sábado, 19 de janeiro de 2019

O PANCHAYAT


“Amigos, amigos. Negócios à parte”. Um pensamento bem popular, não se sabe quem o cunhou, mas muita gente usa – especialmente em situações que envolvam dinheiro emprestado ou sociedades entre amigos. Por outro lado, há quem pense que nada no mundo valha uma verdadeira amizade – entre amigos não há espaço para desavenças, e se for para brigar por causa de dinheiro ou coisa parecida, é melhor nem se associar. Não há que se misturar as coisas. 

Penso que se existe amizade de verdade, respeito, compreensão e maturidade, qualquer situação, ao invés de se transformar em rancor, transforma-se em lição, crescimento e fortalecimento da relação. Foi isso que li no conto indiano O panchayat. 

Jumman Sheikh e Algu Chaudhnari eram amigos da vida toda, leais e confiantes um no outro. Porém, algo aconteceu na vida de Jumman. Ele tinha uma tia muito idosa e com algumas posses. Jumman e a esposa a tratavam muito bem, mas um dia o sobrinho lhe fez a proposta de que a tia passasse para o seu nome todas as suas propriedades e ele seguiria cuidando dela. Assim que a tia lhe passou os bens, Jumman e a esposa começaram a destratar a senhora, mal lhe dando o que comer. A tia então pediu que o sobrinho ao menos lhe passasse uma “mesada” para que ela mesma comprasse sua comida e sua roupa. Nada feito. “Como uma pessoa que logo vai morrer pode se preocupar com comida e roupa?”, zombou Jumman. 

A senhora então resolveu levar o caso ao panchayat – que é uma espécie de tribunal popular muito usado antigamente na Índia, sobretudo na zona rural. Ela foi até Algu e lhe pediu que ele estivesse presente ao julgamento. No dia marcado, tia e sobrinho expuseram suas versões do caso: a tia afirmava ser maltratada; o sobrinho dizia que ela reclamava à toa. 

Como era de praxe, uma pessoa era escolhida para dar a palavra final, então a tia escolheu Algu. Jumman, ao ver que seu melhor amigo ia ser o juiz, ficou relaxado, dando a causa por ganha. Algu disse: “Jumman, você e eu somos velhos amigos. Sempre nos apoiamos em tempos difíceis. No entanto, você e sua tia são iguais perante meus olhos”. Para perplexidade de Jumman, Algu - ao lado dos demais membros do panchayat, decidiu pela senhora, afirmando que o sobrinho devia sim, pagar-lhe uma mensalidade para seu sustento, caso contrário, os bens voltariam às mãos da tia. 


Jumman, muito contrariado, jurou vingar-se de Algu. Algum tempo depois, Algu é que foi levado ao panchayat. Ele havia vendido um boi a um carroceiro, que tinha ficado de lhe pagar depois. Era um lindo e saudável animal, mas que o carroceiro explorou tanto e deixou sem água e sem comida, que o boi definhou e morreu. O carroceiro alegava que Algu lhe havia vendido um animal doente e que por isso não iria pagar nada. Diante do júri do panchayat, Algu viu que quem presidia o julgamento desta vez, era seu amigo Jumman. E ele teve a certeza de que Jumman iria se aproveitar da situação para prejudica-lo. 

Eis que, proferindo a sentença, Jumman afirma que a morte do boi foi por exclusiva culpa do carroceiro e que Algu deveria ser pago pela venda. Algu ficou alegremente surpreso e Jumman, muito emocionado, lhe disse: “Depois da sua decisão, transformei-me em seu inimigo. Hoje, no entanto, compreendi que perante a justiça não existem amigos nem inimigos. Agora estou convencido de que o panchayat é a voz de Deus”. 

No mundo moderno (mas nem por isso evoluído) em que vivemos, nem são tanto as amizades que interferem em alguns julgamentos, mas os interesses. Em uma sociedade em que se mata por uma dívida de 20 reais, um panchayat nos moldes da Índia antiga, infelizmente jamais teria espaço. O que lamento muito. 

Nada contra as leis, o Direito e seus profissionais. Apenas tudo a favor da simplicidade. 

"Assim como as pedras são polidas pelo atrito, as provações tornam os homens brilhantes" - Provérbio indiano






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