Verde e cinza. Pássaros e buzinas. Praças e favelas. Consumismo e pobreza. Clássico e gótico. Ópera e rap. Chorinho e hip hop. Cultura e violência. Museus e cracolândia. Teatro e futebol. Pausa para o café e correria. Calor e enchente. Solidão e multidão. Medo e êxtase. Descobertas e perigos. Crescimento e abandono. Culinária do mundo todo e fome. Bovespa em polvorosa e mendigos nas marquises. Moema e Cidade Tiradentes. Higienópolis e Parelheiros. Haddock Lobo e 25. Fasano e churrasquinho grego. Nordeste, Ásia, África, Oriente Médio, Europa, Américas. Tudo que é diferente e contrastante está em São Paulo.
É clichê e dispensável dizer sempre sobre os abismos que São Paulo tem, mas sendo essa uma de suas maiores características, fica impossível não mencionar tudo o que nos atrai e nos repele nessa Babilônia dos tempos modernos. É meu jeito de desejar feliz aniversário a Sampa. Para uma cidade brasileira, 465 anos é bastante tempo, é muita história, são muitas vidas que passaram por ali. Mas o que são 465 anos perto de tantas outras cidades famosas do mundo? Porto, Londres, Cádis; ou mais ainda, Roma, Atenas, Damasco, Beirute, Cairo. Dias que se perdem no tempo, documentos que já não existem, histórias que foram se transformando. Sampa é ainda uma mocinha; tem, portanto, a memória mais fresca, mas nem por isso tem uma história menos interessante.
Comparar nossa gigante com as outras da Europa, por exemplo, dizem que é uma covardia. Eu não acho que seja. As cidades mães, irmãs, tias e primas de São Paulo podem servir como inspiração. Comparamos tudo a todo momento na vida, por que nesta situação seria diferente?
O médico e escritor Drauzio Varella escreveu um texto sobre São Paulo, sobre as agruras e delícias de se viver nesta cidade, e também não escapa à comparação: “São Paulo é sobretudo feia. Esbanja mau gosto no neoclassicismo brega dos edifícios com nomes franceses, nas vitrines, no desleixo generalizado com as fachadas, nas grades que aprisionam famílias, na pichação grosseira, na cafonice das decorações natalinas, na iluminação mortiça das noites, na americanice grandiloquente dos shoppings, no emaranhado de fios elétricos, nas casas sem reboque das favelas e da periferia inchada, no lixo das calçadas, na tragédia da Cracolândia e na miséria andrajosa dos moradores de rua.
Conheci cidades sem um cisco no chão, habitadas por cidadãos instruídos, à beira-mar ou no meio das montanhas, com horizontes a perder de vista, ruas sem imprevistos, silenciosas às oito da noite, bares que fecham às dez. Lugares idílicos, aprazíveis num fim de semana, mas para neuróticos com a alma impregnada pela balbúrdia paulistana, como este que vos escreve, morar neles seria flertar com o suicídio. O que me encanta e desafia em São Paulo é justamente o estar por fazer, a imprevisibilidade, a confusão urbana que me obriga a reinventar o jeito de viver a cada ano que passa”.
Pois é. Também já passei por lugares impecáveis, sem pichações grotescas, sem lixo espalhado, sem aquela confusão de sons, gritos e ofertas, sem trânsito caótico, sem água suja empoçada, capitais transbordando cultura e beleza. Mas essa contemplação termina assim que desembarcamos em Guarulhos. São Paulo é o que temos. E se é São Paulo o que temos, precisa-se que se faça a mesma contemplação por esta cidade. Mais do que comparar e lamentar (“ai, por que São Paulo não é mais segura, mais limpa, mais verde; por que sua gente não é mais educada, mais paciente, menos fria?”), é preciso que Sampa seja mais amada, mais respeitada. Gente estressada se vê em todo lugar do mundo, assim como lixo, pobreza e carros demais. Algumas destas belas cidades (com seus governantes, suas Ongs e seu povo colaborativo) só acharam meios de amenizar os problemas. São Paulo precisa deste carinho e maiores cuidados.
Drauzio também fala das belezas de Sampa, das saudades de seu bairro natal, o Brás, quando as pessoas socializavam conversando em cadeiras na calçada, do futebol da molecada, dos apitos das fábricas (que hoje foram substituídos pelos gritos dos pastores). Brás, (onde o "Arnesto" havia marcado um samba), lá vivi por um tempo, e descobri que o caos e o estranhamento também provocam saudades.
Feliz aniversário, São Paulo.
(Fotinhos de acervo pessoal... Saudades)

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