“Adeus ano velho. Feliz ano novo. Que tudo se realize no ano que vai nascer. Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender. Para os solteiros, sorte no amor, nenhuma esperança perdida. Para os casados, nenhuma briga. Paz e sossego na vida”. Musiquinha quase obrigatória nas festas de reveillon, a letra tem seu ápice tragicômico quando se aconselha os solteiros a não perderem a esperança. Imagino que, quando tenha sido escrita essa letra, o contexto era outro; devia ser um vexame ser solteiro, especialmente solteira. Antes dos 30, se não fosse casada, a mulher era declarada oficialmente - e pejorativamente - solteirona. Outros tempos.
Mas além das músicas típicas, há outros "rituais" clássicos para a virada do ano: vestir determinada cor para atrair sorte, dinheiro, amor; pular 7 ondas (para quem estiver na praia); comer 7 uvas ou 7 romãs ou jantar lentilha para chamar prosperidade. Tudo na expectativa por um ano ainda melhor.
Mas que garantia poderemos ter em relação a um ano que acaba de começar? Nos primeiros minutos de cada ano, só temos uma certeza: a maioria estará de barriga cheia e/ou de pileque – e por causa disso, abraçando inconvenientemente os amigos e familiares, confessando coisas inconfessáveis ou dizendo algumas "verdades". Alguns preferem o sossego do campo, outros ficam em casa mesmo. Outros soltam fogos que assustam os animais. E há aqueles que não dão a mínima - apenas viram a página da folhinha.
Luís Fernando Veríssimo, em seu texto Ano Novo, fala sobre uma porção de rituais (zoando certas tradições que se perdem no tempo) – alguns claramente inventados, mas não por isso menos engraçados: “Existem muitas superstições sobre a melhor maneira de entrar o Ano Novo. Na nossa casa, por exemplo, nunca falta um prato de lentilha para ser consumido nos primeiros minutos do ano que começa. Dá sorte. Ouvi dizer que na Espanha, ao soar da meia-noite, deve-se comer uma uva para cada badalada do relógio. Este costume chegou à Bulgária mas, por uma falha na tradução, lá se come um melão para cada batida do relógio, e os hospitais ficam cheios do dia 1º. Na Suíça, comem o relógio. Algumas crenças persistem através do tempo, desafiando toda lógica. Se o champanhe aberto à meia-noite não estourar e se tiver alguém na família chamado Edgar, é sinal de que a casa será arrasada por uma manada de elefantes e o champanhe está choco. Na Rússia, depois de brindarem o Ano Novo com vodca, os convidados devem atirar suas taças contra a parede, e depois de ficar muito brabos, porque não há mais copos na casa, atirar o anfitrião contra a parede. De qualquer maneira, a festa termina cedo”.
Aqui no Brasil uma coisa interessante acontece: há no país muita gente que torce o nariz para as religiões afro-brasileiras, generalizando e dizendo que “é tudo macumba”. Mas aí chega o reveillon e todo mundo corre pra orla, pular 7 ondas vestido de branco e oferecendo flores para Iemanjá. Se há um ritual que deve ser feito por aqui é a abolição da hipocrisia, da ignorância e da incoerência.
Diz o autor: “O primeiro animal que você encontrar na rua no ano novo pode significar uma coisa. Cachorro é sorte. Gato é dinheiro. Rato é saúde. Um bando de hienas é azar, corra. Um cavalo roxo dançando o xaxado na calçada significa que você está bêbado. Vá dormir”. Como a militante chata dos animais, aconselho a, caso virem um bichinho na rua, no ano novo e em qualquer dia, sejam vocês a sorte deste animal.
Ao invés de comer tal coisa ou vestir tal cor para atrair coisas boas, devemos ser nós a fonte dessas coisas boas: gentileza, fé, compaixão, empatia, respeito. Dê ao mundo aquilo que você acha que falta nos outros. Todos os dias, por todos os anos.

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