sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

HQs: ARTE E LITERATURA


“Quadrinho é coisa de criança”. Quando um adulto colecionador de HQ ouve esse tipo de afirmação, até acha graça. Sim, pode ser coisa de criança, mas daquela criança interior que todo mundo carrega - ou deveria carregar - dentro de si. 

Eles foram meus companheiros desde pequena. Acredito que, como praticamente toda pirralha leitora brasileira, comecei pelos gibis de Maurício de Souza. O universo Disney nunca me encantou (e continua não encantando). Preferia vivenciar coisas mais ligadas à cultura daqui: a turma da Mônica, que viva no Bairro do Limoeiro, em São Paulo, onde ainda podia-se brincar na rua. O Chico Bento, que vivia na roça, tinha grande ligação com os animais, roubava goiaba, tirava zero na escola, mas nunca perdia a alegria. O Astronauta, sempre viajando pelos planetas e conhecendo criaturas estranhas, e sempre voltando à Terra para matar as saudades. O dino Horácio, com suas crises existenciais. O cãozinho Bidu, o gatinho Mingau, o porquinho Chovinista. O indiozinho Papa-Capim, o Anjinho, o Penadinho e seus amigos do cemitério, o gênio Franjinha, o Louco. Toda criança tem um pouco de cada personagem. E foi através delas que desenvolvi o gosto pela leitura e por colecionar quadrinhos. 

Tinha paixão pelas tirinhas brasileiras dos jornais: As cobras, Geraldão, Níquel Náusea. Esperava pelo Caderno 2, do Estadão, para ver a Graúna, do Henfil. Ainda que eu não compreendesse os vieses das mensagens, de algum modo eu me divertia e isso me marcou. O Brasil é um terreno fértil para essa arte. É, arte! Desenho, pintura e escrita. A união de três artes em uma – não é tão simples quanto parece: contar uma história e manter um enredo através de balõezinhos. O casamento entre desenho e texto tem que ser perfeito e equilibrado (diferente dos casamentos de verdade). Por isso, não é só coisa de criança. Quem folhear obras como Lobo, Deadpool ou Batman - A piada mortal, verão que nem mesmo adultos têm estômago para certas coisas. 

Como, até hoje, são os americanos os dominadores deste mercado, às vezes criam-se personagens de várias nacionalidades, dentro do politicamente correto, ou numa tentativa diplomática de agradar a um possível aliado. Esse foi o caso do Zé Carioca. Walt Disney, em visita ao Brasil, dentro da "política de boa vizinhança", em plena Segunda Guerra, criou o personagem caricato (malandro, alegre e bon vivant). Foi uma das várias formas de os Estados Unidos massagearem o ego do governo brasileiro a fim de conquistar uma força latina contra o Eixo. 

Da adolescência para cá, minha estante vive abarrotada de heróis (e anti-heróis) da Marvel e da DC e de mangás – os quadrinhos japoneses que a gente tem que começar a ler pela última página. São um pequeno tesouro pra mim. E pra minha criança interior. Também o são os quadrinhos que se juntam à Literatura. Quem passou pelo colegial, deve se recordar que nas aulas de Português, muitos penavam com a leitura dos clássicos. Alguns termos, nascidos no século 19, causavam estranhamento, bem como a dificuldade em contextualizar a história, pensar “com a cabeça” de determinada época. Não fossem as orientações dos professores, desconheceríamos Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Manuel Antônio de Almeida, Arthur Azevedo. Na sexta ou sétima série, não tive acesso aos quadrinhos de literatura; tive que ler os livros (sem figuras, hahaha), e não me arrependo. Mas vejo nessas HQs um material rico para os professores de hoje, prenderem seus alunos neste universo à parte, que é a literatura brasileira. 

Tanto para os livros como para os quadrinhos, o Brasil sempre foi muito bem servido. Muitos são os escritores e cartunistas ainda anônimos, mas que desenvolvem um excelente material, de forma independente. Infelizmente a maioria de nós só tem contato com aquilo que é comercial - o que não quer dizer que seja ruim - afinal, conhecemos Glauco, Angeli, Jaguar, Luís Fernando Veríssimo, Adão Iturrusgarai, Caco Galhardo, os irmãos Chico e Paulo Caruso, Daniel Azulay, Millôr, Ziraldo. 

Hoje, na minha estante convivem harmoniosamente Capitão América e o homem que sabia javanês, Superman e um tal sargento de milícias, Wolverine e o enfermeiro Procópio, Gavião Arqueiro e uma moreninha, Aquaman e Gaetaninho, Flash e o alienista. Ambos – quadrinhos e livros, e neste caso, livros em quadrinhos -, são arte, ambos fazem bem à cabeça – especialmente nos dias mais aborrecidos. Assim, se quadrinho for mesmo coisa de criança, então, pais e mestres, ofereçam um Machado de Assis em balõezinhos às suas. Façam um favor à nossa cultura. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

TALVEZ O ÚLTIMO DESEJO

Último desejo. Tão difícil escolher um. Primeiro porque essa ideia nos remete à gente que está à beira da morte, ou no momento de um ...