo nos evangelhos e nos ensinamentos orientais, obras literárias. Há histórias, parábolas, alegorias, personagens, cenários, passagens de tempo, o retrato de costumes dos povos, feitos extraordinários, reinos, jogos de interesses, poder, o embate de classes, crises existenciais, o amor filial. São ou não são elementos comumente encontrados em obras literárias, dignas de uma peça shakespeariana, por exemplo? 

Religiosos, me perdoem pela comparação, mas Cristo, Buda e Krishna foram, além de homens fora do comum, grandes ícones. Não quero faltar com respeito quando coloco no mesmo balaio os evangelhos, o budismo, os vedas e a literatura dos simples mortais. Nos livros, sejam eles quais forem, sempre encontramos alguma resposta. E quando digo que o time da videira e o time da flor de lótus jogam do mesmo lado, é porque ambos têm a mesma crença sobre algo eterno, imutável e imenso. (Sobre os termos "time da videira" e "time da flor de lótus", posso assegurar que eles não são nada pejorativos. Ora, se eu tenho Deus como um Pai amoroso, porque não posso ter essa licença poética com Ele?). 

As parábolas da semente de mostarda são as menores (que irônico) dos evangelhos, mas são umas das mais conhecidas. Mateus, Marcos, Lucas e até Tomé (em seu evangelho apócrifo) falam sobre essas passagens: "Porque a fé que vocês têm é pequena. Eu asseguro que, se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: 'Vá daqui para lá', e ele irá. Nada será impossível para vocês" e "O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual grão é, na verdade, a menor de todas as sementes, mas depois de crescido, é a maior das hortaliças e faz-se árvore, de tal modo que as aves do céu vêm pousar nos seus ramos". 

Quando li o conto indiano As sementes de mostarda, vi que em ambos os tempos, Siddhartha e Jesus falavam dessa força poderosa que cada um tem, encapsulada numa sementinha, mas que pode atingir um tamanho imensurável. No conto, há uma mulher que havia acabado de perder seu jovem filho. Desesperada, ela foi visitar Buda, em busca de consolo ou alguma resposta para tamanha dor. Buda lhe recomendou: "Vá até a cidade e peça sementes de mostarda, mas deve ser em casas onde ninguém tenha perdido nenhum ente querido". A mulher saiu batendo às portas, sempre ouvindo a mesma resposta: "Podemos lhe dar quantas sementes quiser, mas a condição não será cumprida, porque muitos parentes morreram nesta casa". 

Exausta por passar o dia caminhando em busca das sementes, ela percebeu que a morte não era uma tragédia pessoal, que não era um "castigo" destinado somente a ela, que a morte abraça a todos e é parte natural da vida. Voltando a Buda, comovida, ela lhe pediu: "Inicie-me. Quero conhecer aquilo que nunca morre. Não peço para recuperar o meu filho, pois mesmo que pudesse recupera-lo, ele morreria novamente. Ensine-me a como encontrar dentro de mim mesma isso que nunca morre". As sementes de mostarda foram um meio apenas, para levar a mulher à resposta que ela procurava. Indo atrás das sementes, ela notou que ela e todos os demais estão juntos na mesma caminhada, visitados pela morte, mas também pela vida. 

As minúsculas sementes, através dos sábios conselhos de Buda ou dos doces ensinamentos de Jesus, acabaram também se tornando personagens da história. Algo ínfimo, mas que guarda em si uma grande força, raízes fortes, ramas generosas. Para encontrar as respostas que buscamos, não precisamos ir atrás de sementes de porta em porta - há um grãozinho de mostarda dentro de cada um de nós, esperando para ser cultivado. Esse é o algo que nunca morre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO

Último desejo. Tão difícil escolher um. Primeiro porque essa ideia nos remete à gente que está à beira da morte, ou no momento de um ...