Fim de ano é sempre igual: todo mundo deseja algo, quer dar início àquela resolução de ano novo. Desejos de prosperidade, saúde, uma casa, um carro, viagens; desejos de encontrar alguém, de emagrecer, de um novo emprego. Desejos comuns à maioria de nós e que não precisam estar numa lista de presentes ou serem mentalizados só na virada do ano. São coisas que não dependem do cosmos, de Deus ou de qualquer energia do universo para se concretizarem: só dependem da gente. O poeta português Alexandre Herculano disse que "é um erro confundir o desejar com o querer. O desejo mede obstáculos; a vontade vence-os". O ideal então é mesclar o desejo com a vontade. Primeiro deseja-se no plano das ideias, depois realiza-se, com força e boa vontade - e sabedoria para manter cada uma destas coisas.
Na minha infância oitentista, nós desejávamos e nossos pais, tios e afins davam um jeito de realizar. E os desejos eram até simples, se comparados aos das crianças de hoje (e mesmo com uma inflação de 400% ao mês, às vezes nossos desejos eram atendidos; não sem antes ouvir a pergunta retórica: você acha que dinheiro cai do céu?): ganhar um Atari, completar o álbum do chocolate Surpresa, ter a mais gorda pasta de papéis de carta, colecionar os “hominhos” Playmobil; assistir a Thundercats, Superamigos, Caverna do Dragão; jogar Jogo da Vida, Banco Imobiliário, Stop; uma caixa de lápis de cor (de, no máximo 24 cores – as de 36, 48 e 52, eram coisa de “riquinho”), fitas K7 para gravar a sequência musical no rádio, um sorvete da Gelato, um pacote de Zambinos, uma paçoquinha Amor, balas Kleps, cigarrinhos de chocolate da Pan, uma barra de Galak, uma carteira da Op, um vidro de Taty, um reloginho Champion (troca-pulseiras), um estojo do Paraguai (aquele com 300 divisórias), caneta de 10 cores (inclusive amarelo), escovar os dentes com Tandy, comer Danoninho (que valia por um bifinho), um diário com cadeado, poder ficar acordado até mais tarde no sábado, jogar queimada na rua, ter uns trocadinhos para comprar gibi na banca, a pipoca doce da cantina da escola, brincar na enxurrada, fichas de orelhão para passar trote, dormir sem tomar banho. Eram tantas as coisas desejáveis daqueles tempos, que eu gastaria - com gosto - horas escrevendo.
No tempo dos meus pais, as famílias desejavam o luxo de ter um par de sapatos para cada membro – sim, havia o “sapato da família”, que era revezado entre os irmãos. Comer uma maçã argentina, só em caso de doença. Saborear um doce de padaria era um evento bissexto. Agora, na vida adulta, os desejos são mais "sérios", mais materialistas ainda. Nos esquecemos de desejar ó que é realmente essencial, espiritualmente falando.
Mas Carlos Drummond de Andrade, com seu espírito sempre jovial, nos lembra dessas coisinhas simples e pueris, que nos "corres" do dia a dia nós negligenciamos, mas que enchem de significado a nossa vida. Escreveu ele: “Desejo a vocês / Fruto do mato / Cheiro de jardim / Namoro no portão / Domingo sem chuva / Segunda sem mau humor / Sábado com seu amor / Filme do Carlitos / Chope com amigos / Crônica de Rubem Braga / Viver sem inimigos / Ter uma pessoa especial / E que ela goste de você / Ouvir uma palavra amável / Ter uma surpresa agradável / Noite de lua cheia / Ter fé em Deus / Rir como criança / Ouvir canto de passarinho / Tomar banho de cachoeira / Pegar um bronzeado legal / Aprender uma nova canção / Esperar alguém na estação / Queijo com goiabada / Pôr-do-sol na roça / Uma festa / Uma seresta / Recordar um amor antigo / Ter um ombro sempre amigo / Uma tarde amena / Calçar um velho chinelo / Sentar numa velha poltrona / Ouvir a chuva no telhado / Vinho branco / Bolero de Ravel / E muito carinho meu”.
Eu acrescentaria: a alegria de um cachorro, o ronronar de um gato, o perfume dos incensos, a beleza dos cristais, o som do silêncio, praticar o que se prega, emocionar-se com um livro, rever filmes da infância, fotografias antigas da família, pão de queijo com café (em Minas, de preferência). Desejos e vontades que, no fim das contas - e no fim da vida -, é o que teremos de mais precioso. Então, neste final de ano, desejo a todos ótimos desejos.
- 14 de dezembro de 2018 -

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